É impossível dizer se a organização de uma equipa começa na defesa ou no ataque. Não faz sentido dizer que uma equipa se começa a construir desde trás. Porque, em rigor, o que se começa a construir é o jogo e, nesse processo, ataque e defesa fazem parte da mesma lógica de comportamento táctico. Se pensarem de forma diferente, a equipa parte-se. Isto funciona para as grandes ou pequenas equipas. Depende, claro, dos jogadores, mas antes pressupõe uma noção de organização que parte do treinador.
Duas jornadas disputadas e os primeiros sinais são positivos. No geral, vê-se equipas equilibradas. Só assim as chamadas equipas mais pequenas podem combater (e até vencer) adversários mais poderosos. A Académica é um bom exemplo desta reflexão. Quer no que de positivo já fez, como no que de negativo também revelou. O importante, nos dois momentos, é ter consciência das suas intenções (do que quer fazer em campo).
Neste contexto, ouvir Jorge Costa, no fim do jogo (1-1 com o Olhanense) dizer que, mais do que o penalty no minuto 92, o facto que mais o desagradou foi “a equipa na segunda parte se ter desorganizado” revela esse sintoma de saúde competitiva. Ao ver o jogo, confesso, que, a certo ponto, fiquei confundido como a equipa queria jogar. Ou melhor, como queria construir o seu jogo. Olhando para os médios (Nuno Coelho-Diogo Gomes-Diogo Melo) surpreendeu-me ver a equipa a tentar transições tão rápidas, com tanta ansiedade em meter a bola perto da área adversária.
Cheguei a pensar que era para aproveitar a velocidade de Diogo Valente ou, sobretudo, Sougou, mas tal era algo contra-natura em relação ao estilo da equipa e do que já mostrou o treinador Jorge Costa. Perceber, no fim, que foi a «desorganização» que a levou a trair o seu próprio estilo (fazendo então um jogo mais directo) é a melhor forma de (à contrario senso) entender como se constrói (ou desmorona) uma equipa e o seu melhor jogo. A base é sempre a «organização». A dinâmica não existe no vazio. O que existe é a ocupação de espaços com maior ou menor número de jogadores.
Criar um estilo, cruza-se, muitas vezes, com a noção de cultura de clube. A Académica tem a obrigação histórica de respeitar um futebol técnico, mas, noutra dimensão temporal, um clube que deve servir de exemplo em termos de construção de identidade é o Paços de Ferreira. Os treinadores mudam, mas existe uma “impressão digital» competitiva no seu futebol (é o chamado estilo). O jogar «à Paços», frase criada pelo pai Zé Mota, nota-se mais, claro, na sua Mata Real. Os treinadores que o seguiram, sem nunca renunciar às suas filosofias próprias (como faz agora Rui Vitória) também perceberam que tentar uma, digamos, desmotização completa do estilo seria quase como adulterar a cultura de clube (e seu estilo).
É, outra forma de olhar o conceito de «organização» numa equipa de futebol. No fundo, de Coimbra a Paços de Ferreira, o ideal é perceber que a construção da equipa nunca dever ser dissociada da cultura de clube.
