No último jogo, o ponta-de-lança, insolente, enfrenta o treinador: “Porque não me tiras?” pergunta-lhe, uma, duas, três vezes, desde o relvado. O resultado estava feito, mas o treinador não pestaneja. O ponta-de-lança continua em campo e sai outro avançado. Pouco depois, golo de Ibrahimovic. O treinador sorri, interiormente.
Mourinho é campeão no Inter, mas atrás do frio resultado, esconde-se a pergunta mais importante: como ganhou este Inter o Scudetto? Com que jogo, sistema, princípios e metodologia?
Esta é que a pergunta importante, porque a grande ambição de Mourinho era ganhar revolucionando ao mesmo tempo os conceitos (jogo e treino) mais típicos do futebol italiano. Desmitificar a exacerbação da dimensão física do Calcio (onde os jogadores de uma época de outro sofrem uma transformação física impressionante) e jogar num 4x3x3 com extremos e em pressão alta (para contrastar com o típico 4x4x2 com distância entre-linhas meio-campo-ataque).
O treino de Mourinho devolveu a respiração aos jogadores, contentes por ver sempre uma bola por perto, mas a fisionomia base do onze, em vez de revelar novos traços de maior criatividade, reforçou o seu semblante robusto. É esse aliás, o perfil das equipas de Mourinho pós-Deco.
A contratação de Muntari, como o último médio eleito para completar o meio-campo, diz muito que tipo de meio-campo queria ter. E teve. Com Vieira, Cambiasso e Stannkovic sempre por perto. Sempre que via o Inter jogar, imaginava o que seria aquele meio-campo com um jogador tipo Lampard ou Deco lá metido. Seria uma revolução. Sem esse tipo de médio, foi o clássico bloco italianizado.
No sistema, o 4x3x3 durou, como aposta preferencial, até à 11ª jornada. Nessa tarde, ganhou em casa à Udinese no minuto 92. Na ronda seguinte, em Palermo, o 4x4x2 tomava definitivamente o poder e Quaresma esfumava-se. A vitória seguinte, contra a Juventus, num 4x3x1x2 com Ibra-Adriano dupla atacante, e Zanetti, Cambiasso, Muntari, Stankovic fazendo o «4» (3x1) do meio campo, disseram claramente como seria o Inter «táctico» dai para a frente. Era o fim da ilusão do 4x3x3.
A intenção de pressão alta permaneceu, mas, na maioria das vezes, mais do que ganhar a bola primeiro, esses jogadores chocavam primeiro com ela e o adversário. Dessa forma, ficavam, de facto, na sua posse, mas essa já era a cara tradicional do futebol italiano. No fundo, também a do estilo Mourinho.
Impassível, caminhando por todo este mundo táctico-físico, uma girafa que é uma fábrica de golos: Ibrahimovic. Por isso, aquela última cena, no jogo da consagração, foi quase uma espécie de ironia global da época interista.
Ranieri: o testamento
Durante a época, a Juventus foi a squadra que mais se aproximou do Inter, mas, no fim, Ranieri perdeu o segundo lugar para o Milan e acabou demitido.
Na hora da saída, o testamento táctico que fica da Juventus de Ranieri encaixa na critica global que se pode fazer ao futebol italiano. Um 4x4x2 clássico com excessiva distância entre-linhas, apostando em avançados possantes (Iaquinta, Trezeguet ou Amauri) para lutarem contra seis ou sete defesas e segurarem bolas até chegarem apoios vindos de trás.
A falta de criatividade do jogo da Juventus pode parecer estranha ao ver que Nedved e Del Piero ainda estão no onze, mas ambos já vivem muito longe do que foram no passado. O grande problema, porém, é que lhes continuam a pedir para fazer exactamente as mesmas coisas em campo. Diagonais de ruptura para surgir na zona central no espaço entre-linhas nas costas dos avançados. Uma missão contra-natura para dois jogadores que ainda podiam ser decisivos se mais protegidos desse enorme desgaste fisico-táctico. Por isso, enquanto Giovinco passou ao lado da época, a melhor Juve a pegar no jogo, foi quando surgiu Tiago e, sobretudo, o ragazzo Marchisio, 23 anos, um jogador para seguir de perto no futuro.
A Ranieri resta seguir viagem. O mapa do Calcio é longo e tem muitas paragens…
O Milan e seus fantasmas
Pode parecer estranho, mas é a imagem que retenho mais da época do Milan. Foi antes de um jogo em casa, os jogadores aqueciam e no campo, passeando pela berma do relvado em passo lento, segurando um guarda-chuva, Galliani mostrava o estádio ao filho do Emir do Dubai, que era seguido por um séquito de seguranças. De repente, param junto ao banco do Milan, e Galliani apresenta-lhe Ronaldinho que o cumprimenta, sorri timidamente e troca curtas palavras.
Que futebol é este, afinal? O do Milan, preso há varias épocas num misto de jogadores de carne e osso e pop-stars, com a táctica pelo meio; o que vive submisso ao poder financeiro árabe, quase lhe faz uma vénia, e, por fim, mais preocupante ainda, o de Ronaldinho, um jogador que há poucas épocas era o símbolo da alegria do jogo e hoje é um mero vendedor de imagens que joga cada vez menos. Em que alçapão terá caído o seu futebol? É o reflexo perfeito das luzes e sombras que moldam, na relva, o jogo do Milan. O mundo, entretanto, continua imperturbável de pernas para o ar.