COMO JOGA A LAZIO: O belo 4x4x2 de Mancini

March 20, 2003 12:00 AM
UM SISTEMA QUE VIVE DO JOGO PELOS FLANCOS

Enquanto jogador, era costume dizer-se que as equipas onde ele alinhava, tinham sempre dois treinadores: aquele que se sentava no banco, e outro, no relvado, como o nº10: Roberto Mancini. Hoje, apenas á margem das quatro linhas, é já uma das maiores revelações entre os treinadores do novo Calcio. A Lazio 2002/03 é feita á sua imagem. Uma equipa descontraída, profeta de um futebol a um, dois, três toques, onde os artistas têm sempre lugar, mentores de um 4x4x2 que ganha asas no jogo pelos flancos. Este é o seu perfil táctico essencial:
Depois de na época passada, ainda com as estrela Nesta e Crespo, ter, sob as ordens de Zacheronni, ensaiado preferencialmente o 3x4x3, nesta temporada, sob a batuta de Mancini, a Lazio reciclou o seu sistema e voltou a esquematizar-se num clássico 4x4x2, que tem a particularidade de se estender a toda a largura do campo apostando, para isso, sobretudo no jogo pelos flancos, através de dois médios-ala volantes que são como que as asas propulsoras da linha de quatro do meio campo. Na faixa esquerda, mesclando a fantasia brasileira com a concistência táctica transalpina, o brasileiro César, antes lateral-esquerdo ofensivo, revela grande profundidade atacante, procurando sempre a linha para centrar. No outro flanco, na direita, mora a maior inovação táctico-posicional realizada por Mancini: Fiore, antigo médio defensivo central, estilo trinco, posto onde se destacou na Udinesse e foi titular na selecção no Euro-2000, agora transformado num médio-ala direito de grande inteligência e astúcia defensiva. Depois de um inicio de época algo hesitante, adaptou-se á nova posição, tornado-se hoje num dos pilares em que assenta o mecânica colectiva do onze. Lembra, pelo posicionamento e estilo semelhante na função, Donadoni no inesquecível Milan dos anos 80/90. Parte de junto á linha, onde se planta como um típico médio ala com vocações de extremo, mas dispondo de grande liberdade de acção, flecte depois no terreno, procurando triangulações ou servir os avançados com passes diagonais, para além de conservar sempre o instinto de remate, pelo que, na sequência desses movimentos, surge muitas vezes em zona de tiro, onde pode ser mortífero, com o seu pontapé muito colocado, quase sempre em arco.

A variante 4x3x1x2 e a ratoeira que apanhou o Besiktas: 4x4x1x1

Na zona central, dois jogadores de técnica e garra: Stankovic e Simeone, sendo as outras opções Giannicheda, trinco puro, Lazetic, mais criativo, e Liverani, o ex-eleito de Zacheronni. Como Mancini não é muito adepto do trequartista no sentido puro do termo (o regista que, sem ser 9 nem 10, joga entre o meio campo e o ataque, fazendo o 3x1x2) preferindo antes abrir a frente de ataque, ora procurando cruzamentos á linha, ora explorando a profundidade ofensiva dos seus dois médios centrais, exímios a rasgar vindos de trás, o homem-chave do meio campo nesse sistema é o imaginativo e tecnicamente agressivo Stankovic que com Zacheroni, em 3x4x3, jogara muitas vezes como médio-ala esquerdo, posto agora ocupado por César. Com Mancini, em 4x4x2, com a sua excelente visão de jogo e transporte de bola, ele é, muitas vezes, o playmaker do onze, a sua principal referência em termos de coordenação ofensiva. Nesse momento, com a sua subida, a equipa passa a desenhar-se em 4x3x1x2, mas tal trata-se apenas de uma ténue variante ofensiva utilizada nos jogos com adversários teoricamente mais inferiores, como o Como no domingo passado. Mal perde a bola, regressa-se automaticamente ao 4x4x2 clássico, com a linha de quatro médio colocado de perfil a defender, mas, á excepção de Simeone, sem grande capacidade de pressing na marcação á zona.Como principal referência a seguir por José Mourinho deve estar, no entanto, a surpreendente postura táctica adoptada por Mancini no jogo da segunda mão dos ¼ final da Taça UEFA, na Turquia, frente ao Besiktas. Quando se espera uma avalanche ofensiva turca desde o inicio, Mancini surgiu com um traiçoeiro e inédito 4x4x1x1, com Fiore na posição de trequartista atrás do ponta de lança Lopez (ficando Chiesa no banco). Um esquema aparentemente defensivo, mas nem por isso menos venenoso. Antes se revelou mortífero, com dois golos nos primeiro nove minutos, porque com o inteligente Fiore, um jogador de grande qualidade técnica e cultura táctica (ficando Stankovic alguns metros mais recuado), sempre pronto a lançar a velocidade de Lopez em passes verticais, por sua vez apoiado nas alas por César, á esquerda, e Castroman, a direita, a Lazio confundiu o onze de Lucescu que, depois de partir em 3x4x1x2, logo alterou, em face dos problemas criados pela armadilha italiana, para 2x5x1x2, para tentar reconquistar o meio-campo. Tarde demais. A ratoeira de Mancini funcionara na perfeição.

O ataque e a defesa: Os dois extremos do 4x4x2

Na defesa, a dupla de centrais preferencial é constituída por Stam e Fernando Couto, mas como o gigante holandês está lesionado, Mancini fará regressar Miajlovich ao eixo da defesa. Apesar de manter o mesmo carácter, já não é o jogador de outrora, embora esta época, jogando muitas vezes á frente da defesa, tenha começado muito bem: antecipa, fecha, corta e relança o ataque, com precisos lançamentos longos. Parece, no entanto, ter perdido a sua eficácia portentosa na marcação de livres. Nas faixas, Pancaro, na esquerda, e Favalli, na direita, são sobretudo laterais de apoio e não de desequilibro, missão entregue aos médio ala volantes César e Fiore. Na baliza, um excelente guarda redes: Peruzzi. No ataque, para compor a dupla de setas do seu 4x4x2, Mancini dispõe de quatro alternativas, cuja aposta varia em função da postura táctica ser mais ou menos vocacionada para o contra ataque, estratégia onde a velocidade de Claudio Lopez é a principal arma. Com espaço para correr e soltar o seu drible em progressão que o faz parecer saltar sobre os adversários, o piolho argentino é um jogador letal como poucos no futebol mundial. Para maior sossego do FC Porto, de fora fica, porém, o melhor avançado centro do onze, Corradi, um nº9 muito potente, exímio a cobrir a bola corrida rumo a baliza, buscando um buraco para o remate, e nos cabeceamentos entre os centrais. Um avançado que, em Itália, só tem paralelo em Vieri, cujo estilo é semelhante, mas que como jogou pelo Inter na Liga dos Canpeões (contra o Sporting), já não pode actuar na Taça UEFA esta época. As outras soluções serão, Simone Inzaghi, que busca recuperar a sua melhor forma e um jogador que é uma referência do Calcio: Chiesa, renascido após paragem por longa lesão. Muito experiente, com sentido de baliza típica de um predador das redes e sublimes dotes técnicos exibidos em remates de primeira, é um avançado quase impossível de marcar.

Artigos Relacionados

  • Ranieri, destino fatal Ranieri, destino fatal March 24, 2012 Após Mourinho, é impossível um treinador manter os mesmos jogadores. Do núcleo duro até às paredes, tem...
  • NOTAS 2011/12 (34) NOTAS 2011/12 (34) March 24, 2012 1. Viana e a selecção; 2. Recuar para...atacar; 3. Buscando espaços
  • “Substituição defensiva” “Substituição defensiva” March 22, 2012 A maior prova de sensibilidade táctica do treinador: meter um jogar mais defensivo e a equipa passar a...
  • As "ratoeiras" da velocidade As `ratoeiras` da velocidade March 15, 2012 Uma equipa lenta como jogadores rápidos. Uma equipa rápida com jogadores lentos. Pode ser?
  • A “firma” de Klopp A “firma” de Klopp March 15, 2012 Qual o verdadeiro valor de um dos treinadores menos falados mas, talvez de mais futuro no actual futebol...