Neste sentido, a exibição vitoriosa do onze de Ancelotti, ao conciliar, na zona de criação, quatro maestros fantasistas (Pirlo-Seedorf-Rui Costa-Kaká, todos com grande precisão de passe, curto ou longo) foi a mais bela lição da época como é ainda possível conciliar, sob o mesmo sistema, espectáculo e eficácia. Uma armadilha táctica que espantou Capello, preparado para o tradicional Milan com dois pontas de lança (Shevchenko-Inzaghi) e um trequartista. A chave do segredo esteve em só jogar com um ponta de lança (Shevchenko) e inserir mais um médio, dividindo o meio-campo em duas linhas: a recuada de contenção, Seedorf, á esquerda, Pirlo, no centro, Gattuso, á esquerda, e a de criação ofensiva, Káká, á direita, e Rui Costa, a cair sobre a esquerda, ambos como falsos avançados ou mezza-puntas, como lhe chamam os italianos. Com este esquema, Ancelotti ganhou, ao mesmo tempo, o meio campo e travou o jogo pelas faixas que fora esta época a maior arma da Roma de Capello (sobretudo com o lateral direito Mancini), em cujo meio-campo se sentiu a falta de um regista, pois Totti jogou muito adiantado, colado a Cassano e Carew, enquanto os dois trincos, Emerson-Dacourt, muito sólidos a defender, actuam demasiado recuados, á zona, sem profundidade ofensiva. Depois, no ataque, frente a uma defesa a «3» (Panucci-Samuel-Chivu), estendida em toda a largura do campo, Shevchenko sabe que os espaços de penetração tem de, obrigatoriamente, surgir, e, movimenta-se constantemente num estonteante jogo de desmarcações criador de mortais linhas de passe, pelas quais furaram as divinais assistências de Seedorf e Rui Costa para os dois golos do mortífero ucraniano.
Apesar de toda esta dinâmica, mais uma vez se provou, porém, que os grandes jogos decidem-se em pormenores, como o que deu o segundo golo do Milan, só possível, naquelas circunstâncias, devido ao facto de Dacourt ter ficado a queixar-se de um toque. A Roma marcou a falta rápido, mas, sem ordem, perdeu de imediato a bola, Rui Costa recuperou-a e descobriu uma auto-estrada para o contra-ataque. Se o jogo ficasse interrompido, Dacourt tinha recuperado a posição, no centro, e Rui Costa, marcado á zona, não teria espaço para correr meio campo com a bola, até, já na entrada da área, fazer um passe de morte para Schevchenko.
TÁCTICAS:
Celta, o desastroso
3x5x2 de Lotina
Tal como sucede com a Real Sociedad, o desgaste físico e emocional da presença simultânea na Liga dos Campeões e Espanhola deixa marcas, mas as razões para a goleada sofrida frente ao Corunha (0-5) e do actual 18º lugar na tabela, são mais profundas do que apenas fruto de uma equipa mentalmente esgotada.
Assim, analisando os últimos jogos, conclui-se que a principal razão para a actual hecatombe do Celta, reside, claramente, numa gigantesco equivoco táctico protagonizado pelo treinador Lotina, que, após se consagrar como um dos mais pragmáticos do futebol espanhol, fiel adepto do 4x4x2 e suas variantes, decidiu, esta época, apostar num desconexo 3x5x2 ou 3x4x3, para o qual não tem, indiscutivelmente, nem jogadores, nem, face o desgaste atlético destes, disponibilidade física para o executar.
Pelas suas características, exigindo jogadores rápidos e super inteligentes no plano táctico e técnico, o 3x5x2 e suas variantes, é um sistema impossível de universalizar. No caso do Celta, o erro começa, desde logo, no trio defensivo, no qual, para a segurança defensiva do sistema, se exigem defesas rápidos que saibam dobrar nas alas, missão também a cargo dos trincos, e laterais, por definição ofensivos, que saibam marcar á zona. Numa frase, tudo o que este Celta não tem. Os laterais, Silvinho-Angel não tem elasticidade defesa-ataque, os defesas Caceres, Berizzo e Contreras, sobretudo estes dois últimos, são de uma lentidão desesperante e, na zona dos trincos, só Luccin sabe dobrar nos flancos, mas não é genericamente um lutador e, com José Ignácio sempre mais adiantado, não pode, como é evidente, estar em dois lugares ao mesmo tempo: a iniciar a saída de bola e a fazer compensações posicionais fora de lugar. Um sistema que frente ao Corunha de Irureta, um dos treinadores tacticamente mais cínicos do futebol espanhol, rigoroso a defender e venenoso no contra ataque pelos flancos, se revelou um verdadeiro suicídio, vislumbrado desde os primeiros minutos perante a incrível passividade de Lotina.