Como se constrói um 10-0

October 30, 2010 9:17 PM
Pergunta de “nível 4”: Quando se perde por 10-0 deve o treinador mexer na equipa no jogo seguinte?

 

Cada jogo tem a sua história. Entre a ciência e a imprevisibilidade. No fim, porém, só triunfa uma. Como se explica, então, uma derrota por 10-0? Falar de questões tácticas quando se perde por dez golos é quase surrealista. Porque ninguém perde 10-0 por falhar tacticamente. O mundo do Feyenoord está em estado de choque mas se em vez do 4x3x3 tivesse jogado em 5x4x1, era a mesma coisa. 
Neste jogo específico, tudo começa pela inspiração do PSV, mas rapidamente passa para o onze destroçado do Feyenoord, que ficou reduzido a 10 logo aos 35 minutos (expulso o lateral Leerdam, passou um central para a faixa e entrou Martins para o eixo). Na equipa, coexistem, separados por poucos metros, um guarda-redes de…41 anos (Van Dijk, onde a agilidade já não o ponto forte) e um defesa-central de…18 (De Vrij, o tal que foi para lateral, ou Martins, da mesma idade). É o que mais perturba: ver jogadores (alguns com valor, como o extremo Wijnaldum) tão novos metidos neste filme, do qual saiu cedo, por lesão, o melhor médio, Leroy Fer, de 20 anos, e nem entrou o bom avançado russo Smolov, 20, lesionado.
 
Esta ideia pode parecer um paradoxo, mas penso que quanto maior a goleada, menos hipóteses teria o treinador Mario Been de ser despedido. Após um 10-0 é impensável considerar que a culpa foi só do treinador ( se fosse apenas com 4-0, se calhar, já não seria assim). Os problemas (crise) do Feyenoord são muito mais profundos. Por isso, não me espantou Been não ser demitido. O irónico, porém, é que já não acredito que resista a uma derrota em casa, mesmo por…0-1. O futebol tem linhas de raciocínio mesmo muito estranhas.
Agora, coloca-se uma questão que até podia estar nos cursos de treinador: quando se perde por 10-0 deve-se mexer na equipa no jogo seguinte? Pois bem, neste caso, no jogo seguinte, logo três dias depois, na quarta-feira, Been colocou exactamente a mesma equipa. Sinceramente, penso que foi a resposta…certa. Porque para ultrapassar um trauma desta dimensão, nada melhor do que voltar a jogar o mais rápido possível, voltando a colocar em campo os mesmos jogadores. Contra o Venlo, ganharam…0-3.
 
Uma coisa que espanta no jogo da goleada é que ao intervalo ainda só estava 2-0 e a equipa até tinha tentado uns contra-ataques. O desmoronamento do segundo tempo começa na cabeça e passa para as pernas. A bola não entra nisto. Rapidamente, o PSV (com o estádio cheio e o publico em êxtase) faz mais três golos e, a partir dai, os jogadores do Feyenoord deixaram de correr, de marcar e de…falar. O clube (e equipa) está corroído por dentro. E, para tornar tudo mais burlesco, o jogo termina com o 11-0 invalidado por fora-de-jogo
 
 

 

 

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