São as duas equipas que mais respeitam a bola no futebol europeu. As suas filosofias de posse têm como base a qualidade de passe na construção de jogo. Desenham, porém, diferentes estruturas (Barcelona, 4x3x3; Arsenal, 4x2x3x1) e respectiva ocupação dos espaços (com maior largura o Barça, metendo a bola nos flancos, pedindo a acção de um extremo ou a subida dos laterais; mais pelo corredor central os gunners, pedindo as subidas dos pivots, diagonais dos alas e tabelas com o segundo avançado). Guardiola e Wenger não são, porém, duas faces da mesma moeda estilística. Diferem muito no lado estratégico do jogo. Guardiola tornou dogmático o jogo do Barça. Um produto acabado que joga de memória. Não cede (nem sente) a outras tentações. Wenger tem outra elasticidade estratégica, nuance que se nota sobretudo nos jogos europeus. A forma como o Barça começa a trocar a bola, brincando com o fogo, no seu meio-campo, perto da área, entre os seus centrais, pivot e médios que recuam, arrepia pelas zonas de risco máximo em que o faz.
Por isso, o duelo Arsenal-Barcelona não foi uma batalha entre duas culturas de posse de bola. O momento que marcou a diferença foi quando o onze de Wenger fugiu a esse jogo de espelhos, aumentou os índices de pressão do seu duplo-pivot (Song-Wilshire) sobre os médios arquitectos do Barça (Xavi-Iniesta e depois Keita) e, mesmo baixando linhas em algumas fases, activou o radar de recuperação da bola, esperando o momento certo (intercepção de linha de passe) para lançar transições rápidas.
Ou seja, procurou levar o jogo para outro território, longe da batalha da posse. Uma estratégia que confundiu o dogma de jogo do Barça. De repente, o seu espelho inglês de estilo desaparecera do relvado e à sua frente aparecia, quase saída de um alçapão secreto no relvado, uma equipa do mais puro contra-ataque. E, quando, nos últimos vinte minutos, o jogo naturalmente se partiu tacticamente (entenda-se maior espaço entre-linhas e distância entre sectores) os seus jogadores mais rápidos ou um plano de jogo com passes mais longos, viraram o jogo (e resultado) de pernas para o ar. Moralmente num plano superior, Guardiola manteve o seu plano imutável, procurando meter o jogo no congelador.
O instante em que surgiu Nasri (que antes, fisicamente debilitado, recuara no terreno) solto na ala direita para, numa combinação perfeita de arranque-pausa-passe, inventou o lance do golo da vitória. Esta «fuga filosófica» do Arsenal foi como um vírus na programação informática de um jogo que estava formatado para se desenhar e decidir pelos conceitos da posse. O contra-ataque como intruso. Primeiro, assustou. Depois, decidiu.