Quando recebe a bola, levanta a cabeça e arranca com ela dominada, personalizado e com aura de líder, até já parece ter muitos anos disto. Chama-se Lucas Leiva Pezzini, 20 anos, e é o grande motor do sedutor Brasil Sub-20. O apelido denota antepassados italianos, o que aumenta ainda mais o interesse europeu. Tem tudo para ser um chamado duplo-craque: de nascimento e pelo que ainda pode aprender no futuro.
Junto com Pato, ambos oriundos da musculada região sul do Brasil, respectivamente Internacional e Grémio, eles foram as duas grandes figuras do onze canarinho campeão sul-americano Sub-20/2007. Mas, enquanto Lucas, médio-volante, já revela maturidade para poder sair já da casca e aventurar-se, sozinho, nos relvados europeus, o empolgante Pato, avançado, ainda precisa de amadurecer um pouco mais o seu jogo. É, ainda, digamos, um pato em fase de crescimento...
Como joga o Brasil

Orientada por Nelson Rodrigues, o Brasil partiu sempre do 4x4x2, com uma possante dupla de centrais (Eliezio-Heleno ou David) e laterais ofensivos (Fagner, à direita, e Carlinhos, à esquerda. Amaral pode jogar nos dois lados).
O meio-campo dividiu-se em duas linhas, a dos volantes, médios defensivos (Lucas-Roberto), embora ambos com liberdade para subir no apoio à segunda linha, mais adiantada, onde moram os organizadores criativos que jogam nas costas da dupla atacante: Leandro Lima, talvez a maior revelação do torneio, pela imaginação e capacidade de arrastar, e Willian, com perfil mais próximo do nº10. Lê o jogo com mas calma, abre, domina e depois surge em zonas mais centrais a desequilibrar.
Lucas-Roberto-Lima-Willian. Foi este o quarteto preferencial que formou o quadrado do meio-campo brasileiro. Todos destros, diga-se. Outra opção, foi Tchô, um repentista que finta, passa e remata, nas costas dos avançados. Talentos que enchem o meio campo e fazem com que a chamada zona de construção não se limite ao espaço clássico dos nº10 e se estenda por todo o campo e comece mesmo à frente da defesa, com os cortes de Roberto e as subidas de Lucas.
Abertos no ataque, duas duplas se evidenciaram. Primeiro Edgar-Fabiano Oliveira, mais possante e posicional, depois, Pato-Luiz Adriano, mais móvel e criativa. Podia ser óbvia a escolha pela segunda opção, mas, face aos dilemas tácticos, o técnico quis conciliar as duas facções. Face ás limitações técnicas de Edgar, e à menor mobilidade de Fabiano Oliveira, a melhor dupla foi claramente a constituída por Pato e Luiz Adriano, este descaindo sobretudo na meia-esquerda e furando depois desde aí rumo ao golo.
A arte argentina
e a garra uruguaia

O jogo do Uruguai foi uma das notas mais positivas do Torneio. Qualidade técnica e garra, num estilo de rosto europeu, defensivamente sólido, com a melhor dupla de centrais do torneio: Kagelmacher-Caceres.
A meio-campo, só com um pivot-defensivo, Arismendi, apoiado por dois interiores que nunca perdem o sentido posicional, Roman sobre a meia-direita, e Vonder Putten, canhoto, sobre a meia-esquerda, onde vê passar muitas vezes em subidas ao ataque o lateral Diaz. O médio mais criativo é Cardaccio, passe e toque.
A arte fica, assim, reservada para o ataque, com Figueroa ou Scorza e Cavani sempre de olhos na baliza, embora quando queira jogar em 4x3x3, faça descair Cavani para uma faixa. Nos flancos, a grande arma é o esquivo Surraco. Rápido, dribla, procura a área e passa atrasado.
Orientada por Hugo Tocalli, antigo adjunto de Pekerman, a Argentina jogou no mesmo sistema da selecção principal. Um falso 3x5x2, pois quando defendia o carrilero esquerdo (García) recuava e o central pela direita (Torren ou Fazio) alargava para fechar na faixa direita, ficando assim a defender a «4».
O volante central Banega confirmou a sua visão de jogo, mas fisicamente leve, custa-lhe a fazer a transição defesa-ataque, permitindo, assim, que o nº10 Moralez brilhe como o grande organizador da equipa. Foi, talvez, para o libertar mais, que, a meio da prova, Tocalli relegou Banega para o banco e passou a jogar com duplo-pivot defensivo (Yacon-Sanchez) em 3x4x1x2. No trio de centrais, atenção a Cahais.
Na frente, Sosa, entrando sobre a direita em combinação com Acosta, e Mouche, um canhoto que não para um segundo, fazem uma dupla muito móvel.
Um golo no último minuto, no jogo decisivo contra o Uruguai, inverteu, porém, todas as indicações dadas no resto do torneio, e foi a Argentina, conquistando o segundo lugar, a garantir um lugar nas Olimpíadas de 2008. O Uruguai (3º) vai ao Mundial Sub-20.
Rebeldes do Chile e Paraguai,
leveza da Colômbia e Equador

Saídos do baby-onze do Colo Colo, a selecção chilena deixou notas de bom futebol. Faltou-lhe apenas mais agressividade, mas o 4º lugar garantiu-lhe a última vaga no Mundial-20. A meio-campo, Alexis Sanchez é o tipo de jogador que quando recebe a bola parece querer resolver um jogo sozinho. E, por vezes, talvez o resolva mesmo, com a sua capacidade de desequilibrar no um para um, abrindo espaços e fazendo passes de morte. Outro nome é o do médio Vidal, muito bem na ligação com o ataque à frente dos médios defensivos.
O Paraguai, jogando em casa, revelou muitas limitações, só disfarçadas quando a bola ia parar aos pés do médio-centro ofensivo Montiel. Belo jogador.
A Colômbia limitou-se, apenas, a alguns rasgos individuais e viveu, sobretudo, da magia de Juan Pablo Pino. Para além dele, fixem o médio rompedor Quintero, quase como um segundo avançado,
O Equador foi a principal decepção. Com um jogo estruturalmente lento, revelou pouca mobilidade e acabou eliminada na primeira fase. Como principal nome para o futuro, sigam o avançado Caicedo, do Basileia suíço, revelou bons pormenores e mostrou que sabe movimentar-se entre os defesas.