COSTA DO MARFIM: O Reino de Drogba

March 21, 2005 12:00 AM
Nunca esteve num Mundial, mas, nos últimos tempos, transformou-se num dos mais fascinantes viveiros de talentos do futebol africano: a Costa do Marfim. É impressionante a qualidade e quantidade de muitos dos seus jogadores a alinharem na Europa: Touré, Meite, Zokora, Kalou, Ettien, Drogba, Dindane e muitos, muitos outros... O sonho dos Elefantes é, agora, chegar á Alemanha-2006 e lograr a melhor classificação de sempre de uma selecção africana num Mundial...
Entre os fantásticos relvados e estádios de Arsenal e Chelsea, em Inglaterra, ou do Marselha, em França, e o campo de relva queimada e terra revolta do Stade de l`Amitie, em Cotonou, no Benin, existe um abismo a separar estas duas realidades. Um mundo de contrastes que talvez explique a diferença de brilho exibicional de estrelas como Drogba, Kalou ou Dindane quando abandonam os habitats dos grandes clubes europeus onde jogam e regressam, á África profunda, para jogar pela selecção que os viu nascer: a Costa do Marfim. O futebol africano continua estruturalmente preso a um atraso gigantesco. Os últimos anos têm sido de avanço, mas o caminho a percorrer ainda é longo. Só essa diferença de condições, a todos os níveis, poderá impedir a saga de um país que se tornou, nos últimos anos, uma verdadeira fonte inesgotável de jogadores fabulosos que passeiam classe, técnica e atlética, em vários pontos do futebol europeu: como os defesas Touré, Meite e Domoraud, os médios Zokora, Bonaventure Kalou e Ettien, e os avançados Drogba, Kalou e Dindane, entre muitos outros. É a geração de ouro do futebol da Costa do Marfim. Na memória dos seus adeptos, ainda está a selecção campeã africana em 1992, o único titulo continental conquistado, sob orientação por Yeo Matiel (hoje director técnico nacional) com um onze onde estava o perigoso ponta de lança Traoré, mas nada comparável com o talento e a categoria da actual selecção de Drogba que faz sonhar um país inteiro.

A dura transição clubes-selecção

Tal como outras antigas colónias francesas, mantendo a sua ligação com a cultura francófona, a Costa do Marfim continua a ser orientada, ciclicamente, por treinadores gauleses. Depois de Robert Nouzaret, o actual comandante é o trota-mundos Henri Michel, no cargo desde Março de 2004. Após a França em 1986, os Camarões em 1994 e Marrocos em 1998, o objectivo agora é levar os elefantes, pela primeira vez na sua história, á Fase final de um Mundial, na Alemanha, em 2006. Apesar do valor dos jogadores ao dispor, não é, porém, uma tarefa fácil. No campo, os principais adversários são os Camarões e a Libia, mas a principal missão de Henri Michel reside em incutir espirito de equipa num grupo de jogadores que, muitas vezes, chega á selecção sem grande concentração (presos ás obrigações com os seus clubes), após longas viagens e com pouco tempo para e inserirem na nova realidade competitiva. O tempo para treinar é, por isso, quase nenhum. É quase chegar e jogar. Perante adversários tecnicamente mais fracos, mas que, hipermotivados por defrontarem grandes estrelas, transformam cada jogo numa verdadeira batalha. Foi o que sucedeu, por exemplo, na ultima deslocação ao Benin, onde apesar da clara superioridade, a vitória só surgiria num solitário golo de Dindane. É certo que o pobre estado dos relvados africanos penalizam as melhores equipas tecnicamente, mas esta quebra exibicional é mais do que um caso de inadaptação ou, até, uma questão de excesso de confiança. Falta personalidade de equipa, individual e colectivamente. Se chegarem á fase final, noutra atmosfera competitiva, têm, no entanto, valor para lograr a melhor classificação de sempre de uma selecção africana num Mundial.

Um questão de dupla personalidade

Noutro plano, verifica-se o estranho caso de muitos jogadores como que perderem, nesta transição Europa-África, a personalidade evidenciada no futebol europeu. Veja-se, por exemplo, o caso do médio ofensivo organizador de jogo Bonaventure Kalou. No Auxerre manda no jogo, na selecção parece ter receio em assumir-se como um líder. Tacticamente, porém, Henri Michel é, m termos de abordagem do jogo, um treinador demasiado defensivo para a categoria dos avançado o dispor da Costa do Marfim. Talvez influenciado elo facto o sector mais fraco da equipa ser claramente a defesa, opta por posturas demasiado conservadoras, sobretudo nos jogos fora, onde chega a esquematizar um 4x5x1 ou 4x4x1x1 de rosto muito fechado. Foi o que sucedeu, por exemplo, na deslocação aos Camarões, passaram quase noventa minutos a defender, a jogar claramente para o empate, acabando por perder, perto do fim, por 2-0, com total justiça. Há, portanto, que destinguir duas realidades dentro do futebol da Costa do Marfim. O das grandes estrelas que jogam no estrangeiro e o praticado internamente no seu campeonato pelas suas equipas, onde se destaca o ASEC Mimosas, histórico clube africano, mas com um nível incomensuravelmente inferior. Nos últimos anos, a situação melhorou um pouco tendo em conta sobretudo a acção das academias de Sol Benin e, sobretudo, do belga Jean Marc Guillou, em Abidjan, de onde saem muitos jogadores para a Europa, quase todos através do Beveren, hoje quase uma espécie de extensão do futebol da Costa do Marfim nos relvados Europeus. A selecção continua, porém, a ser toda composta por jogadores a alinhar no estrangeiro. O único que joga fora da Europa é o guarda redes Jean Jacques Tizie, titular das redes do Esperance Tunes, da Tunisia.

A CONSTELAÇÃO DA COSTA DO MARFIM ALÉM-FRONTEIRAS

NOME- IDADE - CLUBE - LUGAR Jean Jacques Tizie 33 anos, Esperance Tunes (Tunísia), Guarda redes Gerard Gnanhouan, 26 anos, Sochaux (França), Guarda redes Kolo Touré 23 anos, Arsenal (Inglaterra), Defesa Emmanuel Eboué, 21 anos, Arsenal (Inglaterra), Defesa Cyril Domoraud, 33 anos, Creitel (França), Defesa Kouassi Blaise, 31 anos, Guingamp (França), Defesa Abdoulaye Meite, 24 anos, Marselha (França), Defesa Olivier Tebily 29 anos, Birmingham (Inglaterra), Defesa Arthur Boka, 21 anos, Strasbourg (França), Defesa Doba Lezou, 27 anos, Lokeren (Bélgica), Defesa Marc Zoro, 21 anos, Messina (Itália), Defesa Serges Die, 27 anos, Nice (França), Médio Diddier Zokora, 24 anos, Saint-Ettiene (França), Médio Bonaventure Kalou 27 anos, Auxerre (França), Médio Yapi Yapo, 23 anos, Nantes (França), Médio Gautier Akalé, 24 anos, Auxerre (França), Médio Marco Né, 21 anos, Beveren (Bélgica), Médio Yaya Touré, 21 anos, Metalurg Dontesk (Ucrania), Médio Guy Demel, 23 anos, Borussia Dortmund (Alemanha), Médio Tchiressoa Guel, 29 anos, Nancy (França), Médio Akale Kanga, 23 anos, Auxerre (França), Médio Aruna Dindane, 24 anos, Anderlecht (Bélgica), Avançado Felix Ettien, 25 anos, Levante (Espanha), Avançado Didier Drogba 26 anos, Chelsea (Inglaterra), Avançado Dagui Bakari, 30 anos, Lens (França), Avançado Salomon Kalou, 19 anos, Feyenoord (Bélgica) - Avançado Mamadou Bagayoko, 25 anos, Nantes (França), Avançado Bakari Kone, 23 anos, Lorient (França), Avançado Kone Arouna, 21 anos, Roda (Holanda), Avançado

O ONZE BASE

Artigos Relacionados