Durante os anos 80, alguém disse, com ironia, que a fabulosa equipa do Real Madrid conhecida como La Quinta del Buitre não era mais do que 40 golos de Hugo Sanchez por época. É um opinião polémica, mas, sem diminuir o talento dessa geração merengue, deve-se dizer que foi o mexicano quem lhe deu a sublime cor goleadora. Nunca se conhecera ninguém que tivesse tal intimidade acrobática com o golo como ele.
Produto de um futebol que cresceu vendo jogar os magos sul americanos que moram ao lado, Hugo Sanchez teve de largar o sombrero mexicano, para se tornar famoso a nível mundial. Futebolisticamente inserido na região da América central, o México, apesar do enorme valor de muitos dos seus clubes e de, desde 1982, não ter falhado um apuramento para o Mundial, incluindo o de 90 em que seria suspenso devido a fraude de idades nas selecções jovens, nunca atingiu grande projecção mundial, quer nível de clubes ou selecção, permanecendo os seus onzes quase desconhecidos fora das fronteiras da América Central.
Para Manuel Lapuente, o senhor futebol mexicano, tal se fica a dever ao fraco quadro competitivo em que elas se inserem, sem oposição nas provas da CONCACAF, defendendo, desde há muito, a integração do futebol mexicano nos torneios sul americanos, disputando inclusive a Copa Libertadores. O facto da selecção disputar a Copa América é um bom prenúncio desse objectivo.
Neste cenário, a selecção Asteca que esta semana se desloca a Ohio, para defrontar os EUA, no clássico da CONCACAF, continua a ser a clara favorita ao apuramento para o Mundial 20002. Os históricos duelos México-EUA, já duram há 67 anos. O primeiro confronto foi em 1934 e nos 43 duelos que desde aí se realizaram, o onze mexicano venceu 27, perdendo apenas 9, mas nos últimos 12, apenas por 4 vezes dobrou os cowboys que, em 2000, venceram, por duas vezes, os astecas.
É por toda este passado, que o seleccionador mexicano Enrique Meza, considera este jogo uma final, para a qual confia no guarda redes das cores berrantes Jorge Campos, no central Márquez e no talento técnico-guerreiro do avançado Luís Hernandez, enquanto espera pela recuperação de Blanco, o inventor da famosa finta da rã. Do outro lado, estará o soccer, que reúne no seu onze, a fiel imagem de microcosmos que define a sociedade americana, onde o futebol é sobretudo, um produto da segunda geração de imigrantes, reunindo genes futebolísticos de vários continentes, como o capitão Claudio Reina, jogador do Glasgow Rangers. No conjunto de 25 jogadores que são a base sobre a qual Bruce Arena irá construir o onze yankee, onde ainda ambiciona jogar o carismático guarda redes Tony Meola, estão 14 homens que alinham na MLS, a Liga americana, mas o maior toque competitivo é dado por aqueles que jogam na Europa, como Moore, do Everton, o guarda redes Friedel, do Blackburn Rovers, McBride, do Preston, O`Brien, do Ajax, e o jovem Donovan, 18 anos, do Bayer Leverkussen.
JAMAICA E TRINIDAD E TOBAGO:
O RITMO DAS CARAÍBAS
Bob Marley, um assíduo das peladinhas nos baldios de Kingston deve estar orgulhoso. Em França, no Mundial-98, a sua Jamaica foi a selecção mais acarinhada, pela imagem atraente, alegre e exótica que transmitiram. O seu futebol, solto, talvez demasiado elaborado tacticamente para a pureza técnico-táctica dos Reggae Boys, cativou todo o mundo, desejoso de voltar a ver a pureza dos sorrisos na cara dos futebolistas de alta competição. Baseado em jogadores a actuar no futebol inglês, foi a primeira selecção das Caraíbas a atingir a fase final de um Mundial.
O novo seleccionador é o brasileiro Clovis de Oliveira, antigo jogador do Vasco da Gama, que chegara a Kingstom, anos atrás, junto com Rene Simões, para se ocupar da selecção Sub-23. Com a partida de Simões, e descartada a aposta em Lazaroni, acabou por assumir o comando dos Reggae Boys, que sonham levar ao Oriente os ritmos e as cores das Caraíbas, de novo dançadas no relvado pela técnica primitiva de Marcus Gayle e Deon Burton, heróis do sedutor futebol jamaicano.
Para muitos, Trinidad e Tobago, é, somente, a terra de Dwight Yorke, striker do Manchester United. A verdade, porém, é que, antes de partir para a Velha Albion, ele não vivia sozinho nesta quente ilha das Caraíbas, onde também nasceu a arte futebolística de Latapy. Hoje eles continuam os líderes espirituais do futebol tobaguenho, que depois de terem perdido, em casa, no último jogo frente aos EUA, o apuramento para o Itália-90, passou a ver o Mundial como uma miragem que desaparece sempre que se aproxima demais. Mas, Ian Porterfield, o treinador escocês dos Soca Warriors quer provar que os oásis existem no futebol, baseando a selecção em 12 jogadores a actuar na Europa, onde está o guarda redes Shaka Hislop, há vários anos no futebol inglês, hoje no Reading, da Division II, mas que passou pelo West Ham e Newcastle. Este Mundial será a última oportunidade para aquele que muitos consideram a melhor geração de sempre no futebol das Caraíbas.
HONDURAS E COSTA RICA:
MEMÓRIAS DA GUERRA DO FUTEBOL
Intérpretes do mais empolgante derby da América Central, Costa Rica e Honduras, reflectem nos seus duelos um cocktail de estilos, que mescla a picardia latino americana com a doce técnica do seu futebol miscigenado que adora driblar. Para se entender a forma vibrante como se vive o futebol por estas paragens, basta recordar o célebre jogo, decisivo de apuramento para o Mundial-70, entre as Honduras e El Salvador, detonador, em 1969, da chamada guerra do futebol. Tendo o jogo sido realizado numa época em que as relações entre ambos os países agudizavam numa serie de graves problemas, de ordem fronteiriça, migratórias e económicos, foram palco de inúmeros incidentes que acabaram por originar um conflito armado que só findaria cerca de seis meses depois, duas semanas antes do inicio do Mundial, em que estaria presente Salvador. Hoje, duas décadas depois, o futebol é apenas assunto para dentro das quatro linhas. Dirigidos por Ramon Maradiaga, capitão da selecção que esteve no Mundial-82, fiel devoto do 4-3-3, a nova selecção hondurenha baseia o seu jogo no central Clavasquín, no lateral ofensivo Turcios, e no médio ofensivo Santamaria, todos chefiados pelo capitão Pavón.
Na Costa Rica, saudosa das fintas de Medford e das defesas de Conejo, no Mundial-90, a sua única presença, onde bateu, guiado pelo globetrotter Bora Milutinovic, Escócia e Suécia, os tempos são de esperança em reviver esses velhos tempos, agora sob a orientação técnica de Alexandre Guimarães que, para começar, cometeu a proeza de convencer o guarda redes Eick Lonnis, a voltar a jogar na selecção, o que já fez por 53 vezes no passado, depois de teanunciado a sua retirada. Á sua frente, alinham os experientes López, Lonis, Fonseca e o central Pablo Chinchilla.
MARCAS DA CONCACAF NO MUNDIAL
Nos últimos 30 anos, desde o México-70, foram estes os representantes da CONCACAF nos Mundiais e respectiva fase atingida:
1970 MÉXICO (1/4 Final); EL SALVADOR (1ª Fase)
1974 HAITI (1ª Fase)
1978 MÉXICO (1ª Fase)
1982 HONDURAS (1ª Fase); EL SALVADOR (1ª Fase)
1986 MÉXICO (1/4 Final); CANADÁ (1ª Fase)
1990 COSTA RICA (1/8 Final); EUA (1ª Fase)
1994 MÉXICO (1/8 Final); EUA (1/8 Final)
1998 MÉXICO (1/8 Final), EUA (1ª Fase); JAMAICA (1ª Fase)