Johan Cruyff costuma dizer que, no futebol, “não existe som mais fantástico do que o da bola a bater no poste!”. E exemplificava, falando que nos jogos já ganhos, gostava mais de, nos últimos minutos, enviar uma bola ao poste e ouvir aquela típica reacção da multidão “oooooohh”, do que fazer mais um simples golo.
É preciso, de facto, gostar muito de futebol, e entender os seus mais profundos e privados encantos, para perceber o alcance destas palavras, mas, não duvidem, elas fazem todo o sentido. Falo nisto porque toda esta teoria romântica de Cruyff sobre as bolas ao poste me veio à cabeça ao ver o último Manchester-Newcastle, onde Ronaldo fez uma exibição do outro mundo, e, apesar de não ter marcado nenhum golo, enviou quatro bolas ao poste.
Por incrível que pareça, este feito, até porque sucedeu num jogo em que a equipa ganhou claramente, e foi sempre acompanhado do semblante divertido do mago lusitano, tornou mais impressionante a sua exibição.
Nenhuma actual equipa de top europeu depende, no entanto, tanto da inspiração de um jogador como o actual Manchester de Ronaldo.
Em termos de sistema, Ferguson alterna o seu 4x4x2 de referência, jogando como Rooney e Saha na frente, dois alas (Ronaldo-Fletcher ou Giggs), um trinco (O`Shea ou Carrick) e um médio de transição (Scholes), com uma espécie de 4x3x3, com, digamos uma perna-torta, pois, nesse modelo, joga como três médios mais no corredor central, formando um triangulo (Carrick-O`Shea-Scholes) e três avançados na frente (Saha ponta-de-lança, Ronaldo, extremo direito, e Rooney – a tal perna-torta do sistema- descaído sobre a esquerda, embora, depois, em vez de dar profundidade pelo flanco, procure movimentos em diagonal para a área).
São duas dinâmicas diferentes, mas em ambas é a imaginação de Ronaldo, nas bruscas mudanças de velocidade, nos centros tensos para a área ou na forma empolgante como arranca de fora para dentro, flectindo no terreno, para depois deferir um forte remate, que faz a diferença e levanta o estádio. Divinal.