CROÁCIA: A dinastia Kranjcar

11 de Novembro de 2005
NO BANCO, COMO SELECCIONADOR, O PAÍ, ZLAKTO. NO RELVADO, COMO «PLAYMAKER», O FILHO, NIKO.
Mantendo o seu tradicional estilo rebelde e tecnicista, a Croácia, nos últimos anos, cresceu muito no plano táctico. Orientada por uma velha estrela da antiga Jugoslávia, Zlakto Kranjkar, evidencia mecanização para jogar em dois sistemas, tendo o 3x5x2 como modelo preferencial, com laterais-flanqueadores e dois médios criativos, o relógio Kovac e o maestro Kranjcar, elos de ligação com a dupla atacante.
Para quem acredita na hereditariedade do génio futebolístico, a actual selecção da Croácia poderá ser um bom argumento a favor dessa tese. Entre o banco e o relvado, duas gerações garantem a continuidade do rebelde e tecnicista perfume do futebol croata. É a dinastia Kranjcar. Com a braçadeira de treinador, o pai Zlakto Kranjcar, 42 anos, figura da antiga selecção jugoslava dos anos 80. Em campo, com a batuta da equipa, o filho Niko Kranjcar, 21 anos, a grande estrela emergente da nova selecção croata extinta a velha pátria unida de Tito. Comparando os dois, até eram jogadores diferentes. O pai Zlakto mais de explosão, com uma velocidade serpenteada que perfurava defesas. O filho Niko, mais pausado, com superior visão de jogo, faz passes de morte, e em vez de sprints loucos, prefere fazer a bola correr. Por vezes até aparenta ter peso a mais. Mera ilusão desfeita quando toca na bola e ilumina o jogo de toda a equipa. São eles os dois símbolos que vão guiar a Croácia, extinta a geração de Suker e Boban, até ao Mundial-2006.

Dois sistemas, o mesmo estilo

Na base, a técnica. Uma capacidade de tocar, tocar, transformado o jogo num extenso rendilhado que nos tempos da velha Jugoslávia os fez ficar conhecidos como o Brasil da Europa. É ainda esta a genética do futebol croata, talvez a face mais rebelde no contexto da velha união eslava, o que hoje se nota na menor sentido táctico-colectivo do jogo em comparação com o passado então mais alinhado pelo estilo de leste. Tacticamente, porém, continuamos perante uma equipa muito culta, tal a forma como consegue desdobrar-se em dois sistemas, mantendo sempre o mesmo rigor e dinâmica posicional. Assim, a selecção de Kranjcar, pode (como demonstrou na fase de apuramento) esquematizar-se em 3x5x2 ou 4x4x2. Dois sistemas, cada qual com os seus princípios de jogo e particularidades.

Solução 1: 3x5x2

Quando joga com a defesa a «3», o seu esquema preferencial, costuma alinhar com apenas um trinco, com capacidade de recuar para se encostar aos centrais (Tomas-Robert Kovac-Simunic) e transformar-se, em certos momentos do jogo, quase num quarto defesa (tarefa desempenhada por Tudor ou Vranjes), soltando depois, na segunda linha do meio campo, mais adiantados, dois médios criativos: Kranjkar, playmaker, e Niko Kovac, este mais táctico, conciliando tarefas de distribuição com as de recuperação, fase em que, recuando, desenha um claro 3x4x1x2. Nas alas, aposta em laterais-flanqueadores ofensivos que fizeram a maior parte da carreira como médios ala: Srna, à direita, e Babic, à esquerda. No ataque, o possante Prso combina com Klasnic, mais móvel, entrando de trás e arrastando marcações. Lesionado, porém, não defronta Portugal, pelo que deverá surgir, no mesmo estilo, Balaban, de regresso à boa forma após algumas épocas numa profunda crise exibicional.

Solução 2: 4x4x2

A segunda opção táctica baseia-se no clássico 4x4x2. Neste caso, reforça a zona de cobertura defensiva e alinha apenas com um nº10 verdadeiro, mas, provando a polivalência táctica do onze, não necessita, para isso, de trocar jogadores. Os mesmos intérpretes podem passar, sem qualquer hesitação, em pleno jogo, do 3x5x2 para o 4x4x2, ou vice-versa, sem que a solidez táctica colectiva se ressinta. Nesse papel é crucial o veterano médio Niko Kovac, 34 anos, manejando na perfeição os timings de posse de bola e passe curto ou longo. Na mecanização do quarteto da defesa, é curioso notar a ausência de verdadeiros laterais com cultura de lugar em termos defensivos. Assim, surgem sempre a adaptação de médios-ala de origem a essa posição, Srna-Babic, ou a derivação para uma faixa de jogadores, como Tudor ou Simic, ambos destros e centrais por vocação, tal como Tomas e Tokic, outras soluções para o eixo defensivo. Para a esquerda, também pode ser opção o canhoto Seric.

AS ESTRELAS CROATAS

 

NIKO KRANJCAR

Lugar: Médio ofensivo Clube: Hajduk Split Idade: 21 anos (13/8/84) 13 internacionalizações/ 3 golos Técnica, visão de jogo, remate, carácter lutador, e grande personalidade. Fisicamente forte (1,84m. e 83 kg.), não é muito rápido, mas a sua visão de jogo está avançada em relação a toda a equipa. É o novo dono das chaves da principal selecção croata, depois de, nos últimos anos, ter chefiado os Sub-21, sempre no mesmo estilo. Joga e faz jogar, com classe, técnica, sentido táctico e vocação de maestro

ROBERT KOVAC

Lugar: Defesa-central Clube: Juventus Idade: 31 anos (6/4/74) 51 internacionalizações O grande chefe do sector defensivo. Muito experiente, antes de rumar, este ano, à Juventus, fez carreira na Alemanha (cinco épocas em Leverkusen e quatro no Bayern Munique), destacando-se pelo seu perfeito sentido posicional no corte, antecipação e leitura de jogo. Forte por alto (1,82m. e 78 kg.) e oportuno a surgir nas dobras. Pode jogar como stopper ou libero.

DARIO SRNA

Lugar: Ala direito Clube: Shakhtar Dontesk Idade: 23 anos (1/5/82) 31 internacionalizações/8 golos Um dos melhores flanqueadores do actual futebol europeu. Percorre toda a faixa direita com grande consistência táctica. Cobre bem os espaços, conduz a bola para o contra-ataque, tabela e cruza com precisão. Pode jogar como lateral ofensivo, em 3x5x2, ou como médio ala, num clássico 4x4x2.

DADO PRSO

Lugar: Ponta de Lança Clube: Glasgow Rangers Idade: 31 anos (5/11/74) 24 internacionalizações / 9 golos Mesmo sem a mesma mobilidade de outros tempos, permanece a principal referência croata em temos ofensivos. Ao lado de Klasnic ou Balaban, mais rápidos, Prso destaca-se nos lances divididos e nas chamadas segundas bolas. Um ponta de lança de combate que nunca dá um lance por perdido, sempre com os olhos na baliza.

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