CROÁCIA: Um pequeno país, um grande futebol

11 de Julho de 1998
(TERCEIRO CLASSIFICADO MUNDIAL -98)


Há muito, muito tempo, os dias eram longos e tinham cem anos. Dentro da velha Jugoslávia, a Croácia viveu e cresceu desassombrada. Na encruzilhada da memória, mesmo antes do desmenbramento da união, descobriu no futebol uma suprema forma de reconhecimento internacional através dos pés de Suker, Prosinecki, Boban, Jarni e, entre outrros, o carismático seleccionador Blazevic.
Na alvorada dos anos 90 as bombas devoraram a região das Balcãs e a antiga Jugoslávia estilhou-se em pedaços. Servos e croatas eram mais que inimigos, eram irmãos. Mas mesmo antes do rugido da guerra fratricida, a desintegração do país de Tito, croata de nascimento, já começara nos relvados de futebol. Os jogos entre as equipas de Belgrado e Zagreb há muito que eram palco violento de rivalidades étnicas. Em Maio de 90, num desses encontros do ódio entre o Dínamo Zagreb e o Estrela Vermelha emergiu um futebolista feito herói: Zvonimir Boban, hoje o capitão-simbolo da jovem selecção croata. Nesse dia, quando o jogo após invasão de campo virou batalha campal, Boban, com apenas 21 anos, tomou a defesa dos seus adeptos e atingiu a pontapé os policias servios que carregavam sobre eles. Os ultras do Estrela Vermelha é que provocaram tudo e a policia desatou a agredir tudo o que era croata. Revoltei-me quando os vi bater em simples miúdos e gritei isso para a policia. Em resposta á minha alerta fui agredido com matracas. Nunca esquecerei os seu olhos cheios de ódio e na altura não pensei em mais nada senão em defender-me. Boban teve então que viver fugido das autoridades sérvias durante meses, enquanto a Federação Jugoslava o suspendia automaticamente por 8 meses. A presença da Jugoslávia no Mundial desse ano foi assim algo paradoxal. Nela conviviam jogadores das duas etnias sem qualquer sentimento por a bandeira sob a qual jogavam, depois de emoções, cores e imagens durante 70 anos de história em comum. Naquele momento o futebol não se sentiu deste mundo. No inicio de 96, a ponte que se ergueu sobre o rio Sava, para voltar a ligar a Croácia á Bosnia simbolizava a passagem do passado para o futuro. Uma complexa travessia temporal espelhada nas adversidades atmosféricas das neves e marés que emolduram as recordações de um pesadelo recente, de uma história secular, iniciada no sec.V quando os eslavos do Sul - em jugoslavo jug significa sul - atravessaram os cárpatos e organizados em tribos entraram pelo grande vale da Panónia, na península balcânica, ocupando um território onde mais tarde se ergueu a Jugoslávia e em que uma bola de futebol serviu durante muito tempo para unir os diferentes olhares que nele habitaram. Em 1918, após a primeira grande guerra formou-se um primeiro Estado conjunto dos Eslavos de Sul, reino dos Sérios-Croatas-Eslovenos. Na segunda guerra mundial a Jugoslávia foi atacada pelas tropas de Hitler, apoiadas pela Croácia seu estratégico aliado. Apesar de divididos foi devido á tenaz resistência de Tito contra o invasor que a união reconquistou a sua independência e formou em 1945 a Republica Federal da Jugoslávia, composta pela Sérvia, Croácia, Bósnia Herzegovina, Macedónia e Montenegro.
O futebol coexistiu por entre todo este ambiente. Absorveu as diferenças e rivalidades dos povos das Balcãs mas manteve sempre abertas as feridas da segunda guerra mundial. Com a morte de Tito, seu líder carismático, e o fim da URSS, a artificial união desapareceu e o ódio étnico emergiu em todas as áreas. A partir daí os confrontos desportivos nunca mais conseguiam ser simples jogos de futebol ou basquetebol. Em 92, quando muitos dos seus companheiros trocavam a bola pela arma de guerra, o herói Boban atravessou o Adriático e rumou a Itália. Depois de uma época no Bari ingressou no Milan onde joga há sete épocas. Quando em 95 a Croácia voltou a competir sob a sua bandeira e com a personalizada camisola de quadrados vermelhos sentiu um sentimento único, que nunca tive com a camisa jugoslava. É um enorme orgulho, mais do que um grande amor. Um poema dentro da alma! Este pequeno país, diferente e rebelde nas margens do Adriático, com apenas 4,5 milhões de habitantes sempre foi um local de gestação de grandes campeões. Deu ao mundo fabulosas equipas de basquetebol, estrelas da NBA e magos do Ténis. No futebol traduziu em campo o espirito criativo e lutador do seu povo, que vê na selecção de Suker o grande embaixador dos seus sentimentos patrióticos. Durante os primeiros jogos muitos jogadores não cantavam o hino pela simples razão de que não conseguiam parar de chorar durante o tempo em que o escutavam, olhando a sua bandeira desfraldada ao vento. Uma afirmação de identidade há muito ansiada. A Federação Croata foi fundada em 1912 e o seu primeiro clube, o Hask, actual Croácia Zagreb surgiu em 1903. Em 1940 a Croácia autoproclamou-se independente e realizou 19 jogos internacionais, mas em pouco tempo voltou á união eslava. Apenas em 1992 foi aceite a sua filiação na FIFA e de imediato os seus clubes e selecção passaram a ser um meio privilegiado para o poder político passar as suas mensagens ao mundo.
Em 91, na véspera do referendo sobre a independência, o presidente Franjo Tudjman, perante milhares de espectadores, foi ver o último Dínamo Zagreb-Estrela Vermelha da história e foi mais aplaudido que toda a equipa. A partir daí sentiu a força do futebol e nunca mais largou o seu poder. Colocou na Federação Croata um homem da sua confiança, reabaptizou o Dínamo de FC Croatia, de quem é hoje presidente Zlato Canjuda, também deputado e presidente da camâra de Zagrb, e confiou a selecção ao seu amigo Miroslav Blazevic, coronel na reserva, na época também treinador-presidente do FC Croatia. Blazevic é uma personagem carismática do futebol da Croácia. Nos anos 80 treinou em França o Nantes e lançou Deschamps e Desaily. Hoje afirma ser um orgulho dirigir esta mágica geração de jogadores croatas: São todos como meus filhos! Em 30 anos de carreira, nunca critiquei abertamente um jogador meu. Mas quando estou face a face com eles digo-lhe tudo o que penso verdadeiramente. Reconheço que ás vezes é difícil aturar-me. Mas para me aturar é preciso amar-me, não é verdade? Os símbolos desta equipa podem ser Boban e Suker, que já tem uma escola de jogadores em Osijek -onde começou a jogar- com o seu nome, Davor, mas o patriarca do grupo é o guardardes Ladic, 36 anos. Treinei-o durante sete anos, vejo-o como um aluno meu. É como o vinho, quanto mais velho, melhor, diz Blazevic. Ladic já fez 46 jogos pela Croácia, ou seja, todos que a selecção disputou desde o seu reconhecimento oficial! Nesta Croácia que surpreendeu os relvados franceses alinharam dois homens que estiveram em 90 com a Jugoslávia no Mundial italiano: Jarni e Prosineski. Este médio louro que jogou no Real Madrid e Barcelona passou ao lado de uma grande carreira. É um talento nato que nunca se adaptou ás exigências físicas dos grandes clubes europeus, onde sofreu sucessivas lesões musculares. Mudou sete vezes de clube e é o grande mea culpa da carreira de Blazevic: Conheci-o em pequeno. Estreou com Boban. Eram como irmãos, mas um dia fui ter com ele e disse-lhe: Podes ir embora, nunca serás um grande jogador de futebol! Ele tinha apenas 18 anos. Foi para o Estrela Vermelha e pensei que não ia dar nada.. Depois assinou pelo Real Madrid por 14 milhões de Dólares! Acreditam nisto? Ele nunca vos contaria esta história. Passou por momentos difíceis e ressuscitou. Tinha de o chamar para a selecção e agora nunca mais o deixarei partir... A base da selecção tem um passado em comum. As vitórias do presente emergem do titulo de Campeão de Mundo sub-20 conquistado pela velha Jugoslávia em 87 no Chile com um onze onde alinhavam Suker, Jarni, Prosinecki, Stimac e Boban.
Antropologicamente, a maioria dos croatas, morenos e de alta estatura, pertencem á raça adriática, intermediária entre os eslovenos e os sérvios. Foi cerca do Sec.X que este povo, oriundo dos jungadis da Índia, entrou na Europa pelas margens do Danúbio espalhando-se pelas balcãs trazendo no sangue as origens dos negros primitivos da península hindustânica, dando origem, com o cruzamento de raças, á etnia cigana na Europa. A paixão do povo croata pelo futebol é imensa. Em Osijek, Milan Spanjic é um homem feliz. Durante anos foi presidente do clube que descobriu Suker com apenas 10 anos. O seu bigode ergue-se num largo sorriso quando ouve o técnico Drici contar quando numa manhã de 78 chegou ao campo de treino uma senhora trazendo-o um menino pela mão. Ele era Davor e ela era a sua professora de educação fisica na escola. Apenas disse que a jogar futebol aquele miúdo tinha algo mais que os outros. Nos primeiros treinos viu-se logo que ele era diferente. Com 16 anos fez o seu primeiro jogo na 1ª Divisão. Spanjic conta que há dias quando vi a imagem feliz de Suker logo após o terceiro golo á Alemanha revi o Davor criança. Com a mesma alegria, o mesmo prazer e amor imenso pelo futebol. Aquele sorriso emociona! É assim a alma croata. Em poucos anos da guerra civil ao terceiro lugar no Mundial de futebol. O escritor Predag Matvejevitch diz que com o passar do tempo o futebol cada vez mais tende a ocupar o seu verdadeiro lugar. Liberto de paixões malformadas, regressa ao seu lugar: os estádios. Não será, porém, um percurso fácil. A política e a bola continuam a caminhar lado a lado. O mapa do mundo não depende dos golos de Suker, mas para muitos foram eles que no último mês colocaram a Croácia visível no mapa.

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