Na alvorada dos anos 90 as bombas devoraram a região das Balcãs e a antiga Jugoslávia estilhou-se em pedaços. Servos e croatas eram mais que inimigos, eram irmãos. Mas mesmo antes do rugido da guerra fratricida, a desintegração do país de Tito, croata de nascimento, já começara nos relvados de futebol. Os jogos entre as equipas de Belgrado e Zagreb há muito que eram palco violento de rivalidades étnicas. Em Maio de 90, num desses encontros do ódio entre o Dínamo Zagreb e o Estrela Vermelha emergiu um futebolista feito herói: Zvonimir Boban, hoje o capitão-simbolo da jovem selecção croata. Nesse dia, quando o jogo após invasão de campo virou batalha campal, Boban, com apenas 21 anos, tomou a defesa dos seus adeptos e atingiu a pontapé os policias servios que carregavam sobre eles. Os ultras do Estrela Vermelha é que provocaram tudo e a policia desatou a agredir tudo o que era croata. Revoltei-me quando os vi bater em simples miúdos e gritei isso para a policia. Em resposta á minha alerta fui agredido com matracas. Nunca esquecerei os seu olhos cheios de ódio e na altura não pensei em mais nada senão em defender-me. Boban teve então que viver fugido das autoridades sérvias durante meses, enquanto a Federação Jugoslava o suspendia automaticamente por 8 meses. A presença da Jugoslávia no Mundial desse ano foi assim algo paradoxal. Nela conviviam jogadores das duas etnias sem qualquer sentimento por a bandeira sob a qual jogavam, depois de emoções, cores e imagens durante 70 anos de história em comum. Naquele momento o futebol não se sentiu deste mundo. No inicio de 96, a ponte que se ergueu sobre o rio Sava, para voltar a ligar a Croácia á Bosnia simbolizava a passagem do passado para o futuro. Uma complexa travessia temporal espelhada nas adversidades atmosféricas das neves e marés que emolduram as recordações de um pesadelo recente, de uma história secular, iniciada no sec.V quando os eslavos do Sul - em jugoslavo jug significa sul - atravessaram os cárpatos e organizados em tribos entraram pelo grande vale da Panónia, na península balcânica, ocupando um território onde mais tarde se ergueu a Jugoslávia e em que uma bola de futebol serviu durante muito tempo para unir os diferentes olhares que nele habitaram. Em 1918, após a primeira grande guerra formou-se um primeiro Estado conjunto dos Eslavos de Sul, reino dos Sérios-Croatas-Eslovenos. Na segunda guerra mundial a Jugoslávia foi atacada pelas tropas de Hitler, apoiadas pela Croácia seu estratégico aliado. Apesar de divididos foi devido á tenaz resistência de Tito contra o invasor que a união reconquistou a sua independência e formou em 1945 a Republica Federal da Jugoslávia, composta pela Sérvia, Croácia, Bósnia Herzegovina, Macedónia e Montenegro.

O futebol coexistiu por entre todo este ambiente. Absorveu as diferenças e rivalidades dos povos das Balcãs mas manteve sempre abertas as feridas da segunda guerra mundial. Com a morte de Tito, seu líder carismático, e o fim da URSS, a artificial união desapareceu e o ódio étnico emergiu em todas as áreas. A partir daí os confrontos desportivos nunca mais conseguiam ser simples jogos de futebol ou basquetebol. Em 92, quando muitos dos seus companheiros trocavam a bola pela arma de guerra, o herói Boban atravessou o Adriático e rumou a Itália. Depois de uma época no Bari ingressou no Milan onde joga há sete épocas. Quando em 95 a Croácia voltou a competir sob a sua bandeira e com a personalizada camisola de quadrados vermelhos sentiu um sentimento único, que nunca tive com a camisa jugoslava. É um enorme orgulho, mais do que um grande amor. Um poema dentro da alma! Este pequeno país, diferente e rebelde nas margens do Adriático, com apenas 4,5 milhões de habitantes sempre foi um local de gestação de grandes campeões. Deu ao mundo fabulosas equipas de basquetebol, estrelas da NBA e magos do Ténis. No futebol traduziu em campo o espirito criativo e lutador do seu povo, que vê na selecção de Suker o grande embaixador dos seus sentimentos patrióticos. Durante os primeiros jogos muitos jogadores não cantavam o hino pela simples razão de que não conseguiam parar de chorar durante o tempo em que o escutavam, olhando a sua bandeira desfraldada ao vento. Uma afirmação de identidade há muito ansiada. A Federação Croata foi fundada em 1912 e o seu primeiro clube, o Hask, actual Croácia Zagreb surgiu em 1903. Em 1940 a Croácia autoproclamou-se independente e realizou 19 jogos internacionais, mas em pouco tempo voltou á união eslava. Apenas em 1992 foi aceite a sua filiação na FIFA e de imediato os seus clubes e selecção passaram a ser um meio privilegiado para o poder político passar as suas mensagens ao mundo.

Em 91, na véspera do referendo sobre a independência, o presidente Franjo Tudjman, perante milhares de espectadores, foi ver o último Dínamo Zagreb-Estrela Vermelha da história e foi mais aplaudido que toda a equipa. A partir daí sentiu a força do futebol e nunca mais largou o seu poder. Colocou na Federação Croata um homem da sua confiança, reabaptizou o Dínamo de FC Croatia, de quem é hoje presidente Zlato Canjuda, também deputado e presidente da camâra de Zagrb, e confiou a selecção ao seu amigo Miroslav Blazevic, coronel na reserva, na época também treinador-presidente do FC Croatia. Blazevic é uma personagem carismática do futebol da Croácia. Nos anos 80 treinou em França o Nantes e lançou Deschamps e Desaily. Hoje afirma ser um orgulho dirigir esta mágica geração de jogadores croatas: São todos como meus filhos! Em 30 anos de carreira, nunca critiquei abertamente um jogador meu. Mas quando estou face a face com eles digo-lhe tudo o que penso verdadeiramente. Reconheço que ás vezes é difícil aturar-me. Mas para me aturar é preciso amar-me, não é verdade? Os símbolos desta equipa podem ser Boban e Suker, que já tem uma escola de jogadores em Osijek -onde começou a jogar- com o seu nome, Davor, mas o patriarca do grupo é o guardardes Ladic, 36 anos. Treinei-o durante sete anos, vejo-o como um aluno meu. É como o vinho, quanto mais velho, melhor, diz Blazevic. Ladic já fez 46 jogos pela Croácia, ou seja, todos que a selecção disputou desde o seu reconhecimento oficial! Nesta Croácia que surpreendeu os relvados franceses alinharam dois homens que estiveram em 90 com a Jugoslávia no Mundial italiano: Jarni e Prosineski. Este médio louro que jogou no Real Madrid e Barcelona passou ao lado de uma grande carreira. É um talento nato que nunca se adaptou ás exigências físicas dos grandes clubes europeus, onde sofreu sucessivas lesões musculares. Mudou sete vezes de clube e é o grande mea culpa da carreira de Blazevic: Conheci-o em pequeno. Estreou com Boban. Eram como irmãos, mas um dia fui ter com ele e disse-lhe: Podes ir embora, nunca serás um grande jogador de futebol! Ele tinha apenas 18 anos. Foi para o Estrela Vermelha e pensei que não ia dar nada.. Depois assinou pelo Real Madrid por 14 milhões de Dólares! Acreditam nisto? Ele nunca vos contaria esta história. Passou por momentos difíceis e ressuscitou. Tinha de o chamar para a selecção e agora nunca mais o deixarei partir... A base da selecção tem um passado em comum. As vitórias do presente emergem do titulo de Campeão de Mundo sub-20 conquistado pela velha Jugoslávia em 87 no Chile com um onze onde alinhavam Suker, Jarni, Prosinecki, Stimac e Boban.

Antropologicamente, a maioria dos croatas, morenos e de alta estatura, pertencem á raça adriática, intermediária entre os eslovenos e os sérvios. Foi cerca do Sec.X que este povo, oriundo dos jungadis da Índia, entrou na Europa pelas margens do Danúbio espalhando-se pelas balcãs trazendo no sangue as origens dos negros primitivos da península hindustânica, dando origem, com o cruzamento de raças, á etnia cigana na Europa. A paixão do povo croata pelo futebol é imensa. Em Osijek, Milan Spanjic é um homem feliz. Durante anos foi presidente do clube que descobriu Suker com apenas 10 anos. O seu bigode ergue-se num largo sorriso quando ouve o técnico Drici contar quando numa manhã de 78 chegou ao campo de treino uma senhora trazendo-o um menino pela mão. Ele era Davor e ela era a sua professora de educação fisica na escola. Apenas disse que a jogar futebol aquele miúdo tinha algo mais que os outros. Nos primeiros treinos viu-se logo que ele era diferente. Com 16 anos fez o seu primeiro jogo na 1ª Divisão. Spanjic conta que há dias quando vi a imagem feliz de Suker logo após o terceiro golo á Alemanha revi o Davor criança. Com a mesma alegria, o mesmo prazer e amor imenso pelo futebol. Aquele sorriso emociona! É assim a alma croata. Em poucos anos da guerra civil ao terceiro lugar no Mundial de futebol. O escritor Predag Matvejevitch diz que com o passar do tempo o futebol cada vez mais tende a ocupar o seu verdadeiro lugar. Liberto de paixões malformadas, regressa ao seu lugar: os estádios. Não será, porém, um percurso fácil. A política e a bola continuam a caminhar lado a lado. O mapa do mundo não depende dos golos de Suker, mas para muitos foram eles que no último mês colocaram a Croácia visível no mapa.