Como pedir a um jogador que em cinco fintas ultrapassa o adversário em quatro, para em vez disso passar mais a bola?Existem debates que confundem conceitos mais básicos. Há, nas teses competitivas mais operárias, a ideia que conciliar vários jogadores mais tecnicistas torna uma equipa demasiado leve na discussão do jogo. Não é pacifico dizer que o futebol nasce dos pés para a cabeça. Mas também não é dizer que nasce da cabeça para os pés. As duas perspectivas são verdade. O jogo tem os dois sentidos. O jogador também.
Vejo o V. Setúbal-Rio Ave e vejo como o conceito do «quase grande jogador» pode fazer sentido. É a definição tentadora para encaixar a dissonância entre o talento de Hugo Leal, Zé Pedro, Neca ou Pitbull e as carreiras que fizeram. O perfume técnico de todos eles hipnotiza. A face tecnicista, devotos da bola no pé, longe dos mais idolatrados conceitos de pressão, leva a desenvolver a teoria que todos juntos tornam o onze competitivamente leve e pouco intenso. As melhores equipas resultam do melhor cruzamento de estilos, mas a base do chamado «jogar bem» está num ponto mais claro: qualidade de decisão.
O «problema» é que muitos jogadores decidem melhor do que outros não tanto porque pensam melhor mas porque executam melhor. É o futebol a nascer nos pés. Vejo Kelvin, e vejo um festival de técnica. Atsu também trata bem a bola, mas Kelvin é um «circo de futebol». Finta como desliza. Finta até demais, por vezes. A qualidade de decisão, momento do passe ou soltar a bola, escapa-lhe muitas vezes. Está em questão o difícil futebol que nasce na cabeça. É a natureza do jogador a sobrepor-se. Isto é, a sua característica mais forte a ganhar vida própria nos pés. Mas, perante um jogador que em cada cinco jogadas de um para um finta o defesa em quatro, como pode o treinador pedir que ele não faça isso e passe antes a bola?
E, durante o treino, o ideal será agora treinar mais o que faz pior ou menos no jogo (conceito de passe) ou insistir para aperfeiçoar (novas fintas) o seu ponto técnico mais forte? Ficar só pelo primeiro caso seria quase obrigar o jogador a treinar os...erros. Trabalhar o segundo caso seria treinar a...qualidade. Para explorar um jogador (seu ponto forte em função da equipa) a solução, acredito, passa maioritariamente pela segunda opção.
Por isso, mesmo sem a chamada «intensidade de jogo», quando a bola vai ter aos pés destes jogadores, o bom futebol aparece com a naturalidade como respiram. Perguntarão como é possível sem pressão e muitas segundas bolas ganhas? Simples, através do futebol a nascer dos pés para a cabeça. Uma situação que, dirão alguns teólogos, inverte a lógica de construção das coisas. Não acho, mas mesmo que fosse assim, então é saudável virar a realidade de pernas para o ar. E, com isso, aumentar a...qualidade. Porque, o determinante é a intenção com que na dinâmica do jogo se resolvem os problemas que estão sempre a aparecer. E, por melhor que se pense, em posse de bola, a maior parte deles, resolve-se com os...pés.
