De Manchester a Londres

December 31, 2010 10:10 AM
Estilos e tácticas na relva inglesa. Como jogam os grandes candidatos à Premier League 2010/11

 

O futebol inglês tem uma intensidade de jogo muito alta mas é difícil dizer que se joga bem em Inglaterra no plano táctico-colectivo. Esta época, cinco equipas destacam-se no topo, monstros de Manchester (United e City) e Londres (Chelsea, Arsenal e o surpreendente Tottenham). Em termos de modelo de jogo, o Arsenal de Wenger é quem tem maior identidade própria. Uma filosofia de posse e qualidade de passe (essencialmente curto), procurando de início largura com os laterais (Sagna-Clichy), mas depois, à medida que se aproxima da área, a tendência é para renunciar à profundidade pelas alas e procurá-la mais em tabelas pelo corredor central, onde convergem, em diagonal, Nasri-Arshvin, combinando com Cesc, vindo de trás, e Chamakh ou Van Persie, mais fixos na ponta do ataque. Um futebol encantado mas que não ganha um título há 5 épocas. Explicações? A tentação é apontar a defesa. Esta época: Sagna-Squillaci ou Vermaelen-Koscielny ou Djourou)–Clichy, não são, em rigor, uma linha de «4» com peedigre campeão.
O Manchester City é, no modelo, a equipa mais continental, com um bloco de cimento táctico a meio-campo, isto é, três médios defensivos duros: De Jong, Barry (ou Vieira) e Yayá Touré. Entre o 4x3x3 e o 4x5x1, fica no ataque um vagabundo do golo Tévez, apoiado, nas alas, por Johnson, um canhoto que fura pela direita, e, desde a esquerda, Silva, com maior amplitude periférica, pois larga a ala e surge no meio quase como um organizador, destacando-se pelos passes de ruptura que faz a desmarcar Tevez. A primeira tentação é rotular a equipa de defensiva. Será antes a menos inglesa na vertigem ofensiva, mas embora o seu jogo não empolgue ninguém, será a que defende melhor sem bola. 
 
No papel, o 4x3x3 até parece dominar, mas a atacar, quando a bola chega à área, todos querem jogar em 4x4x2, metendo dois avançados na área. Sucede no Chelsea, quando abre com Anelka a cair na direita, ficando Drogba no meio (e Malouda à esquerda) ou no Manchester United com Rooney também a abrir numa ala, deixando Berbatov mais em ponta. Depois, tanto Anelka como Rooney, cada qual no seu estilo, fazem diagonais e surgem no meio. Um estilo que em Manchester ganha asas criativas com Nani e no qual Anderson, mais solto posicionalmente, está a redimensionar ofensivamente o seu talento, deixando a prisão táctica de trinco.
O Tottenham de Redknapp é o outsider do grupo. Principal nota a reter no seu jogo: a nova posição de Van der Vaart, mais adiantado, quase segundo avançado (variando o 4x2x3x1 para 4x4x2) junto de Defoe. Nas alas, Lennon e Bale metem uma velocidade terrível no jogo, e, no centro, Modric destaca-se a criar/organizar. 
 
 
 
 
Blackpool, Bolton, Blackburn
 
Seguindo a linha histórica britânica, continua a imperar, na Premier League, uma forma muito física de defender. Isto é, as equipas (defesas) não receiam o choque, pelo contrário até o procuram, e em termos posicionais, muitas fazem-no mesmo em bloco-baixo, com os centrais a tirar a bola de primeira ou metendo passes longos em vez de assumir saída de bola em posse, algo que poucos arriscam devido a limitações técnicas.
Uma equipa que se destaca a pensar melhor o jogo é o Blackpool de Holloway (8º lugar). Joga olhos nos olhos com o adversário num 4x3x3 dos mais equilibrados da Liga, chefiado pelo escocês Adam. Outra boa equipa é o Bolton de Coyle (6º). Em 4x4x2, agressivo a meio-campo, com Holden a morder todos os espaços e a dupla Davies-Elmander muito forte e móvel na frente.                                               
 
Maior polémica mora em Blackburn (8º), agora propriedade de indianos milionários que, querendo mais entertaining football, demitiram o mítico Allardyce. O sucessor Steve Kean (ex-adjunto) surgiu então, contra o Stoke, num sistema de três centrais (3x5x2) invulgar no futebol inglês (Michel Salgado e Olsson, laterais ofensivos). Perdeu 0-2 e inverteu o sistema (4x4x2) no jogo seguinte contra o West Bromwich (vitória 3-1). A encruzilhada de estilo e identidade do Blackburn, gabinetes e relvado, é um bom exemplo da realidade que domina o futebol inglês.
 
 
 
  
A atracção Sunderland
 
Mas, se me pedirem a equipa que, ganhando ou perdendo, mais gosto de ver jogar hoje em Inglaterra, digo o…Sunderland. Sem grandes artes tácticas, Steve Bruce montou um 4x4x2 que vive da qualidade técnica dos seus jogadores (médios e avançados). Entre eles, cinco nomes para fixar obrigatoriamente.
Catermole, de 22 anos, médio-centro partindo da posição de pivot, organiza em condução de bola o jogo da equipa. Boa leitura e sentido de passe; Henderson, 20, o maestro que pensa o jogo; Welbeck, com 20, extremo rápido e imaginativo, pode jogar nos dos flancos, mas é da esquerda que gosta mais de arrancar. Forte no um-para-um, busca a área em penetração. Pertence ao Manchester Utd; Bent e Gyan Asamoah, a dupla do ataque, com Bent mais na área, a ganhar aos defesas em espaços curtos, e o ganês Asamoah mais solto, baixando no terreno para depois procurar espaços vazios em desmarcação. Junto, este «5» de Sunderland desenha do melhor futebol da Liga. O problema do onze, seguindo a linha dominadora das equipas inglesas, está na defesa. 

 

 

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