Em Moscovo, por entre a beleza histórica e sumptuosa da praça vermelha, do império do Czars á pátria dos sovietes, o frio disfarça a mágoa e o silêncio convida á reflexão. São momentos em que o homem, como o tempo, reflecte desamparado. Sente-se como um “buraco negro” na história. Uma “farpa de gelo” que, no atravessar do século passado, provocou alucinações dos sonhos utópicos.
A história da velha URSS inquietou o mundo. Deu-lhe razões para sonhar. Deu-lhe razões para ter pesadelos. Ao mesmo tempo. No campo desportivo, gerou um laboratório de lendas, mas os novos tempos trouxeram outras formas de vida, outras formas de respirar e tocar o gelo com a ponta dos dedos. Milhares de ingleses passeiam pelas suas zonas como por Oxford Street, Regent Street, Picadelly, até aos grandes armazéns do “West End” ou as pequenas catedrais de outras ousadia do século passado. O “football”. Atravessaram a história e instalaram o seu musical de futebol e como se estivessem no clima cinzento-metálico dos fins de tarde de Londres ou Manchester, soltaram no outro mundo Moscovo, uma atmosfera que rasga, como um gato siamês em movimentos de top-model tido o existência que poucas décadas era de “outro mundo”.
A chuva copiosa ajudou a dar-lhe contornos épocas. Na madrugada de Moscovo, duas equipas ingleses frente-a-frente na final da Champions. Dribles de Ronaldo, arrancadas de Rooney, carácter de Scholes. Os cortes de Ricardo Carvalho, a classe de Lampard, a busca pelo tesouro de Drogba. A bola na barra e no poste, o corte de milagre sobre a linha de Terry, o golo que ia ser e Cech com perfil de polvo foi buscar. Tudo isto será eterno na nossa memória. Como a certo ponto, nesta adaptação romanceada de futebol, ouvir “segura bem essa bola, Nani!”. Duas, três vezes seguidas. “Segura Nani”. Na berma do relvado, o mundo português também fura pelo eixo moderno Londres-Moscovo. Ganha lugar de destaque. Portugal penetrou no mundo do futebol e hoje ele já não sabe viver sem ele.
Há, claro, o lado táctico do jogo. Uma lição de como ir ganhando o meio-campo. O Manchester entra melhor porque entendeu os espaços e neles ora activou o pressing feroz de Schole e Carrick, ora soltou a velocidade com imaginação técnica de Rooney ou Ronaldo. E dominou. E marcou. O Chelsea vai percebendo o filme. E vai agarrando o sector vital. Lampard e Ballack passam a jogar nos sentido dos ponteiros do relógio de Makelele. Sobrevive ao “fim do jogo” e, aos poucos, como seguindo os ressaltos da bola e o escorregar de um guarda-redes gigante com orelhas de Dumbo, faz o seu golo.
Terry tem o mundo nas mãos. A chuva torna-se um dilúvio, mas ninguém a sente mais. É algo natural. Como tudo aquilo que se passava só fizesse sentido sob chuva torrencial. Parte para agarrar o sonho, mas escorrega, a bola não entende o que se está a passar, confunde-se e não entra. A seguir, o dumbo holandês volta a voar. Ronaldo regressa à vida. Terry cai no abismo. Sentimentos tão opostos, tão próximos, mas lado a lado, ao mesmo tempo. É fantástico. É perturbante. Não sei o que me toca mais. Sinceramente, é o sonho a escapar como areia fina por entre os dedos. Acima disto, no futebol, já não há mais nada. Giggs e Ferdinand levantam-na e tocam o céu. A chuva abraça-os. Como Steve Clarke abraça Terry. Que já não se acha deste mundo, temendo a progressiva adaptação à vida real de “Les Miserables”, sentida na relva de Moscovo como nas esquinas de Charing Cross, onde vagabundos de barbas compridas abrigam a sua existência com a mesma intensidade de um Bentley ou um Austin Martin nos filmes de James Bond. É o futebol do Sec-XXI. Globalizado. Perturbante. Mágico.
