Há palavras que impulsionam uma equipa até ao impossível. Há outras, pelo contrário, que sufocam os jogadores, como os seus músculos deixassem de dar respostas. Não é, no entanto, uma questão física. O grande problema é, num ápice, em pleno jogo, a cada jogada, as palavras confiança, coragem e serenidade, serem ultrapassadas por ansiedade, pressão e…cansaço. Esta última, porém, está fora do contexto.
Minuto 65 do Leixões-FC Porto. O 0-0 é um Adamastor na cabeça dos jogadores portistas. Varela isola-se, o golo iminente, corre para a baliza, vai rematar, vai fintar o guarda-redes, vai tentar outra coisa, mas hesita, perde tempo de remate, puxa para a esquerda, perde o controlo da bola, o guarda-redes sai, tira-lhe a bola. É, claro, apenas um lance, mas diz muito do metralhar de dúvidas que sufocou a cabeça de Varela. Em rigor, ele nem sequer falhou o golo, porque, no fundo, foi é incapaz de…decidir o que fazer. Ora isto não é uma questão técnica ou física. É uma questão mental, ansiedade pura.
Esta semana, Jesus falou que “a equipa está fatigada fisicamente”. É natural. Nenhuma equipa no futebol de top pode, porém, perder um jogo (ou campeonato) por cansaço físico tout court. Quanto muito, pode perder por erros tácticos cometidos devido à incapacidade física para cumprir esse plano posicional e dinâmico de jogo. É muito diferente. Por isso, o cansaço físico tem, no jogo, tradução prática: fadiga táctica! É quando os jogadores mais do que com dores de pernas, acabam o jogo com dores de…cabeça!
Dá a sensação que, a tentar segurar o resultado (Benfica com o Belenenses) ou a tentar o golo (o FC Porto no Mar) a equipa está a jogar de olhos fechados, como se lhe tivessem posto uma venda. Joga só com dois ou três sentidos e nenhum é a visão. Procura mais o tacto. A bola o mais rápido possível perto da área ou o mais depressa longe dela. Não dá para pensar em muito mais. O jogo simplifica-se? Não, torna-se mais complicado. Porque perdeu as suas referências fundamentais.
Qual dos três candidatos lidará melhor com esta ameaça na fase decisiva da época? Crer numa ideia de jogo é fundamental para fugir a este sufoco mental. É então que o jogar da equipa deve-se tornar numa espécie de rede solidária táctica. Ou seja, ser capaz de manter os seus grandes princípios (o primado da organização), nunca perder sentido do jogo posicional e fazer correr a…bola. Os jogadores estarem mais próximos, verem-se sempre uns aos outros. Evitando o que é mais natural acontecer nestes casos, as linhas alargarem-se e distanciarem-se mais uma das outras até se partirem. O cimento táctico do Braga tem sido, nessa perspectiva, a sua maior arma para fugir à ansiedade, como a que até um invulgar Estádio cheio provoca.
Sacchi dizia que numa equipa “há três verbos: trabalhar, ter paciência e pensar”. Nas duas últimas palavras, de raiz mental, está a base de, quer na oportunidade flagrante como na organização colectiva, controlar a ansiedade. E, assim, controlar tacticamente o cansaço!