DE VITOR BAÍA ATÉ HELTON: Na «máquina do tempo»

June 25, 2007 12:00 AM
Que significa Helton para Baía? Simples, mais do que um melhor guarda-redes, Helton é o tempo… Todos os dias tomamos opções mas, ao longo da vida, acredito que não são mais do que quatro ou cinco as decisões que podem alterar o curso da mesma de forma decisiva. Para um futebolista, o momento da retirada, é uma delas.
Conta Menotti que numa tarde de tertúlia de futebol numa esplanada de praia, bebendo uma cerveja com amigos, Amadeo Carrizo, velho guarda-redes do River Plate que também lá estava, virou-se para ele e perguntou-lhe: - Flaco, lembras-te daquele golo que me fizeste um dia em Rosário e que vocês ganharam? - Qual...? não me recordo –respondeu Menotti - Aquele, em que remataste muito forte que quase rompia as redes. - Ah, sim, sim –disse Menotti - Sabes porque o fizeste? –perguntou Carrizo e seguiu sem esperar resposta - porque me cheguei demasiado perto de ti. Aos tipos que chutam tão forte como tu, não há que se aproximar demais, pois assim fica-se sem tempo de levar as mãos à bola. Tinha que ter ficado atrás, para a poder desviar. Esse golo de que falava já acontecera há 20 ou 25 anos, mas ele continuava dando voltas à cabeça para descobrir como o evitar. Era uma dívida que tinha com o seu orgulho. No imaginário, Carrizo nunca deixara de jogar. Continuava a fazer defesas, mas era impossível travar o tempo.
Todos os dias tomamos opções (o que vestir, o que comer, que filme ver…) mas, ao longo da vida, acredito que não são mais do que quatro ou cinco as decisões que tomamos e podem alterar o curso da vida de forma decisiva. Para um jogador de futebol, o momento de decidir, como e quando, a retirada, é uma delas. Em geral, o treinador é o primeiro a descobrir e o jogador o último a aceitar. Durante a carreira, tudo o que rodeia os jogadores cada vez os fazem pensar menos. Estágios, viagens, empresários que negoceiam contratos, investimentos… Há quem pense por eles. Menos na hora de terminar a carreira. Por isso, muitos nunca pensam seriamente no final ao longo do tempo de jogador e, depois, tentam prologá-lo até serem vencidos pelos seus próprios limites. É uma fatalidade que toca até grandes estrelas do futebol mundial. Ainda hoje me custa recordar ter visto Eusébio a jogar pelo Beira-Mar e União de Tomar. Com respeito para os dois clubes, claro. Como Kempes na Indonésia, Blokhine no Chipre, Hugo Sanchez na Áustria, Rummenigue na Suíça, Keegan na Malásia. Muitos ainda descobriram em Eldorados como os EUA, Japão ou paraísos árabes, como o Qatar, a solução perfeita, mas estes milionários «cemitérios de elefantes» não estão disponíveis em todas as épocas. Di Stefano acabou no Espanhol depois de não aceitar em Madrid que alguém lhe dissesse que um jogador pode já ter um lugar na história mas já não ter na primeira equipa. Em geral, vendo bem, estas realidades acontecem simultaneamente. Quando há dois anos, Helton surgiu no FC Porto, poucos acreditaram que ele iria roubar o lugar a Baía na baliza do FC Porto. Não foi de imediato, os jogos foram passando, mas, de repente, percebeu-se que, mais do que o belo guarda-redes que é, Helton simbolizava algo muito mais forte. Ele era o tempo. E chegava para ditar leis. Baía percebeu isso como poucos. Era o momento ideal para, como Carrizo, passar a defender no imaginário. Não duvido é que nas paragens da alma, também seguirá, como Carrizo, mesmo daqui a muitos anos, pensando como podia ter parado aquele remate. E o avançado como podia ter feito o golo, como conta Sanfilippo, velho goleador argentino, em Futebol, a sol e sombra, sobre o dia que decidiu voltar a um velho estádio para contar a um amigo como fizera o golo da sua vida. Ao chegar ao local, porém, constatou que o campo fora demolido e lá erguera-se mais um hipermercado Carrefour. Em silêncio, entrou e passou então a narrar: “A baliza era ali”, assinalando as caixas para pagar. “Disse a Capdevilla para me meter a bola aqui, apontando para uma pilha de frascos de maionese. A bola caiu atrás dos defesas, saltei para ali onde está o arroz, vês?” Aponta o local e salta para lá como um coelho, “deixei-a pinchar e todo no ar rematei de esquerda”. Então, todos olharam para as caixas, onde estava a baliza há 40 anos, e já conseguiam imaginar a bola a entrar no ângulo, mesmo junto onde estavam as pilhas para rádios. Sanfilippo ergue os braços para festejar. Os clientes e funcionários explodem num aplauso frenético. Acho esta história divinal. No fundo, um jogador de futebol não se retira nunca!

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