Cada Mundial, costuma, com maior ou menor dimensão, consagrar a sua estrela principal. De Pelé a Zidane. É difícil encontrar um nome para 2010. Existem muitos príncipes, mas um Rei, daqueles de hipnotizar, não. Os maiores projectos nesse sentido falharam o encontro com o Olimpo. Messi, Cristiano Ronaldo, Rooney ou Kaká. Aparecem então os actores secundários a roubar o papel principal. Sneijder, Ozil, Forlan, Villa. E Robben, Muller ou, claro, Xavi, a mais perfeita personificação de uma equipa/colectivo num só jogador. Neste contexto, este Mundial abriu espaço a outras estrelas. As vuvuzelas, a Larissa e um polvo adivinho. Ok, neste “mundo particular”, salva-se a Larissa, sem dúvida, a face mais sedutora de uma selecção paraguaia que, em cada jogo, se agarrava à sua táctica defensiva como um naufrago a um pedaço de madeira em alto mar.
Mas, esta constatação não tem de ser necessariamente negativa. E não é, de facto. O bom jogador, só pensando individualmente, está hoje debaixo de suspeita. Se não fazes um par de golos e fintas três defesas seguidos, não és nada. No conjunto, este Mundial contrariou muitas tendências do futebol actual. Só o simples facto de ter sido justo para as equipas que melhor jogaram, é suficiente. A estrela é a bola. Não pelos efeitos que dizem ganhar, mas pela forma como respeitou o melhor futebol.
Quando vejo jogar a Espanha, lembro-me sempre de um desabafo que tinha Guti, quando lhe falavam dos problemas do futebol actual e da falta de extremos. Dizia ele: “poucas equipas jogam com flancos puros. Às vezes, viro-me e não vejo ninguém na outra faixa. Tenho quatro jogadores a meu lado e ninguém na banda”. Para um bom médio-centro, isso é o pior que pode acontecer. É como se lhe tirassem a linha do horizonte da vista. Este Mundial, sem resgatar os extremos puros (saúda-se Robben e o aparecimento de Pedro) resgatou a utilização das faixas. Por isso, Xavi e Sneijder emergiram como os grandes príncipes deste Mundial. No contexto estilístico de Espanha e Holanda, sempre que se giravam encontravam alguém a quem meter a bola. Era esta mensagem que o bom futebol vinha pedindo há muito tempo.
A “paixão” de Ronaldo
No nosso «pequeno mundo» fica a certeza que Cristiano Ronaldo é muito mais do que um simples jogador. Já se sabia, dirão, mas nunca tal tinha sido tão notório dentro da selecção. Fora do relvado, desde chegar ao estágio de helicóptero, e dentro dele, até à celebre frase “Carlos, assim não ganhámos!”. O mais perturbante é ver como, nos últimos tempos, o futebol de Ronaldo inverteu o caminho que estava a desenvolver em Manchester. Cada vez mais conhecedor dos fundamentos do jogo e da sua natureza individual, o seu futebol ia, progressivamente, despojando-se do supérfluo para se tornar cada vez mais objectivo. Hoje, estamos cada vez mais perante um futebolista egocêntrico. Que se fecha dentro de si durante 90 minutos, tempo em que o seu cérebro está conectado com um tipo de jogo que só ele está a jogar. Cada vez mais supérfluo nas aventuras individuais.
Admito que sente ter valor para resolver as coisas sozinho de um momento para o outro. E, tem, de facto (e é de valorar essa auto-confiança), mas o jogo não pode ser só isso. Necessita, no fundo, de ver que existem outras formas de vida à sua volta. O problema é, pois, simples: Cristiano Ronaldo está, pura e simplesmente, apaixonado por…si próprio!