“Falo em francês com os homens, em alemão com o meu cavalo, em italiano com as mulheres, e em espanhol com… Deus!”
Carlos I de Espanha (1500-1558)
O futebol espelha as diferentes expressões de cada país, estilo e temperamento. Cada qual tem a sua sensibilidade própria, carácter e toque. A Europa, velho continente, sempre cultivou essas diferenças. Barcelona e Manchester United, realeza dominante na terra dos monstros da bola, são hoje os maiores embaixadores desse fantástico legado. Defrontarem-se na Final da Champions é por isso, porque ambos, apesar da crescente presença estrangeira, permanecem fiéis às raízes estilistas, um choque ideológico entre o mundo latino e o anglo-saxónico.
A frase, hipnotizante e quase mística a que transcrevi no início do texto atravessou vários séculos, mas ainda hoje toca o nosso (sub)consciente. Faz sentido. Expressava, então, as guerras de poder territoriais que atravessavam a europa e suas confusões dinásticas, mas sobretudo, expressava como é diferente cada nacionalidade, cada língua, cada carácter humano. No futebol, também é assim. Não estava, naquela citação, a especificação do inglês que, desde logo, se entende língua natural da existência futebolistica. Para além da rudimentar utilização do alemão, em força, e do italiano, com sedução, ou do francês, com diplomacia, a colocação do espanhol como linguagem divina dá-lhe um estatuto quase supranatural.
Se hoje quiséssemos dividir futebolisticamente as diferentes expressões linguísticas mais adequadas para falar com aquelas distintas entidades, o espanhol, ironia da história, também seria o mais indicado para falar com o ser divino. Pep Guardiola e uma pulga vinda da histórica extensão hispânica a terras sul-americana, Messi, são os melhores interlocutores. O estilo de jogo da selecção espanhola, campeão da Europa e do Mundo, e do Barcelona, antes de ganhar qualquer título já ganhou a admiração eterna de todos que o vêm jogar (algo muito maior do que qualquer Taça em si mesmo) é, por isso, a que melhor fala com o Deus do futebol. Terá uma linguagem mais elaborada, com frases difíceis, (a qualidade de passe) de Xavi e Iniesta, mas depois, nas conclusões finais, percebe-se que toda aquela complexidade em forma de teia-de-atranha com bola tinha apenas o condão de abrir o espaço ideal para abrir espaços no território adversário e chegar ao golo.
A linguagem britânica é mais directa. Sem tantas preocupações estéticas. Quando o seu primeiro combatente com bola arranca sobre o relvado inimigo, leva com ele a força física que abraça a arte (entenda-se técnica). O soldado Rooney, vagabundo com bola, grita e joga com a mesma raça e agarra o jogo com colarinhos. Um temperamento apoiado pelo perfume de Nani, a astúcia de Berbatov e os rasgos de Giggs, Peter Pan do futebol, tal a forma como prova, jogo após jogo, época após época, que é mesmo possível ficar jovem para sempre.
No mapa do jogo, surgem distribuídos no relvado de forma semelhante: o desenho estratégico do 4x3x3. Na movimentação, porém, e na linguagem, claro, é que tudo se torna diferente. Com autoridade, o exército de Ferguson também se sente com legitimidade para falar com Deus. E Rooney sabe como se fazer entender. Todos falam mais directamente (e a bola chega mais depressa à baliza adversaria). A corte de Guardiola tem outra cultura de linguagem, retórica latina, por isso retém a posse de bola durante muito mais tempo. Fala sem parar (entenda-se, mantem a posse de bola) durante tempos infinitos.
No fim, quando o crepúsculo do jogo chegar, entre Messi e Rooney estarão as melhores últimas palavras para dizer ao Deus do Futebol.