Dizem que os piores venenos e os melhores perfumes estão escondidos nos frascos mais pequenos. No futebol, há jogadores que fazem pensar nessa teoria. É em Turim, onde nos anos 80 emergiu uma formiga atómica lusitana, Rui Barros, que a ideia renasce no onze da Juventus, com outro rato em forma de jogador de futebol. Giovinco, 1,60m. e a camisola que parece dois tamanhos acima. É para ele que todos olham quando a equipa caiu em depressão.
A alteração táctica dos últimos jogos, do clássico 4x4x2 para o 4x3x1x2 tem o futebol do rato no centro da decisão. Ranieri quer dar mais criatividade e capacidade de desequilíbrio imaginativo nas costas da dupla atacante (Iaquinta-Amauri) e em vez de fazer Giovinco partir de uma ala, como sucedia no 4x4x2 clássico com Nedved, coloca-o agora entre-linhas na zona central da segunda linha do meio-campo. É um rato trequartista. A crise do jogo da Juventus tem, no entanto, raízes mais profundas. No fundo, Ranieri segue uma tendência táctica do futebol italiano que passa por, em campo, quase como que esconder o regista. Antes ele era um médio-centro clássico, agora é 10 escondido numa faixa. Del Piero e Nedved já não são, no entanto, jogadores com disponibilidade física (e consequentemente táctica) para esse papel de constantes diagonais. Muitas vezes, acaba por ser Camoranesi a pegar no jogo desde a direita, mas sem ter essa vocação organizativa é outro produto do viveiro juventino que tem aparecido nesse espaço, Marchisio, talvez o jogador que melhor pensa hoje o jogo a meio-campo, num sector onde Poulsen e Sissoko dão peso à recuperação mas não garantem profundidade de transporte defesa-ataque.
Giovinco é um jogador que empolga pela velocidade com que sai do drible, combinando muito bem com os avançados (onde surge a segunda vida táctica de Del Piero). No meio de uma equipa tão física a sua mobilidade permite à equipa respirar mas necessita que a seu lado exige-se outra capacidade de temporizar com a bola. Isto é, pensar melhor o jogo. Contra o Palermo, teve atrás de si Marchisio (formando um triangulo com Poulsen e Sissoko) mas a disposição do meio-campo em «3x1» deixa Giovinco muito desapoiado e obriga-o a movimentos entre o centro e ala para os quais não tem, na sua execução, capacidade de organização. Limita-se a acelerar, nunca a pensar. Solta alguns bons passes e o onze só funciona com cérebro quando Marchisio sobe.
Um dilema para Ranieri num jogo ironicamente decidido por outro rato, o da outra equipa. Um pouco mais gordo, mas com a baliza mais fixa no olhar: Miccoli. Fez um golo e provou como a fórmula de dez jogadores e um rato pode ser uma boa solução táctica desde que bem interpretada ao longo das quatro linhas.