Pistas para encontrar o bom futebol
Ao longo da história, o seu futebol viveu sob a influência italiana, na raiz defensiva, e alemã, no jogo dividido, mas nunca criou um estilo próprio. Fiel a esta herança, a Suíça entrou no seu Europeu com novos aromas multiculturais. Na face da globalização, um miúdo cabo-verdiano no controlo do meio-campo: Gelson Fernandes, ao lado de Inler, foi o primeiro ladrão de bolas com visão defesa-ataque-defesa do Euro. Perderam porque o melhor futebol só tem voz própria se consegue o último elo: o golo.
Mas vendo o jogo e as diferentes filosofias em confronto, ficava algo de estranho no ar. Porque a equipa suíça mostrava saber trocar a bola. Vê-se nos pormenores dos seus jogadores. Quem passa a bola presta a seguir auxílio a quem a recebe. Apesar disso, apostava antes num contraditório jogo de transições rápidas, enquanto os checos procuravam um jogo de posse da bola mas sem ter um médio-centro organizador. Em nenhum dos onzes existia quem pensasse o jogo. Só alas, Behrami-Barnetta contra Sionko-Plasil, e pivots muito recuados. Poderia Hakan Yakin ter feito a diferença a pensar o jogo. Com ele, passando a jogar em 4x2x3x1, a segunda linha refinou-se mas nas mais de mil formas de ganhar um jogo, também está uma defesa em linha que falha. 89 minutos controlados e um no limite do erro. Foi quando surgiu o tal ultimo elo. Uma ironia explorada por Sverkos.
O futebol austríaco vive uma crise geracional desde os nos 80 de Krankl. Faltam novos heróis. Em Viena, com vestido de gala, é difícil não pensar nos velhos mitos quando no actual onze não se vê o brilho das estrelas. Questão de orgulho para Ivanschitz, o melhor jogador austríaco da actualidade. Entrar em campo como numa máquina do tempo e inverter a ordem natural das coisas. É que o talento necessita de confiança e, quando ambos se juntam, o bom futebol é inevitável. Eis uma boa forma de seguir Ivanschitz, o 10 da Áustria.
Croácia, no reino de Bilic
Antes de jogar, pensar como treinar. É a ordem natural da vida de uma equipa e seu treinador. Nas selecções, porém, muitas vezes é difícil entender o treino na sua total dimensão. Mais do que um treinador, existe um seleccionador. Porque quase não há tempo para treinar. Por isso, poucos grandes treinadores nascem a partir das selecções. Só nos clubes podem ser treinadores com «T» grande no plano do treino. Como detectar então um desses treinadores entre os seleccionadores do Euro-2008? A forma das equipas jogarem após mais tempo de treino é um bom indicio. O estilo, o discurso, explicando estratégias e filosofias, conversando sobre futebol, são outras formas. É onde emerge Slaven Bilic, seleccionador da Croácia. No banco, lê o jogo de forma cirúrgica. Fora dele, fala do jogo com paixão e cativa pelas ideias que dão pistas para debates interessantes de futebol. A sua Croácia entra hoje na relva do Euro. Modric e Kranjcar tratam a bola com classe a meio-campo. Olic e Petric dão-lhe o caminho da baliza perto da área. É a corte de Bilic, treinador com «T» grande para seguir no futuro futebol europeu.