
Todo o homem, em qualquer parte do mundo, procura as suas raízes. Elas o geraram e moldaram, no passado e para o futuro. É uma busca incessante. Os nossos antepassados, nossas aldeias, nossas recordações nostálgicas. O nosso futebol, também. A história da Rússia, seu território e gestação, é, como a da maioria de todos os países, uma história de migrações cruzadas de diferentes povos e antigos reinos. É uma história que de tão ancestral, se perde nas brumas do tempo. Do domínio dos Mongols, até á dinastia Romanov, que dirigiu a Rússia durante 304 anos, desde 1613 ate á Revolução de Lenine. Do Sumptuoso reino dos Czares até ao Império dos Sovietes.
Os primeiros sinais da presença do futebol na majestosa história russa, remontam a finais do Séc. XIX, numa era onde o poder estava nas mãos do Czar Nicolau II, que, partindo do legado de Ivan, o terrível, semeara por todo o reino, uma política de autoridade, concentrando, cada vez mais, a riqueza opulenta nas mãos de uma elite ditatorial que oprimia todo o povo. Desde o tempo de Catarina, a Grande, a Rússia dos Czares gozava de um autocrático domínio sobre todos os seus servos.
Foi neste contexto que, em 1887, dois irmãos ingleses, de apelido Charnock, introduziram o futebol na Rússia, por entre os empregados de uma fábrica de algodão por eles dirigida, em Orehovo-Zuyevo. Até ao eclodir da Revolução de 1917, o futebol foi ganhando adeptos entre as fábricas têxteis, na região da grande Moscovo, dirigidas, sobretudo, por ingleses e alemães. Existem, no entanto, registos que provam presenças futebolísticas em outras partes do território, como na região do Caúcaso, a sul, onde, para de defender os poços de petróleo das invasões japonesas, se concentravam grandes legiões do exército russo, cujos militares muitas vezes se divertiam aos pontapés a um objecto esférico, em jogos regidos por regras pouco definidas, mas que segundo gravuras da época, eram dirigidas por superiores hierárquicos, montados a cavalo.
Entre 1900 e 1910, começaram a disputar-se as competições moscovitas de foot-ball. O povo aderiu em massa.. Após a Revolução, fundada a URSS, muitos clubes começaram a nascer pela região de Moscovo. A maioria deles ainda existe hoje, mas surge aos nossos dias, com nomes totalmente distintos, que reflectem, afinal, as mudanças sócio-politicas que moldaram a sociedade russa e por extensão, os seus clubes de futebol. Um deles, no inicio, era o Morozovsti, vencedor de sucessivos campeonatos moscovitas. Após a revolução, foi, primeiro, apropriado pelos sindicato dos operários electricistas e, depois, em 1923, pelo Ministério do Interior, sede da temida policia KGB, ganhando o nome que perdurou através dos tempos: Dínamo de Moscovo FC. O seu fundador foi o chefe Felix Dzerzhinsky.
Primeiro Campeonato, Primeiro título

Em 1936, o Campeonato da URSS, disputa-se pela primeira vez, organizado em dois períodos diferentes, regidos pelos rigores do Inverno. Desta forma, disputaram-se dois torneios, que tiveram dois campeões: o Trofeu Primavera, ganho pelo Dinamo de Mocovo e o Trofeu Outono, ganho pelo Spartak, também de Moscovo. Iniciava-se, assim, a grande rivalidade entre os dois grandes clubes da capital do Império soviético. Até ao eclodir da segunda grande guerra, ambos dividiram os títulos entre si. Três cada um. O Dínamo venceu em 36(fase primavera), 37 e 40, o Spartak em 36(fase outono), 38 e 39, até que as bombas paralisaram as competições desportivas. Por esta altura, no entanto, o Dinamo de Moscovo já moldara a sua imagem de clube da policia. Uma imagem que perduraria no tempo e que teria o seu auge, logo após o fim do conflito armado mundial...
Na alvorada do pós-guerra:
A MÍTICA DIGRESSÃO POR TERRAS BRITÂNICAS

1945. Vivia-se o eufórico tempo do fim da guerra. A Grã-Bretanha era vista, em todo o mundo, como uma das grandes nações vencedoras. Noutro quadrante, o inverno russo e as suas destemidas tropas também tinham vergado o monstro nazi. Neste clima, a digressão do Dínamo de Moscovo por terras britânicas, mais do que um evento desportivo, era vista como um acontecimento político, num tempo em que os britânicos viam nos soviéticos os aliados de leste que haviam travado a invasão teutónica.
Envolta em grande expectativa, ela foi o inicio do prestigio internacional do futebol soviético e o nascer de uma série de mitos e lendas que, por entre um clima de glacial e reverencial mistério, passou a moldar a imagem do seu estilo de jogo, projecção futebolística dos hoje eclipsados regimes de Leste, onde as vitórias das suas equipas eram vistas como uma bandeira do socialismo e da forma ultra-disciplinada como os seus jogadores se exibiam e comportavam em campo e fora dele, um exemplo do modelo de sociedade avançada que diziam construir em oposição á individualidade sem valores do ocidente.
Nesses idos anos 40, o Dínamo realizaria quatro jogos no Reino Unido. No inicio da digressão, todos os olhos estavam postos, no lendário Highbury Park, casa do Arsenal, onde, rezam as crónicas, venceram por 4-3, exibindo um futebol veloz e ofensivo, onde se destacou o trio atacante composto por Kartsev, Beskov, futuro seleccionador nacional, e Bobrov, á frente do cerebral médio centro Smichastni, do defesa direito Radikorski, enquanto que na baliza brilhava o felino Aleksey Komitch, a quem a imprensa britânica imortalizou com a alcunha de o tigre, e que depois de terminar a carreira se tornaria repórter desportivo fotográfico.
Nos jogos seguintes, o Dinamo esmagou o Cardiff, do País de Gales, por 10-1 e empatou com o Chelsea, de Londres e o escocês Glasgow Rangers, 3-3 e 2-2, respectivamente. Depois, durante a viagem de regresso a Moscovo, fez escala na Suécia, e defrontou o Norrkoping, ao qual também venceu
Para trás ficava uma digressão inolvidável, o embrião de uma lenda que ficaria para a eternidade colada á história do Dínamo de Moscovo, morada de grandes jogadores dos anos 40/50, como o defesa Krizhevsky e os avançados Yakushin, Salnikov e Soloviyov, grandes estrelas do futebol gerado a leste do paraíso, atrás da cortina de ferro...
YASHINE, A LENDA DA ARANHA NEGRA

Era uma vez um homem todo vestido de preto que deu um novo sentido á vida entre os postes. Era russo e chamava-se Yashine. A partir dele, a vida dos guardiões das balizas nunca mais voltou a ser a mesma. O guarda redes, em teoria, é o único homem do onze que vive á margem do jogo colectivo da equipa. A lenda de Lev – leão, em russo – Yashine, a aranha negra, nome que o imortalizou por equipar sempre todo de preto, atravessou gerações e ainda hoje ele é visto como a suprema referência quando se fala em grandes guarda redes. Não tanto pelos seus dotes técnicos, mas sobretudo por ter sido o percursor de uma nova forma de estar na baliza. A partir da era da aranha, eles deixaram de estar imóveis entrejogadas de ataque, tornado-se de corpo inteiro um jogador de equipa.
Tudo começara em 1943, num ano em que a pátria soviética se esvaia em sangue na luta contra o monstro nazi, quando um pequeno rapaz de 14 anos, aprendiz de esmerilador e começava a dar os primeiros passos como jogador de futebol na equipa da fábrica, treinado pelo memorável I. Shubin. Poucos anos mais tarde, no exército e com a patente de coronel esse jovem fez-se homem e tornou-se num mito do futebol da URSS: Lev Yachine, a aranha negra, que em 1949 ingressou no Dinamo de Moscovo, convidado pelo treinador Chernyshov, que orientava, ao mesmo tempos, a equipa de futebol e de hóquei no gelo.
A sua missão era a de substituir a velha glória Komitch, o tigre das redes. Foi o inicio de uma mítica carreira toda dedicada á baliza do Dínamo. O único clube da sua vida, onde jogou durante 22 épocas, detendo, ainda hoje, o record de jogos realizados no campeonato soviético: 326. Logrou 5 títulos de campeão nacional, 54, 55, 57, 59 e 63. Jogou 78 vezes pela selecção soviética. Em todos eles, sofreu 70 golos. Foi campeão olímpico em Melbourne-58 e campeão europeu em 1964. Esteve presente em 4 Mundiais, 58, 62, 66 e 70, embora neste apenas no banco. Em 1963, venceu a Bola de Ouro, sendo eleito o melhor jogador europeu do ano. A única vez que o trofeu foi atribuído a um guarda-redes. Fez o seu último jogo em 1971.
Foi sempre uma imagem do regime comunista e na década de 70 foi nomeado Director da Secção de Futebol do Comité Estatal de Desportos da URSS, responsável pela formação das novas gerações de futebolistas soviéticos, onde se engloba a tradição de uma elegante escola de guarda-redes.
Uma vida feita de entrega e sofrimento. Em 1981, dizia numa entrevista: "É agradável olhar o passado quando os bons momentos se acumulam. Hoje os jovens soviéticos não sabem sofrer ou, por outras palavras não querem enfrentar os sacrifícios inerentes ao futebol, sendo possível que o maior nível de vida actual da nossa sociedade influa nisso."
A aranha desapareceu em 1989, no fim de uma doença prolongada que lhe levou á amputação de uma perna. Na memória eterna os jogos de exibição da selecção da FIFA, no passado alvo de grande atenção. Exibia-se a nata da bola mundial. Nos anos 60, entre as redes, era usual jogar, numa parte, Soskic, e, na outra, Yashine. O jugoslavo era um assombro, o que ele voava. Uma delicia para os fotógrafos. Mas depois vinha o russo e estragava tudo. Defendia de pé, sem malabarismos ou voos razantes, o que o outro defendia com todo aquele espectáculo. No final, todos ficavam deslumbrados com Yashine, que fazia o mesmo trabalho, com metade do esforço.
Para sempre fica a lenda de Lev Ivanovich, um mito eterno do mundo do futebol, o mais famoso guarda redes de todos os tempos.
A PRIMEIRA FINAL EUROPEIA SOVIÉTICA

Findos os lendários anos 40/50, o Dínamo de Moscovo foi, progressivamente, perdendo força no seio do futebol soviético. Em Moscovo, outros clubes, como o Torpedo, o CSKA e o velho rival Spartak, começaram a ocupar um espaço onde outrora dominava. Em Kiev, emerge o Dínamo. O seu último grande momento remonta a 1972, poucas épocas depois da retirada definitiva de Yashine, quando se tornou a primeira equipa soviética a atingir uma final europeia. A prova era a Taça das Taças, tendo chegado á final após afastar o Olimpiakos, Eskisehirspor, Estrela Vermelha e Dínamo de Berlim. Era a equipa do eficaz guarda redes Vladimir Pilguj.
No jogo decisivo, no entanto, frente ao Glasgow Rangers, o Dínamo acusou algum nervosismo, entrou mal no jogo e sufocado pelos cruzamentos dos escoceses, cedo sofreu dois golos. O marcador chegou a 0-3, até que perto do final, dois golos de Estrekov e Makovikov, reduziram para 2-3, mas não evitaram a perda da ambicionada Taça europeia.
Desde 1976, quando venceu o Torneio da Primavera, que o Dínamo de Moscovo não voltou a conquistar um titulo nacional. Órfão das grandes glórias do passado, extinta a URSS e a tutela militar que o tornava temível, ocupa um lugar próprio no novo futebol russo, em plena reconstrução, mas um simples olhar ás bancadas de pedra do seu velho Estádio, logo desperta um enorme filão de memórias. É sobre esta pesada herança que os homens do presente terão de construir o futuro do Dínamo Moscovo FC.