DOIS ANOS DE ERIKSSON NA SELECÇÃO INGLESA : Um sueco na «Velha Albion»

July 3, 2004 12:00 AM
AS BATALHAS DO PASSADO E OS DESAFIOS DO PRESENTE :
Dois anos após ter assumido o cargo de seleccionador da Inglaterra, Sven Goran Eriksson permanece debaixo de fogo dos mais puristas das raízes do football inglês. Durante todo o percurso, manteve-se sempre fiel ao clássico 4x4x2 e suas variantes, o sistema que, preferencialmente, moldou todas as equipas que treinou ao longo da carreira. No arranque para a grande operação Euro-2004, debate-se, hoje, com várias questões técnico-tácticas que condicionam a dinâmica do seu sistema de adopção: a falta, no actual futebol inglês, de extremos ou de jogadores de classe indiscutível com profundidade atacante pelos flancos, e, noutro patamar, a definição sobre qual o melhor lugar para Beckham, no centro ou na ala direita?
28 de Fevereiro de 2001. No Villa Park de Birmingham, perante o olhar desconfiado dos mais puristas que não aceitavam que a pátria do futebol tivesse recorrido a um treinador estrangeiro para substituir o carismático Kevin Keegan á frente da sua selecção nacional, Eriksson iniciava, frente á Espanha, a sua aventura no comando do onze inglês. Nesse jogo de estreia, um particular surgido numa fase em que o conjunto ainda se recompunha da dura derrota sofrida em Wembley frente á Alemanha, o fleumático sueco não procurou criar rupturas e alinhou com James na baliza, Phil Neville e Powell, nas laterais, Ferdinand e Campbell no centro da defesa, e Butt, o médio-defensivo de um sector intermediário onde estavam Beckham, á direita, Scholes, mais adiantado sobre o centro, e Barmby, furando pelos flancos. Na frente, o avançado centro Andy Cole e, para entrar de trás, o explosivo Owen. Depois, ainda entraram Gary Neville, Ball, Ehiogu, Heskey e Macmanaman. A vitória por 3-0 foi o primeiro embalo para as grandes batalhas a caminho do Oriente. Durante todo o apuramento, Eriksson, após as dúvidas iniciais, apostou num grupo bem definido. Na defesa, impôs-se a dupla de ferro Ferdinand-Campbell ou Keown. Sobre as faixas, Gary Neville, á direita, e Ashley Cole, á esquerda. No meio campo, o magic couple de Manchester, Beckham-Scholes, apoiado, desde a zona dos trincos, pelo aguerrido Gerrard, do Liverpool, e, como médio ofensivo rompedor sobre a esquerda, sobretudo para criar desiquilibrios entre linhas, a principal aposta foi o veloz Barmby, então no Liverpool, decisivo no apoio ao ataque, onde, ao lado de Owen, surgiram, como homens de área, Heskey, Fowler e, apenas nos dois jogos iniciais, Andy Cole. Na baliza, o velho Seaman e como principal suplente utilizado: Mcmanaman, um flanqueador que faz a diferença pela sua velocidade com bola, algo decisivo na parte final dos jogos. A histórica vitória na Alemanha por 5-1, deu, imediatamente, o direito á imortalidade a Eriksson, mas, no último e decisivo jogo, em Old Trafford, frente á Grécia, seria apenas, a segundos do final, através de um fabuloso livre directo marcado por Beckham, fazendo o 2-2, que a Inglaterra lograria o passaporte para o Mundial-2002.

O dogma do 4x4x2: a base do fracasso no Mundial

Para além do apuramento, Eriksson tinha, sobretudo, devolvido a auto estima á selecção inglesa. Fiel ao seu clássico 4x4x2, tendo como base o controle do meio-campo, manteve, na fase final, o mesmo perfil táctico e igual filosofia de jogo, apenas com as alterações individuais de Neville por Mills a lateral direito, e de Barmby por Sinclair, na intermediária ofensiva, ao mesmo tempo que á frente da defesa, com a lesão de Gerrard, surgiu, em excelente plano, Butt. Como principal alternativa ofensiva, surgiu o veloz Vassel, enquanto que Dyer, um ala direito moderno, confirmava necessitar de maior maturação táctico-competitiva para se impor na selecção. No fundo, com estes dois homens, Vassel e Dyer, Eriksson começava a tentar colmatar uma das maiores lacunas da actual selecção inglesa: a falta de bons extremos e de profundidade ofensiva sobre os flancos. Foi, aliás, nesse contexto, que, nos últimos 30 minutos do jogo contra o Brasil, nos quartos de final, fez entrar ambos para alargar a frente de ataque e tentar, assim, aproveitar a superioridade numérica surgida após a expulsão de Ronaldinho. Com Owen desinspirado e Beckham algo desgastado fisicamente, a Inglaterra não conseguiria, porém, dar a volta ao jogo e cairia eliminada, perante as criticas dos supporters á pouca astúcia táctica de Eriksson, acusado de estar demasiado preso aos princípios básicos do seu 4x4x2. A verdade, porém, é que tal exibição fora, apenas, o espelho fiel, das fragilidades do actual futebol inglês, ainda em busca de novas estrelas de referências para acompanharem Beckham, Scholes e Owen, nas manobras ofensivas, sobretudo pelas faixas.

As duas linhas do 4x4x2 e o dilema-Beckham: no centro ou na ala direita?

Dono de um diagnóstico mais consciente sobre os grandes problemas técnico-tácticos do actual futebol inglês, Eriksson procurou durante a fase de apuramento para o Euro-2004, iniciar a necessária renovação de valores em alguns pontos chave. Depois de serem principais opções, na qualificação ou na fase final, Barmby e Sinclair deixaram praticamente de fazer parte dos planos. Falhadas, até ao momento, as apostas em Alan Smith e Joe Cole (ambos incapazes de atingir na selecção o mesmo nível exibido nos clubes), o treinador sueco, ansioso por dar maior criatividade ao ataque, lançou, contra Turquia, em casa -num jogo onde, após o empate com a Macedónia (2-2) sentia o lugar em perigo- o novo young boy prodígio do futebol inglês: Rooney, então com 18 anos, uma espécie de pequeno Gascoigne na forma destemida e imaginativa de abordar o jogo e conduzir a bola, para acompanhar Owen no ataque, relegando Heskey para o banco, e preferindo apostar antes numa dupla de velocistas vagabundos, daqueles que deambulam de flanco para flanco, para compor a frente de ataque. Assim, contra o fechado 4x1x3x2 turco, desenhou um reciclado 4x4x2 que se estendia, na dinâmica da táctica, num largo 4x2x2x2 com duas linhas a meio campo: a defensiva, para recuperar a bola e iniciar o ataque (Butt-Gerrard) e a ofensiva, para organizar e inventar jogo (Bckham-Scholes), também com a missão de, na saída de bola para o ataque, abrirem nas alas. No ataque, os velozes Owen e Rooney viviam sobretudo das bolas metidas em profundidade, mas, desta vez, ao invés do passado, através de passes verticais rasgados rente á relva. A chave para o controle das operações, residiu, no entanto, na capacidade magistral de Beckham em flectir no terreno para pegar na bola e distribuir jogo. Desta forma, porém, a equipa, apesar de ganhar superioridade numérica a meio campo, perdia o seu flanqueador direito, passando a afunilar demasiado o jogo. A solução surgiria com a entrada de Vassel, que passou a rasgar pela esquerda, abrindo espaços de penetração e, por fim, o caminho para a vitória por 2-0.

A questão posicional em torno de Beckham

Neste labirinto táctico, ficava, no entanto, bem expresso, um dos principais dilemas actuais de Eriksson: qual o melhor lugar para Beckham: no centro como playmaker ou na ala direita como flanqueador? Para iniciar este debate, saliente-se que, desde o primeiro momento, Eriksson disse preferir jogar com Beckham no centro, mas para tal, seguindo um principio básico adoptado pelo treinador sueco em todas as questões posicionais com outros jogadores, ele teria de estar a jogar no mesmo lugar no seu clube. Em Manchester, porém, Ferguson sempre o colocou, preferencialmente, sobre a faixa direita, para assim soltar o gesto técnico que executa com maior perfeição: os longos e tensos cruzamentos enroscados para o coração da área, metendo a bola, carregada de veneno, nas costas dos defesas, a chamada zona de ninguém, á espera que algum avançado a empurre para a baliza. Alinhando no centro, estes cruzamentos mortais, desaparecem, naturalmente, do jogo. Trata-se de um dilema posicional que ficou evidente, durante a fase de apuramento, no decisivo jogo com a Macedónia, fora. Sem os tais alas ou extremos que abram o 4x4x2 a toda a largura do terreno, Eriksson voltou a alinhar com Rooney e Owen na frente, ficando Beckham como playmaker central e Heargreaves, um jogador em ascensão, como ala esquerdo. Incapaz, no entanto, de, nesse sistema, fazer circular a bola, o onze desmembrou-se, pelo que, a perder ao intervalo (0-1), inverteu o design táctico no segundo tempo, surgindo Owen e Heskey, ponta de lança clássico, no ataque, com a particularidade de Owen descair mais para um flanco. Beckham manteve-se no papel de organizador central.
Naquele sistema, a produção de jogo subiu, mas o dilema posicional do spice boy manteve-se, agravado pelo facto de, jogando nessa zona, chocar muitas vezes, no mesmo espaço, com aquele que é hoje claramente o melhor médio ofensivo do futebol inglês: Scholes. Nesse sentido, outra opção, passaria por entregar a Scholes as chaves do meio campo, á frente de um volante defensivo (Gerrard ou Butt), ficando Beckham na direita e, talvez, Dyer, Heargreaves, ou até, numa possível adaptação, Gerrard, na esquerda, desenhando-se, assim, um 4x4x2 com losango. O facto de, no entanto, Beckham estar, desde o inicio da época, a jogar como médio centro no Real Madrid, parece indicar que a opção de Eriksson acabará por ser a de o colocar no papel de clássico playmaker, dividindo a zona central com Scholes, ficando este mais adiantado, mas permanecendo, assim, o dilema da falta de extremos ou flanqueadores no actual onze inglês, algo só atenuado com os raids de Owen ou as entradas de Vassel.

Os novos valores, o caso-Ferdinand e a crise de pontas de lança

Noutra perspectiva de análise á actual selecção inglesa, devem-se referir outros dois importantes aspectos: o emergir de novos valores com capacidade para entrar no onze inicial e, por outro lado, saber quem irá fazer companhia a Campbell no centro da defesa após a suspensão de Ferdinand. Como jogadores de selecção emergentes, citem-se, nas laterais, Glen Johnson, á direita, e Bridge, á esquerda, ambos do Chelsea. As principais opções continuam, no entanto, a serem, Mills ou Neville, na faixa destra, e Ashley Cole, na canhota. Na baliza, James, capaz de alternar defesas espectaculares com erros incríveis, substituiu Seaman. Á frente da defesa, como volante, destaque-se Lampard, a atravessar um fabuloso momento de forma. O pior que lhe poderia acontecer seria, porém, se na voragem por lhe descobrir um lugar na equipa, Eriksson o colocasse a jogar num posto que não seja o seu, como nas alas, por exemplo. A outra nova estrela criativa do meio campo, é Scott Parker, recentemente transferido do Charlton para o Chelsea. No eixo da defesa, a suspensão de Ferdinand abriu um lugar ao lado de Campbell. O principal candidato ao posto é o seguro Terry, do Chelsea, forte no jogo aéreo e nas antecipações. Outras soluções, Woodgate, do Newcaste, e, num regresso ao passado, um veterano, 33 anos, que atravessa um excelente momento de forma: Southgate. Por fim, cite-se o facto de, após a retirada de Shearer, faltar a esta Inglaterra um verdadeiro homem-golo. Possante, Heskey é o seu único ponta de lança clássico, daqueles de jogar em cunha entre os centrais, com nível de selecção, mas, em 38 jogos (26 a titular) apenas fez...5 golos. Na fase de apuramento do Euro-2004, Eriksson apenas o utilizou de inicio por duas vezes. No primeiro e no último jogo. Na Eslováquia e na Turquia, respectivamente, preferindo antes a dupla serpenteada Owen-Rooney. Uma opção que colide com a velha história do futebol inglês. A outra solução seria Bettie, mas dificilmente tirará o lugar a Heskey.

O 4X4X2 E AS GRANDES BATALHAS

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