“DOSSIER” ANDERLECHT: O renovado estilo belga

3 de Agosto de 2004
O PERFIL TÉCNICO E AS VÁRIAS OPÇÕES TÁCTICAS DO ONZE DE HUGO BRO0S.

Transportando a herança da época gloriosa do futebol belga dos anos 70/80, então profeta do chamado futebol realista de contra-ataque, o actual Anderlecht de Hugo Broos, apesar da reconquista do titulo nacional, poucos pontos de contacto tem com esse memorável passado. Apesar da distância, o seu onze, esquematizado em 4x4x2 ou 3x5x2, possui, no entanto, um aroma mais ofensivo, moldado por excelentes jogadores como Kompany, Baseggio e Dindane, o triângulo mágico do Anderlecht 2004/05.
Bruxelas, 4 de Maio 1983. Já passaram 21 anos e parece que foi ontem. Vercauteren, capitão do Anderlecht, e Humberto Coelho, capitão do Benfica, lado a lado pouco antes do inicio da primeira mão final da Taça UEFA 82/83, naquele que seria o último titulo europeu conquistado pelos belgas. Aquela sim, era uma grande equipa, treinada por Van Himst, estruturalmente de cariz defensivo, é certo, fiel á tradicional escola belga, esquematizada em 4x4x2 ou 4x5x1, mas com grandes jogadores, como o central Olsen, os médios Coeck, Vercauteen e Lozano, e os avançados Vandenbergh, Czerniatynski e Brylle. A vitória por 1-0 na Bélgica e o empate, 1-1, na Luz, garantiria o triunfo belga frente ao Benfica de Eriksson. Mais de duas décadas depois, os dois grandes emblemas históricos do futebol belga e português, voltam a encontrar-se (pelo meio também ficou os quartos-de-final da Taça dos Campeões em 88, eliminatória ganha pelos benfiquistas, 2-0 V. e 1-0 D.). É tempo de voltar a escrever mais uma página da grande história das competições europeias.
O futebol europeu mudou muito nos últimos 20 anos. Em todos os aspectos. Ao nível da velocidade, diferentes estilos e correlação de forças. Neste sentido, grandes nações futebolísticas do passado e suas respectivas equipas são hoje meras sombras do que foram. Nos anos 70/80, a Bélgica emergiu como um dos principais símbolos de inteligência técnico-táctica. Era o chamado futebol realista, sempre com pelo menos 8/9 jogadores atrás da linha da bola, mestre na defesa em linha, a fazer o fora de jogo, e no contra-ataque. No inicio dos anos 70, o Anderlecht e o futebol belga, como os de todas as outras nações do BENELUX, estavam a dar os primeiros passos no futebol profissional. Nesses tempos, o carismático presidente Constantin Van der Stock, um grande amante do futebol tecnicista, começou a lançar as bases para um grande Anderlecht. Naturalmente, as grandes equipas fazem-se com grandes jogadores e, assim, o clube de Bruxelas sempre procurou ter a nata dos futebolistas belgas, a começar por Paul Van Himst, o melhor jogador belga de todos os tempos. Quando o feiticeiro Raymond Goethals levou o clube violeta aos seus primeiros títulos europeus, pontificavam na equipa jogadores, para além de Van Himst, como Van der Elst, Dockx, Coek, Haan e o holandês Resenbrink. Mais tarde, já na década de 80, quando ganhou a Taça UEFA diante do Benfica, já brilhavam o guardião Muranon, o avançado Vandenbergh e os médios Lozano e Vercauteren. Todos eles fizeram do Anderlecht uma das maiores equipas europeias, local onde viriam a surgir outros símbolos do melhor futebol belga, como o mágico Enzo Scifo.
No presente, o estilo e a força competitiva do futebol belga mudou substancialmente em relação aos tempos de Van Himst ou de Vercauteren, como provam, nas competições europeias, as exibições menos brilhantes das principais equipas, o Brugge e o seu histórico grande embaixador, o Anderlecht, que tem hoje no banco um homem que vivera, no relvado, essa dourada realidade de outrora, como central de marcação: Hugo Broos. Em Bruxelas há três épocas, tentou impor um novo estilo, mais ofensivo, ao jogo do novo Anderlecht. A conquista da Liga Belga e as boas exibições (baseadas num futebol solto e com boa circulação de bola) na Liga dos Campeões da época passada confirmaram essa nova realidade. Assim, consciente desses claros progressos competitivos, baseado num trabalho de três anos, Bross manteve esta época o mesmo onze base, com um padrão de jogo já mecanizado, sem grandes dúvidas tácticas ou técnicas, ao qual apenas procura agora incutir algumas afinações de pormenor.

As duas faces do 4x4x2

A opção pelo 3x5x2 apenas vigorou, porém, enquanto a equipa participou na Liga dos Campeões. Após a sua eliminação, em Dezembro, o onze de Broos, no campeonato, regressou ao 4x4x2 com o qual iniciara a época e foi com ele que se baseou para a conquista do titulo, utilizando, preferencialmente, a variante 4x1x2x1x2 com losango, onde se destacou, na defesa a «4», a dupla de centrais Kompany-Tihinen, enquanto, a meio campo, o pilar recuado é o trinco Hasi, ficando, nas alas, Wilhelmsson aberto na direita, e Seol, um avançado centro adaptado ao flanco, á esquerda, com Baseggio no centro a organizar. Em alguns jogos, porém, Baseggio descaiu para a esquerda, ficando Hasi e Zetterberg ao centro. No ataque, Iachtchouk (titular face á lesão de Jestrovic) e Dindane. A outra variante utilizada por Broos, nos jogos fora contra adversários mais fortes, foi o 4x4x1x1, que, partindo, no papel de um aparente 4x3x1x2, procurava, sobretudo, numa postura mais de contenção, controlar o jogo a meio campo. Nesta dinâmica, mantêm-se a clássica defesa a «4» mas Baseggio fica mais recuado no apoio a Hasi, enquanto que, no ataque, Dindane é o único ponta de lança fixo, apoiado, no contra ataque, pelas subidas de Seol ou Wilhelmsson. Todas estes sistemas e variantes continuam, hoje, a ser as bases tácticas para o Anderlecht 2004/05, no qual, astuto, Bross teve como principal preocupação colmatar a principal lacuna verificada pela equipa na época passada: o flanco esquerdo, no qual faltou um ala com a mesma qualidade e profundidade de jogo como a de Wilhelmsson á direita. A primeira opção deveria ser Kolar, mas talvez receoso da pouca experiência do jovem checo (20 anos), Broos adaptaria ao flanco o coreano Seol, que, muito rápido, fez bem o lugar, só que, desta forma, o onze perdia um avançado mais perigoso no centro. Foi nesse sentido que contratou, esta época, o extremo Mpenza, muito veloz no drible em progressão (embora, por vezes, pouco clarividente a concluir as jogadas) e um flanqueador francês ex-Strasbourg capaz de fazer todo o corredor, desde lateral até médio-ala esquerdo, posto no qual irá, tudo indica, ser a primeira aposta de Broos.

AS MAIORES FIGURAS SECTOR POR SECTOR

Kompany, Baseggio e Dindane: O corte, a organização e a imaginação

Uma simples observação aos jogos do Anderlecht, um clube historicamente multinacional, muito antes da eclosão da Lei-Bosman, (desde os anos 80, adepto da contratação de jogadores africanos, sobretudo do Congo, antiga colónia belga), permite detectar vários talentos sedutores. Analisando sector por sector, emerge, desde logo, no eixo defensivo, um imponente defesa central (1,90m.) com apenas 18 anos, feito no clube: Kompany, grande promessa do novo futebol belga, que faz dupla com outro gigante, vindo do norte da Europa, o finlandês Tihinen. São ambos muito fortes no jogo aéreo, a típica dupla que quase prensa entre eles os avançados contrários, sobretudo se o adversário jogar só com um ponta de lança. A principal referência é, no entanto, Kompany. Apesar da altura, é veloz, tem um perfeito sentido posicional, e uma autoridade que o já faz parecer um veterano com ou sem a bola. Também poderá jogar, pela técnica e leitura de jogo, como trinco, médio defensivo, mas o seu verdadeiro lugar é a orientar o centro da defesa, onde será, em breve, uma firme referência da selecção belga. Na forja, para ocupar o flanco direito, lutando com Zewlakow, está, porém, outra promessa, com apenas 16 anos (faz 17 em Setembro) Vanden Borre, que já fez sete jogos a época passada.

Meio campo: O farol Hasi

A meio campo, o farol da equipa, coordenador da primeira linha de cobertura defensiva a fechar espaços e coordenar posições, é o trinco albanês Hasi que, graças á sua eficácia defensiva e clarividência no primeira passe na saída para o contra-atque, retirou a titularidade ao experiente Vanderhaeghe, que aos 34 ano sentiu o peso da idade e não suporta ritmos de jogo mais altos. Á frente de Hasi, como organizador de jogo e, nas subidas atacantes, o principal apoio da dupla avançada, o cérebro Bassegio, um excelente jogador com grande visão de jogo, potente fisicamente (1,84m e 82Kg.) e tecnicamente requintado, a quem só faltará maior velocidade para se impor como grande figura do futebol europeu. Pode alinhar sobre o centro, como clássico médio playmaker, ou atrás dos avançados, adquirindo maior vocação ofensiva. Em 4x4x2, joga muitas vezes descaído sobre a esquerda, embora o seu melhor pé seja o direito. Em qualquer posição, revela sempre grande personalidade. Nas alas, a grande referência é o sueco Wilhelmsson, grande revelação da época passada, confirmada no Euro-2004, um médio ala direito que pela sua velocidade e profundidade ofensiva de jogo se transforma, nas manobras atacantes, num verdadeiro extremo.

Ataque: Dindane, Jestrovic e Seol

No ataque, um jogador empolgante vindo da Costa do Mafim: Aruna Dindane, rápido e tecnicamente imaginativo, muitas vezes entre o futebol e o espectáculo puro. Esquivo e driblador, pode jogar no centro como nas alas. Embora a sua capacidade de desmarcação seja excelente, falha ainda muitos golos isolado frente ao guarda redes. Precisa, por isso, de lapidar o último toque, o último passe e o último...remate A seu lado, o coreano Seol, o ucraniano Iachtchouk ou o sérvio Jestrovic que poderá ser como que o grande reforço ofensivo para a esta época, após uma temporada na qual sofreu uma grave lesão que o afastou dos relvados seis meses. Quando regressou, na fase final, fez 6 golos em 7 jogos. Eleito o melhor estrangeiro da Liga belga em 2003 (20 golos em 23 jogos), é um nº9 possante, forte de cabeça e tecnicamente hábil, sabendo, também, jogar para a equipa em triangulações. O coreano Seol é um excelente avançado centro, rematador, combativo, forte (1,84m. e 73kg.) e rápido, é muito melhor no centro que encostado a um flanco. Iachtchouk, feito no Anderlecht, pouco jogara nas últimas épocas. Aproveitou bem (9 golos em 15 jogos) a ausência Jestrovic e a saída de Mornar em Dezembro. Perante o actual cenário, a melhor dupla seria Dindane-Seol.

ESQUEMAS TÁCTICOS: DOIS SISTEMAS POSSÍVEIS

Sistema 1. 4x4x2 (4x1x2x1x2 com losango)

É o sistema preferencial de Broos, partindo da clássica linha de quatro defesas, com um trinco, Hasi, e dois médios alas com profundidade de jogo para ir á linha, sobretudo Wilhelmsson. Na esquerda, Seol é uma adaptação, pois é por definição um nº9, podendo esta época a principal opção para o lugar ser Ehret. Atrás dos dois avançados, um playmaker Baseggio com tendência em cair para a esquerda. É no centro, porém, que o nº10 belga de origem italiana solta o seu melhor futebol.

Sistema 2. 3x5x2 (variante 3x2x3x2)

Sistema utilizado durante a primera metade da época transacta, explorando sobretudo o jogo pelos flancos. Nesta dinâmica, Baseggio surge á esquerda com tendência para flectir e ocupar a zona central na distribuição ofensiva de jogo, onde se destacam sempre dois avançados, sendo titular indiscutivel apenas Dindane, em cunha, ou deambulando pelos flancos em busca de espaços de penetração. Como trinco, o pendular albanês Hasi.
Vincent Kompany, defesa central, um grande patrão para reger as manobras defensivas, revelação do Anderlecht e da selecção da Bélgica, onde se assume como um digno herdeiro da defensiva escola belga. Fixem o seu nome e sigam-no. Tem apenas 18 anos, mas já parece um veterano na forma personalizada de jogar.

A solução 3x5x2

Partindo para uma análise ao Anderlecht de Hugo Bross, tendo em conta o visto na época passada e inicio da presente, emerge desde logo, tacticamente, a possibilidade do onze se esquematizar em dois sistemas, ambos utilizados da mesma forma fluída: o 4x4x2, o seu esquema de referência, e o 3x5x2, no qual também já jogou muitas vezes. No fundo, observando com atenção os momentos dessas alterações tácticas, verifaca-se que tal sucedeu, sobretudo, quando Bross teve problemas com os seus defesas-laterais, por lesão ou quebra de forma, pelo que, perante esse facto, optou por, jogando com a defesa a «3», explorar a enorme velocidade e profundidade de jogo dos seus médios-alas, como Wilhelmsson, Lovre e Kolar. Esta agilidade táctica de Bross focou visível em vários jogos decisivos da Liga dos Campeões, como por exemplo na recepção ao Lyon, onde era obrigatório ganhar. Nessa situação, optou então pelo 3x5x2, com o trio defensivo Tihinen-Kompany-Deschacht, laterais a subir, Zewlakow (á direita)-Kolar (á esquerda), dois médios centrais, Hasi (trinco) e Baseggio (playmaker), um homem nas costas dos avançados (Zetterberg) e dois avançados (Wilhemsson, aberto no flanco) e Mornar (em cunha). Deste onze, apenas Mornar já não faz parte da equipa, mas o mesmo sistema pode ser utilizado com a entrada no seu lugar do fabuloso Dindane. Esta foi, porém, das poucas vezes em que Bross conciliou a meio campo os dois organizadores do onze, Baseggio e Zetterberg, uma coexistência difícil pois cruzam-se no mesmo espaço central, pelo que, no final, Bross optou, naturalmente, por apostar no melhor playmaker do actual futebol belga, Bassegio.

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