Quando, em 2001, na Etiópia, uma sedutor onze angolano orientada por um homem calmo, pouco eufórico mesmo na hora da vitória, conquistou a Taça de Africa sub-20, muitos sentiram que algo poderia estar a mudar no status do futebol africano. Sabiamente, Luís Oliveira Gonçalves, coroava o seu trabalho de fundo com as selecções jovens angolanas, desde os sub-16 e Sub-18 até ao Mundial Sub-20, onde, meses depois, atingiria os oitavos-de-final. Nesse onze jogavam já três jovens truculentos palancas com a magia africana nas pontas das botas: Mantorras, Gilberto e Zé Kalanga. O futuro do futebol angolano acabava de nascer. Quatro anos depois eles estavam juntos, em Kigali, num revoltoso relvado do Ruanda, para festejar o histórico apuramento de Angola para a fase final de um Mundial sénior. No banco, o mesmo homem sereno que moldara o seu crescimento. Após orientar o onze sub-23, assumira o cargo de seleccionador nacional em finais de 2003, numa altura em que todo este sonho era mera utopia.
Primeiro passo: A vitória sobre o Tchad

Parecem distantes esses tempos, mas convêm lembrar que Angola esteve muito perto de nem chegar a disputar esta fase de apuramento para o Mundial, pois antes disputou-se uma pré-qualificação de apenas dois jogos (casa e fora). Angola defrontou o Tchad e perdeu primeiro jogo, fora, por 1-3. Tudo parecia perdido. Foi então que as autoridades angolanas decidiram afastar o treinador brasileiro Ismael Kurtz e apostaram no carisma de Oliveira Gonçalves para construir o milagre. Assim foi. Resgatou outros palaquinhas das suas selecções jovens, como Loco, Lama e Mendonça, e partiu sem medo. No Cidadela, ganharam o segundo jogo, por 2-0, deram a volta ao resultado e entraram no grupo final de apuramento quase sem ninguém reparar. Por essa altura, a Nigéria parecia imbatível. Não foi. De um lado estava um dos melhores jogadores do mundo, o fabuloso Okocha. Do outro um veterano jogador da II Divisão portuguesa, Figueiredo. Quem resolveria o jogo, com um livre a régua e compasso, no inferno nigeriano, seria, porém, o anónimo jogador dos relvados lusos. No futebol, afinal, o impossível era, apenas um pouco mais difícil de se conseguir…
Como joga o 4x4x2 de Angola

Tacticamente, Luís Oliveira Gonçalves é um treinador fiel ao clássico 4x4x2, liderado, em campo, pela visão de jogo de Figueiredo e, sobretudo, pelo carácter de Akwá. Mais do que um ponta de lança, ele é um autêntico Deus do futebol para todos os adeptos angolanos, numa devoção que ultrapassa, até, a admiração pelo lutador Mantorras. Partindo de uma defesa sólida e muito mecanizada, saída do bloco do ASA, tricampeão angolano, o onze procura manter sempre o seu quarteto defensivo completo. Nada de aventuras de laterais a subir. Os caminhos para a baliza de João Ricardo têm sempre de estar bem fechados. Para isso, conta no eixo com uma sólida dupla de centrais, composta por Jamba e Kali ou Lebo-Lebo. Embora sem grande jogo de cintura, revelam perfeito sentido posicional para o corte e antecipação. Os laterais, Jacinto (ou Loco), à direita, e Asha (o elemento mais técnico do sector), à esquerda, preocupam-se primeiro a defender, subindo, depois, em apoio, conduzindo a bola no inicio de construção da fase atacante.
Os construtores e os mágicos

No meio campo, à frente da defesa, dois médios recuperadores. André, trinco, mais de contenção, rouba bolas e, embora jogando quase sempre curto, serve o outro médio centro, um ou dois passos mais adiantado, e Figueiredo, o volante de construção que, à medida que sobe no terreno, se torna no verdadeiro playmaker do onze. Ele é a grande referência para a circulação da bola, que tem sempre dois alas bem encostados aos flancos. Na esquerda, está o virtuoso Gilberto (a estrela da equipa), criando perigo com os seus dribles desconcertantes e bruscas mudanças de velocidade. Á direita, Luís Oliveira Gonçalves aposta numa permuta de posições que incute dinâmica ao seu 4x4x2, baralhando as marcações adversárias, pois, nessa movimentação, Mendonça, que parte encostado à faixa, troca muitas vezes de posição com Flávio, de início colocado como segundo avançado atrás do ponta de lança fixo Akwá. Como ambos, Flávio e Mendonça, jogam nas suas costas, muitas vezes o sistema mais parece um 4x2x3x1 do que um 4x4x2, design que adquire na conclusão da fase ofensiva, onde também surgem, quase sempre no segundo tempo, dois vagabundos revolucionários: Mantorras, capaz de, mesmo em poucos minutos, virar o curso de um jogo, e (fixem este nome!), um pequeno feiticeiro da bola que, furando por todo lado, em velocidade, drible, remate e cruzamento, vira as defesas adversárias de pernas para o ar. Seu nome: Zé Kalanga, a imagem perfeita da magia dos palancas.
Os palancas ao «raio x»:
JOÃO PEREIRA

Posição: Guarda redes Clube: Sem clube Idade: 35 anos Jogos: 10 (900 minutos) Sem defesas espectaculares, muito sóbrio, experiente a orientar a defesa e seguro entre os postes, transmite grande tranquilidade à equipa. Em Portugal, alinhou no Marrazes (92/93), Ac.Viseu (de 93 a 98), Salgueiros (de 98 a 2001) e Moreirense (de 2001 a 2004). Esta época, sem clube, limita-se a treinar no Portomosense…
JACINTO

Posição: Lateral Direito Clube: ASA Idade: 27 anos Jogos: 7 (630 minutos) Seguro a defender, sobe com muita oportunidade no apoio aos médios procurando tabelar ou servir o médio ala. Fecha muito bem a faixa e faz todo o corredor, embora quase sem procurar movimentos interiores, preferindo antes manter a disciplina posicional no flanco.
KALI

Posição: Defesa central Clube: Barreirense (II Divisão B) Idade: 26 anos Jogos: 9 (810 minutos) Um central sólido, atento no corte e sem receio das bolas divididas. Domina muito bem os timings de marcação e corte dentro e à entrada da área. Na Nigéria não deixou respirar Kanu. Após quatro épocas no Santa Clara, está de regresso ao Barreirense, mas um controle anti-doping positivo afasta-o, neste momento, da competição
LEBO-LEBO

Posição: Defesa central Clube: Sagrada Esperança Idade: 28 anos Jogos: 3 (270 minutos) Alto e esguio, é, quase sempre, o último homem da linha defensiva, muito atento ás dobras. Intransponível no jogo aéreo, tem um perfeito sentido posicional. Fisicamente algo inestético, com o cabelo todo branco, está, porém, sempre no caminho da bola para o corte, nunca deixando o adversário respirar. Entrou na equipa após o impedimento de Kali.
YAMBA ASHA

Posição: Lateral-esquerdo Clube: ASA (Angola) Idade: 27 anos Jogos: 12 (1075 minutos) O elemento mais talentoso do sector defensivo. Tecnicamente dotado, corta bem e evidencia excelente toque de bola. Gosta de jogar curto, procurando tabelas para subir no terreno, nas costas de Gilberto. Um jogador que poderia, facilmente, adaptar-se a uma equipa média-alta do futebol europeu. Acusou positivo num controlo anti-doping e, neste momento, aguarda por saber o definitivo tempo de suspensão.
JAMBA

Posição: Defesa-central Clube: ASA (Angola) Idade: 29 anos Jogos: 10 (900 minutos) Marca em cima ou mais à zona, lê bem o jogo e surge para interceptar as linhas de passe. Combina muito bem com Lebo-Lebo, com quem já joga de olhos fechados. Muito experiente, sempre sereno, antecipa-se aos adversários, desarma bem e sabe iniciar a saída de bola em toques curtos,
ANDRÉ MACANGA

Posição: Médio defensivo - trinco Clube: Kuwait Sporting Clube (Kuwait) Idade: 27 anos Jogos: 11 (990 minutos) O trinco da equipa. O pêndulo que marca o ritmo à frente da defesa. Corta e executa o primeiro passe na saída de bola para o contra-ataque. Embora jogando sempre curto é crucial para a consistência colectiva do jogo. Em Portugal, entre 98 e 2004 alinhou em 6 clubes diferentes: Vilanovense, Salgueiros, Alverca, Guimarães, Académica e Boavista. Rumou este ano ao Kuwait após um ano na Turquia, no Gaziantespor.
FIGUEIREDO

Posição: Médio centro Clube: Varzim (II Liga) Idade: 32 anos Jogos: 10 (678minutos) Golos: 1 O organizador de jogo da equipa, um autêntico playmaker que parte de posições recuadas para funcionar como referência na circulação de bola. Exímio a marcar livres, com grande precisão no passe, joga e faz jogar. Em Portugal, jogou oito épocas no Santa Clara (96 a 2004). A época passada passou pelo Dragões Sandinenses e Lusitânia dos Açores (ambos na II Divisão B)
MENDONÇA

Posição: Ala-direito Clube: Varzim (II Liga) Idade: 23 anos Jogos: 6 (378 minutos) Joga por toda a frente de ataque. Parte do flanco direito, mas mais que dar profundidade de jogo pelo flanco, procura antes movimentos interiores, onde tenta o remate ou espaços para triangulações na entrada da área adversária. Está na sua sétima consecutiva no Varzim, tirando um empréstimo de meia época ao Chaves, em 2002/03.
GILBERTO

Posição: Ala-extremo esquerdo Clube: Al Ahly (Egipto) Idade: 25 anos Jogos: 11 (914 minutos) Extremo esquerdo ou médio ala, rápido, driblador, felino no arranque, e esquivo com uma capacidade de improvisação impressionante com o seu mágico pé canhoto, com a qual executa também fortes remates. Foi a transferência mais cara de sempre no futebol angolano, do Petro Luanda para o Al Ahly do Egipto.
FREDDY

Posição: Médio Clube: Moreirense Idade: 27 anos Jogos: 7 (426 minutos) Golos: 1 Sempre em movimento, é o tipo de jogador que abala o jogo sempre que entra. O seu melhor lugar é descaído sobre a direita, mas também pode ocupar zonas mais centrais. Antes do Moreirense, em Portugal, jogou no Estoril (98-2001) e U.Leiria (2001-2005).
FLÁVIO

Posição: Avançado Clube: Al Ahly (Egipto) Idade: 27 anos Jogos: 9 (579 minutos) Golos: 2 Avançado centro de origem, costuma jogar nas costas de Akwá, quase como um segundo avançado, descaindo muitas vezes sobre a direita. Tecnicamente evoluído, com grande visão de jogo, centra e passa com precisão. Lutador, também recua em apoio ao meio campo. Um excelente jogador que rumou, há dois anos, do Petro para o Al Ahly egípcio.
AKWÁ

Posição: Ponta de Lança Clube: Qatar Sport Club (Qatar) Idade: 28 anos Jogos: 8 (708 minutos) Golos: 5 O ponta de lança incontestável. Já não tem a mesma velocidade de anos atrás, mas, muito inteligente a desmarcar-se, surgindo sempre no sítio certo para finalizar, de cabeça ou com o seu pé direito. Sabe jogar para a equipa, combina muito bem com Flávio e na área raramente falha. Em 58 jogos pela selecção já marcou 29 golos. O mais importante, no Ruanda, claro…
MANTORRAS

Posição: Ponta de Lança Clube: Benfica Idade: 23 anos Jogos: 3 (120 minutos) Golos: 1 Custa ver como um jogador destes parece estar condenado a só jogar quinze/vinte minutos por jogo. Quando entra, porém, ainda tem tempo para soltar a sua magia, com fintas e simulações como só ele sabe fazer, confundindo as marcações. Nas bancadas o publico delira e o futebol angolano como que renasce.
MAURITO

Posição: Avançado Clube: Al Garrafe (Qatar) Idade: 23 anos Jogos: 8 (375 minutos) Fisicamente muito forte, pode jogar na direita ou mais sobre o centro, onde o seu poderio físico marca a diferença. Ganha lances de choque, transporta bolas para a frente e remata. É um pouco lento, mas arrasta toda a equipa consigo. Em Portugal, alinhou no U.Leiria em 2003/04. A época passada jogou no Al-Jazirah dos EAU.
ZÉ KALANGA
Posição: Avançado Clube: Petro (Angola) Idade: 23 anos Jogos: 8 (218 minutos) Golos: 1 Africa pura, no drible, nas arrancadas e na forma como parte para cima dos adversários. Faz da bola o que quer, dominando-a em corrida, executando em velocidade sem perder o seu controlo. Pode jogar no centro ou em ambos os flancos, onde revela uma excelente capacidade de cruzamento. Nunca foi titular, mas sempre que entrou colocou o jogo em alvoroço. Faria, acreditem, furor na Europa…
ARSÉNIO LOVE
Posição: Avançado Clube: ASA (Angola) Idade: 27 anos Jogos: 7 (234 minutos) Faz da experiência uma arte. Move-se na frente de ataque com criatividade e inteligência. Domina a bola, lê bem o jogo, procura triangulações ou espaços para penetrar na área adversária. Um avançado muito credenciado em Angola.
O PERFIL E O ESTILO DA SELECÇÃO DE ANGOLA: JOGADORES, TREINADOR E TÁCTICAS.