Depois de um inicio de época marcado por várias hesitações tácticas, sob orientação de Artur Jorge, o CSKA é hoje uma equipa muito mais confiante, na luta pela reconquista do titulo russo em praticando um jogo aberto, sem grandes amarras defensivas, capaz de avançar na Liga dos Campeões. No comando desta transformação, o carismático Valery Gazzaev, o técnico que os guiara ao titulo em 2003 e que regressou ao clube em Julho último, após uma fracassada aventura na selecção russa. Em relação á era de Artur Jorge, a equipa é praticamente a mesma, residindo a única diferença significativa na contratação do ponta de lança brasileiro Wagner Love. A mudança registou-se na atitude competitiva, agora mais atacante e menos rígida tacticamente em termos de marcação a meio campo. No plano do sistema táctico, para além do clássico 4x4x2 e suas variantes, o onze também passou a dispor da opção 3x5x2, o modelo de referência de Gazzaev, sendo de realçar a capacidade de, durante o jogo, o onze conseguir alterar o sistema, passando de 4x4x2 para esquemas de três defesas, ou vice versa, sem perder, nessa fase de transformação, consistência táctica colectiva. A equipa está muito rotinada nesta alteração e joga nos dois sistemas com igual mecanização.
As várias opções tácticas

Em termos de sistema táctico, o CSKA pode esquematizar-se de três formas:
Opção 1: 3x5x2. É o sistema preferido de Gazzaev. Partindo, no papel em 3x4x1x2, explana-se, depois, em campo, numa espécie de 3x3x2x2 muito ofensivo, fruto sobretudo de jogar só com um trinco e dois médios ofensivos. Assim, neste sistema (utilizado, por exemplo, em Glasgow, na segunda mão frente ao Rangers e no último jogo da Liga russa, em casa, com o Spartak), o design táctico do onze parte da defesa a «3», com um líbero (Ignashevich) e dois stoppers de marcação (Semberas e A.Berezoutski). Á sua frente, o médio defensivo Rahimic, inicia a saída de bola para o contra ataque no qual os principais dinamizadores moram nos flancos, primeiro com os laterais ofensivos Odiah, á direita, e Zhirkov, depois, com o ala-flanqueador direito Gusev, que ora dá profundidade ao jogo pela sua faixa, ora combina com Odiah, flectindo para abrir espaços de penetração ao nigeriano. No centro ou descaíndo para a esquerda, o playmaker checo Jarosik, no aos pontas de lança Olic-Wagner Love, em constante movimento, deambulando ou furando pelos flancos, sendo o brasileiro o elemento mais central.
Opção 2: 4x4x2, versão 4x1x3x2. É a segunda alternativa de Gazzaev, utilizada , de inicio, em casa, frente ao Glasgow Rangers, embora no segundo tempo tenha evoluído para 3x5x2. Parte da clássica defesa a «4», com os laterais menos subidos, sobretudo V.Berezoutski, á esquerda, enquanto que na direita, Odiah continua mais empreendedor, embora mais atento ás suas costas. Jogando na variante 4x1x3x2, volta a apostar só num trinco (Rahimic). Gusev mantêm-se aberto na direita, Jarosik organiza no meio e na esquerda, pode surgir Zhirkov ou o experiente Semak. Todos são muito fortes no transporte da bola. Na frente, mantêm-se os mesmos movimentos da dupla atacante. Ou seja, embora, no papel, o 3x5x2 e o 4x4x2, sejam, no papel, dois sistemas bastantes diferentes, em campo, as diferenças, tendo em conta a dinâmica táctica típica deste CSKA, residem quase só na composição e distribuição defensiva, pelo que é muito fácil o onze passar, durante o jogo, num abrir e fechar de olhos, de um sistema para o outro.
Opção 3: 3x5x2 ou 4x4x2 com dois trincos. É a variante defensiva dos dois sistemas anteriores. Respeitando a distribuição inicial, baseia-se na troca de um médio ala Gusev por outro volante de contenção. Nesta opção, surgiria, assim, uma dupla de trincos Rahimic e Aldonin, descaíndo este mais para a direita. As subidas pelas faixas ficam só a cargo dos laterais, e Jarosik encosta-se mais á esquerda.
Jarosik e Wagner Love:
O sistema e a táctica

Decompondo peça por peça, jogador por jogador, o onze base do CSKA, descobrimos uma equipa tecnicamente dotada, que sabe tratar bem a bola e com boa precisão de passe.
Na defesa, a «3» ou com a clássica linha de «4», Ignashevich é o central com maior personalidade, internacional russo, seguro no corte, tranquilo e excelente leitura de jogo. A seu lado, jogando com a tradicional dupla de centrais, surge V.Berezoutski, mais de marcação. Se jogar com três defesas, o mais natural é, mantendo-se Ignashevich a libero, surgir Semberas sobre a direita, enquanto que sobre a esquerda, sai V.Berezoutski, surgindo A.Berezoutski, lateral-esquerdo clássico em 4x4x2, transformado em central pela esquerda numa defesa a «3», fruto da sua segurança defensiva e, sobretudo, melhor pé esquerdo. Assim, o trio provável, jogando só com três defesas, é Semberas-Ignashevich-A.Berezoutski. Sempre serenos, com excelente sentido posicional, cobrindo linhas de passe, todos muito altos, fortes no jogo aéreo mas sem grande poder de impulsão e jogo de cintura perante triangulações rápidas. Se não adivinharem onde a bola vai cair, não possuem velocidade nem agilidade para recuperarem.
Um ponto fundamental na dinâmica táctica do 3x5x2, reside na categoria dos laterais: fortes e rápidos a atacar, como, depois, a recuperar quando o onze perde a bola. Neste CSKA, destaca-se, nessa tarefa, o lateral direito nigeriano Odiah. Criativo, rápido, muito ofensivo, por vezes meio desengonçado a driblar, está sempre á procura da bola. Joga com alegria, mas muitas vezes sem grande rigor táctico. Faz lembrar, no estilo, o ex-sportinguista César Prates.
Na esquerda, quando joga em 3x5x2, buscando um lateral ofensivo, Gazzaev prefere, face ao lateral de raiz A.Berezoutski ser algo lento e essencialmente defensivo, adaptar um médio ala de origem a essa posição, Zhirkov, o habitual titular, ou Semak, que também pode jogar mais pelo centro. Muito astuto, Gazzaev sabe que é no domínio das manobras defesa-ataque dos laterais que mora grande parte do sucesso dos sistemas de três defesas, residindo o outro posto-chave, em termos defensivos, na inteligência de passe e capacidade de dobrar ou jogar sem bola, dos médios de contenção, lugar para onde o CSKA possui dos volantes muito regulares, daqueles cujas jogadas nunca aparecem nos resumos, mas sem os quais nada funciona. Nessa tarefa, para além de Aldonin, muito forte na antecipação (esteve com a Russia no Euro-2004), destaca-se, sobretudo devido ao facto de jogar preferencialmente só com um trinco, o pendular Rahimic, habitual titular. Cobre, intercepta linhas de passe, inicia a saída de bola, e, embora tenha um futebol muito curto, também sabe distribuir jogo para os flancos.
A acção ofensiva

Como principais transportador de bola para o ataque, destaca-se o ala direito Gusev, um jogador de grande carácter e inteligência de jogo colectivo. Parece algo fora de forma, tendo com Gazzaev mais tendência a flectir no terreno, permitindo a subidas de Odiah. Neste sentido, o verdadeiro momento em que o FC Porto deve ficar preocupado será quando a bola vier ter aos pés do criativo esquerdino checo Jarosik. É um jogador de grande nível. Elegante na condução da bola, técnica e visão de jogo, precisão de passe e muito perigoso quando surge perto ou dentro da área. Parece jogar em bicos de pés, sem fazer muito ruído, mas as suas assistências são quase sempre mortais e quando remata a bola parece telecomandada á distância.
Na frente, três nomes a fixar: Olic, Wagner Love e Kirichenko, três estilos muito diferentes. Jogando sempre, seja em 3x5x2 como em 4x4x2, com dois avançados, Gazzaev procura conciliar a técnica com a força. Foi com essa intenção que foi contratado, em Julho, o brasileiro Wagner Love, de apenas 20 anos,
É um avançado muito interessante, tecnicista como qualquer sul-americano que se preze, sabe recuar para fugir ás marcações, progredir com a bola dominada, embora sem grande poder de drible, e rematar em corrida, após criar um espaço de penetração. Por vezes parece adornar demasiado a jogada, mas, para brasileiro, não sendo muito rápido, é muito lutador e sabe jogar para o colectivo. A seu lado, Kirichenko, o típico avançado que gosta de recuar para entrar embalado de trás, sobretudo pelas faixas, e, sempre com a baliza nos olhos, o pujante croata Olic, um avançado que é proibido perder de vista. Mescla força, técnica e um remate potente, furando em força, ganhando no choque, nunca dá uma bola por perdida.
OS DOIS SISTEMAS DO CSKA
1. 3x5x2 (variante: 3x3x2x2)

É o sistema tipo de Gazzaev. Um 3x5x2 muito ofensivo, com os laterais sempre adiantados, apenas um trinco e dois médios ofensivos, na zona de criação, atrás dos pontas de lança.
2. 4x4x2 (variante 4x1x3x2)

Segunda opção de Gazaev. Defesa a «4», duas linhas a meio campo, um trinco e três médios mais ofensivos. Na variante defensiva, retira um ala e insere mais um trinco (Aldinin), jogando num 4x4x2 estendido em 4x2x2x2.