"DOSSIER" MÓNACO: Os príncipes de Deschamps

23 de Maio de 2004
No rigor táctico, tem o perfil das pragmáticas equipas italianas. Na capacidade de jogar pelos flancos, em toques curtos, tem a versatilidade do velho futebol latino. No plano técnico-táctico, o aspecto mais interessante deste Mónaco, reside, porém, na sua capacidade para controlar o meio campo sem, no entanto, dispor de um clássico médio centro nº10 organizador de jogo. Uma equipa atraente onde coexistem extremos, recuperadores de bola e pontas de lança clássicos convertidos à polivalência do futebol moderno, expresso num dinâmico 4x4x2 que, com a classe de Rothen e Guily, faz a bola circular pelo campo todo.
Pode uma equipa controlar um jogo partindo dos flancos e sem dispor de um tradicional médio centro organizador? Congeminada por Didier Deschamps, um treinador francês doutorado em Itália, este Mónaco 2003/04 é um dos projectos, táctica e tecnicamente, mais interessantes desta temporada. O segredo para este feito, mora na inteligência de movimentos e sublime leitura de jogo dos seus alas flanqueadores: Giuly, á direita, e Rothen, á esquerda. Ora abrem o jogo a toda a largura do terreno sobre as faixas, procurando a linha com verdadeiros extremos, ora flectem no terreno, dependendo a sua acção e missão da zona do campo é que ocupam. Na fase atacante, buscam a linha para cruzar ou flectem no centro, em diagonais, para triangular com os pontas-de-lança ou descobrir espaços de remate. Quando recuados, na fase de construção, surgem mais sobre o centro, para, ainda no seu meio campo, pedir a bola à dupla de trincos e iniciar, de cabeça levantada, a saída para o ataque, fazendo o primeiro passe ou transportando-a em velocidade. Neste contexto, o caso de Rothen é exemplar. Assim, um dos seus movimentos mais executados, quando a bola está nos volantes Zikos-Bernardi, é flectir, aproximar-se deles, pedir a bola, controlá-la e começar a distribuir jogo. Quando, noutras fases, ocupa, sobre o centro, posições mais avançadas, busca muitas vezes rematar dessa chamada segunda linha atacante, atrás dos avançados. Um dos pontos mais fortes do seu futebol reside, porém, no drible simulado e posterior notável precisão de cruzamento á linha.

A aura de Giuly e os volantes Bernardi-Zikos

Descaindo sobre a direita, Giuly possui a mesma capacidade de abrir o jogo nos flancos, mas, muito veloz e aguerrido, é um jogador com maior peso, digamos, espiritual, no resto do onze. Com bruscas mudanças de velocidade, rasgando pela faixa destra ou movimentando-se nas costas do ponta de lança, rasgando espaços de penetração, é quase impossível de marcar individualmente. Não possui a mesma capacidade de recuar e pedir a bola para organizar jogo como Rothen, mas, por outro lado, é capaz de sozinho arrastar todo o onze para o ataque. Ambos, porém, sabem controlar, com mestria, o ritmo de jogo, ora aumentando-o, ora tornando-o mais lento. Embora não sejam muito produtivos defensivamente, a facilidade com que fazem diagonais ou verticalizam o jogo, é das mais notáveis do actual futebol europeu. No jogo de compensações do meio campo, enquanto Giuly e Rothan desequilibram, os volantes Zikos e Bernardi, dupla de médios de contenção, destacam-se como pedras-chave nas tarefas de cobertura defensiva e recuperação de bola. Plantados á frente da defesa, jogando curto, simples e quase sempre ao segundo-terceiro toque, são as comportas da primeira linha de segurança defensiva. Outras soluções na dinâmica do meio campo, jogando também nos mesmos espaços recuados, são Cissé, um gigante do Mali com tarefas quase exclusivas de marcação, muito forte na pressão sobre a bola, e o inteligente checo Plasil, que pode jogar como ala direito ou volante central, mas sempre com maior profundidade ofensiva do que Cissé, mais vocacionado para a cobertura defensiva.

MORIENTES-PRSO E RODRIGUEZ-SQUILLACI: O fulgor dos pontas de lança e a segurança defensiva

Na frente de ataque do 4x4x2, Deschamps alinha sempre uma forte dupla de pontas de lança. Para a sua constituição dispõe de quatro opções: Morientes, Prso, Nonda e Abedayor. Depois da lesão, no inicio da época, do possante Nonda, apontado como grande reforço, a dupla mais utilizada é Prso-Morientes. Em termos de estilo, são todos jogadores essencialmente físicos, pouco móveis para jogarem juntos, mas, sob as ordens de Deschamps cultivam hoje uma agilidade posicional surpreendente, deambulando nas imediações da área. Morientes, por exemplo, cresceu muito como jogador no Mónaco. Em 4x4x2, é obrigado a recuar para trocar a bola, em vez de permanecer sempre na frente, como fazia no 4x2x3x1 do Real Madrid. No Mónaco, conserva o mesmo instinto goleador, exímio cabeceador, e provou aqueles que o reduziam apenas a um jogador de área, que também sabe jogar fora dela. Prso, embora tecnicamente limitado, é muito forte no choque e nas chamadas segundas bolas, ganha muitos ressaltos em zonas de perigo e é mortífero na finalização. Quando Rothen flecte, também sabe descair para o flanco esquerdo, arrastando os seus marcadores. Todos anseiam, porém, agora que está recuperado da lesão, pelo regresso de Nonda á forma que o consagrou. Possante, tecnicamente dotado e com potente remate, o nº9 congolês é uma avançado centro que assusta qualquer defesa. Adebayor é África pura. Meio desengoçado, consegue, sempre que parece ir perder a bola, inventar sempre mais um drible e surgir com perigo na área. Bom no jogo aéreo, movimenta-se muito bem a fugir ás marcações.

A resistência física e o rigor defensivo

Fisicamente muito bem preparada por um homem que Deschamps trouxe de Itália, com quem já trabalhara na Juventus, Antonio Pintus, a fase mais visível do perfil “italiano” deste Mónaco reside, porém, no seu rigor defensivo, expresso desde logo no perfil essencialmente de marcação da sua dupla de trincos e na posição do seu quarteto defensivo, sempre completo e com grande disciplina posicional, onde se destacam dois poderosos centrais, Squilacci, um craque, Rodriguez, muito seguro, ou Givet, que também pode jogar a lateral. Jogam todos simples, fortes a ler o jogo e no corte, dominando um dos princípios bases de um bom central: nunca tentar uma antecipação se, com isso, perderem o controle da sua zona posicional. Nas laterais, dois jogadores que fazem todo o corredor. Na esquerda, uma grande promessa do futebol francês, Evra, 23 nos, excelente a defender e a atacar, muito culto tacticamente e com perfeito domínio da bola. Será, sem dúvida, o futuro titular da selecção após a retirada de Lizarazu. Na direita, Ibarra (que também pode se utilizado como médio direito, surgindo, nesse caso, Givet a lateral, como sucedeu no jogo de Chelesa) mantêm os mesmos traços que revelou no FC Porto. Aguerrido a atacar, velocidade e técnica, mas com grandes debilidades tácticas a defender. Lê bem o jogo, mas muitas vezes é traído pela sua impetuosidade.

OBSERVANDO AS LIÇÕES DA ELIMINATÓRIA COM O CHELSEA

A arte de Rothen, o cérebro de Bernardi, os «zigzags» de Giuly e os golos de Morientes

A astuta capacidade deste Mónaco em basear a organização do seu circuito preferencial da organização de jogo na inteligência de movimentos dos seus flanqueadores, (partindo quase sempre da faixa esquerda) resulta essencialmente da falta de um médio centro clássico. Tal lacuna têm, no entanto, implicações no domínio da zona central do meio campo, espaço onde, por definição, se controla um jogo e mora o jogador espécie de placa-giratória no qual todo o onze se baseia para fazer circular a bola de flanco para flanco. Entre os trincos-volantes, o argentino Bernardi é quem sobe mais, mas, embora jogue de cabeça levantada e possua boa precisão de passe curto e longo, não é distribuidor de jogo clássico. Neste sentido, os dois jogos com o Chelsea, na meia-final, foram interessantes para o estudo deste atraente onze de Deschamps. Assim, no primeiro jogo, actuando no seu clássico 4x2x3x1, confirmou, claramente, que o elemento-chave na saída de bola para o contra-ataque, pegando nas rédeas do jogo, é o ala-extremo esquerdo Rothen. Mesmo quando a bola é recuperada pela dupla de trincos, ele flecte no terreno e aproxima-se de Bernardi, o maior ladrão de bolas da corte, para que este a entrega num toque curto. Quando ocupa essa zona central, Rothen não é, no entanto, o mesmo jogador das alas. Nessas alturas, deixando a faixa vazia nas suas costas, o lateral-esquerdo Evra sobe no terreno, inserindo-se nas manobras ofensivas, mas este jogo de compensações entre o extremo e o lateral tira fluidez á circulação de bola, pois nem Rothen se transforma num verdadeiro organizador de jogo, já que sempre que corre com a bola, tende a cair para o flanco esquerdo, nunca verticalizando o jogo, nem Evra se assume como um verdadeiro carrilero que faz todo o corredor, pois tem sempre como principal preocupação a marcação defensiva pelo seu flanco. Como os trincos (Zikos-Bernardi) jogam demasiado recuados, é fácil, assim, abrir-se um espaço vazio no meio campo monegasco, consequência também do pressing defensivo ser feito muito atrás, o que, frente ao Chelsea, permitiu, no primeiro tempo, que Lampard se inseri-se nele, passando a controlar essa zona.

O Mónaco com dez jogadores

Com a expulsão de Zikos, logo no inicio do segundo tempo, foi interessante observar a forma como jogou o Mónaco com apenas dez jogadores. Assim, face á inferioridade numérica criada pela expulsão do trinco grego, Deschamps retirou um dos pontas de lança, Prso, e inseriu um novo médio defensivo, Cissé, passando a jogar claramente em contra ataque num esquema simples de 4x4x1, que se abria em 4x3x2, a atacar, com as subidas, pela direita do inesgotável Giuly. Naturalmente, o Chelsea passou a deter maior posse da bola, mas, num puro lance de contra-ataque, como uma venenosa equipa latina á moda antiga, Giuly recuperou a bola a meio do meio campo inglês e, com um passe cirúrgico, isolou, na direita, Morientes que, aproveitando o espaço deixado vazio pela subida do lateral esquerdo inglês Bridge, furou na área, e fuzilou Ambrosio. Mesmo com dez jogadores, a equipa manteve-se sempre tacticamente

AS VARIAÇÕES DE LONDRES : Giuly na frente de ataque ou a outra face do 4x4x2

Em Londres, embora mantendo o seu sistema de jogo base, um 4x4x2 ou 4x4x1x1, aberto a toda a largura do terreno com uma dupla de médios de contenção recuados, Deschamps realizou algumas alterações táctico-posicionais no onze inicial. Assim, com o regresso de Squilacci ao centro da defesa, Givet passou para lateral direito e Ibarra subiu para o meio campo, como ala direito, embora com missões sobretudo de cobertura defensiva, surgindo Giuly, o habitual flanqueador destro, a alma da equipa, na frente de ataque como jogador mais adiantado, entre os centrais, ficando Morientes nas suas costas, entrando de trás e iludindo as marcações. Com esta alteração posicional, Giuly perdeu, no entanto, espaço para a sua velocidade e drible em progressão, no qual executa perigosas diagonais. Sem essa referência construtora, o trinco Benardi subiu mais no terreno, para perto da linha avançada, explorando a sua precisão vertical de passe. Embora não dê muita profundidade ofensiva ao jogo, Benardi é um jogador chave neste Mónaco e raramente falha um passe, privilegiando o jogo curto e o futebol apoiado.

A influência de Plasil

No segundo tempo, sentido a necessidade de mexer no meio campo para controlar o ritmo de jogo que, na primeira parte, fora gerido pela vertigem de movimentos do Chelsea, Deschamps recuou Ibarra para lateral direito e colocou no seu lugar o checo Plasil. Desta forma, o Mónaco passou a segurar melhor a bola, dando tempo para Bernardi subir no apoiar o ataque (notável o seu passe de primeira para o golo, 2-2, de Morientes) e coordenar o meio campo, ao mesmo tempo que na esquerda, Rothen dava um verdadeiro recital de belo futebol. A sua inteligência de movimentos, o controle de bola em velocidade, driblando e ultrapassando adversários em progressão, procurando a linha e levantando a cabeça no momento certo para executar o centro, fazem dele um dos melhores extremos do actual futebol europeu. A forma tranquila como o onze reagiu á avalanche ofensiva dos ingleses, revela, por si só, a personalidade da equipa de Deschamps, um onze com a beleza das equipas que gostam de fazer circular a bola, adornando a sua posse com o perfume dos tecnicistas, e explora o sentido de contra-ataque como uma velha e tradicional equipa latina á moda antiga.

DUAS VERSÕES DO 4X4X2 DE DESCHAMPS

Mónaco-Chelesa / Meia-final, 1ª mão. 3-1

O sistema clássico de Deschamps. Um 4x4x2 com dois trincos recuperadores, Zikos-Bernardi, jogando curto, marcando o ritmo de jogo, e dois flanqueadores com vocação para organizar jogo e abrir nos flancos como verdadeiros extremos, Giuly-Rothen, no apoio á dupla de avançados, com Prso mais em cunha entre os centrais e Morientes deambulando nas suas costas e entrando de trás.

Chelsea-Mónaco / Meia-final, 2ªmão, 2-2

A dinâmica alternativa do 4x4x2, com o meio-campo defendendo em linha, como os alas de perfil com a dupla de trincos. Neste sistema, Rothen assume-se mais como um extremo puro, procurando a linha, enquanto Bernardi, sobre o centro, sobe mais nas acções ofensivas. No ataque, Giuly passa da ala direita para o centro do ataque, ao lado de Morientes, com quem procura triangulações nas imediações da área.

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