O futebol português vai exportar um jogo do seu campeonato para todo o território europeu. FC Porto e SP. Braga na final da Liga Europa. Até que ponto, porém, é mesmo o futebol português que vai estar verdadeiramente representado, em campo e fora dele, nesta final de Dublin? A resposta tem vários prismas. Estilos de jogo, gestão desportiva/financeira dos clubes, jogadores, treinadores… É um debate que merecia uma análise mais profunda. Desde logo, porque a forma como estes dois emblemas, em patamares diferentes, entenderam como hoje os clubes são grandes edifícios com duas entradas (a desportiva e a financeira) e souberam, depois, cruzá-las, não tem paralelo no resto da realidade portuguesa em termos de eficácia nos últimos anos. Mas, pensemos, sobretudo, no relvado. Não gosto de falar, nem penso que exista verdadeiramente, hoje como historicamente, num estilo de jogo genuinamente português. Acredito mais numa série de linhas caracterizantes que, dentro do mundo latino, o moldaram ao longo do tempo. É a escola portuguesa. As bases são claras: capacidade técnica, controlo de bola e passe, jogo apoiado e triangulações por todo o campo, sem se importar de jogar o tempo que for necessário atrás da linha da bola. Em termos de cultura de equipa de posse o FC Porto de Villas-Boas é o melhor exemplo.
Um código genético que, na prática, está espelhado em ambas as equipas num factor que marca hoje a diferença: o chamado futebol de estratégia. Aquele que sabe que cada jogo tem as suas especificidades, no qual, astutamente, se deve, sem perder identidade, adaptar as nossas qualidades às características distintas de cada adversário. Esta abordagem estratégia do jogo começa, desde logo, na composição de um staff técnico multidisciplinar onde a observação do adversário é um cargo fundamental para o sucesso.
O treinador português é estruturalmente um pensador específico de cada jogo. Prioridade: saber ocupar os espaços (fechar a defender, abrir a atacar) mantendo sempre o controlo da bola, mesmo como ela no…adversário. Durante muito tempo rotularam-nas de equipas de contra-ataque. É uma definição redutora, mas esse frasco de veneno estratégico tem de facto muita importância no nosso jogar histórico. Nesse sentido, o Braga de Domingos interpreta melhor essa ideia pela forma como baixa linhas e sai depois em transição com passes rápidos nos espaços metendo a bola nos alas. Cada qual no seu estilo, Villas-Boas e Domingos são dois treinadores genuinamente portugueses. É esse traço que, na essência, faz da Final de Dublin um jogo do futebol português.
Mais do que o futebol português, importa ter consciência que, com FC Porto e Sp.Braga, quem está representado em Dublin são as suas duas melhores formas de gestão desportiva/financeira (noção de clube) e táctica/estratégica (noção de equipa) do nosso país. Ambas estão muito acima da média do que se faz no nosso verdadeiro futebol. Considerá-las espelhos de uma realidade global é, por isso, uma fuga à…realidade.