Quando o futebol estava a ficar demasiado sério e a confundir excessivas estratégias defensivas com inteligência táctica, surgiu uma equipa e uma selecção que desmontou todos os dogmas que começavam a formar-se. Primeiro, o clube. Uma filosofia de jogo importada das túlipas e semeada em Barcelona por Johan Cruyff. Uma cultura de futebol táctico e técnico com a bola como ponto de partida e instrumento base de construção. No Barça, cruzou poetas tácticos como Guardiola, visionários como Laudrup ou rebeldes como Stoitchkov. Todos unidos sob o mesmo tecto ideológico. A bola tinha dono. Para atacar e para defender era um «bem essencial». E o estilo criou raízes. Inspirou a cantera e a dinastia de cérebrozinhos pivots sucedeu-se (Guardiola, Fabregas, Xavi). Na evolução, foi refinando conceitos de organização defensiva.
Outros treinadores pegaram na ideia base (Robson, Van Gaal, Rijkaard e…Guardiola, o aprendiz de feiticeiro mor). Chegados a este ponto, a ideia passou para a selecção onde surgia, com a mesma cultura, um must táctico-técnico saído da escola-Cruyff. E a máquina começou a andar noutro local. Aragonés, depois Del Bosque.
A Espanha joga hoje com seis ou sete jogadores do Barça e, claro, com o seu estilo. Tendo como ponto de comparação a ideologia de Cruyff, esta Espanha 2010 é igual na forma excessiva como tem a posse de bola e, ao mesmo tempo, pede que as individualidades brilhem para o colectivo. Del Bosque faz mais desenhos defensivos, embora se tivesse de escolher um sector, ele escolhia o meio-campo com a bola no… outro meio-campo, o do adversário.
É um futebol, digamos, mais «trabalhado» nos quatro momentos, sobretudo o da transição defensiva (a grande diferença, em termos táctico-evolutivos, da escola Cruyff) o que a torna mais sólida nas…duas áreas. Com bola, Xavi e Iniesta são os arquitectos. Tudo isto é construção futebolística pura.
Depois de ter inventado, como jogador, o futebol-total circular holandês, hoje ainda bem expresso no processo ofensivo da Holanda de Van Marwick, fica outra certeza: Se Cruyff nunca tivesse passado (e ficado) por Barcelona, esta Espanha nunca existiria.
Os meus
heróis
Na hora em que se faz a antevisão da Final e se elogia os vencedores, é fundamental prestar respeito às equipas (e jogadores) que saíram mais cedo do Mundial e deixaram no ar uma boa sensação. Uma última palavra para o meu Tshabalala. Tinha apostado que a primeira finta (grande jogada) do torneio seria sua, e ele só não me deixou ficar mal, como foi mais longe e fez um golo fabuloso, o primeiro do Mundial. Merece que, no futuro, procuremos por ele mais vezes. Também o Chicharito Hernandez do México. Não é só nos jogos que vejo de madrugada, rodando a parabólica para apanhar canais mexicanos, que ele, com a camisola do Chivas, é mesmo craque. Também foi no Mundial, com golos de encantar. Ficamos sem eles cedo demais.
México e Japão: as equipas que me deixaram mais sensação de perda quando foram embora. Ficamos sem a classe de Honda e tive pena que Marimoto não tivesse jogado. Admirei a capacidade de luta táctica do Paraguai. E da Larissa também. E, como tema para um livro (romance) inteiro de futebol, fica o penalty falhado por Gyan Asamoah no último segundo do prolongamento. O problema do Gana foi que o futebol é mesmo um Deus cruel que gosta de gozar com as sensações: o que lhes ofereceu num minuto, tirou-lhe logo no minuto seguinte…