O debate no futebol brasileiro atingiu o ponto essencial: que estilo de jogo se quer para o escrete canarinho? Tudo porque o efeito colateral da derrota tocou na adulteração do artístico estilo histórico brasileiro. Não se trata de querer voltar a 70 ou 82, os tempos são outros, trata-se de jogar com o código genético certo. É a crise da dunganização.
Mais do que a questão da táctica, a questão do perfil de jogador-base que molda hoje a selecção. Ou seja, não vejo um problema de base a questão de jogar com duplo-pivot (dupla de volantes, como chamam no Brasil). Porque não é a posição que faz o jogador. É o jogador que faz a posição. A Holanda, no campo oposto, explicou bem isso (quando desfez o seu, deixou De Jong fixo atrás e fez subir Van Bommel, invertendo o triangulo à frente da defesa, colocando-o mais próximo de Sneijder, ganhando-o assim o meio-campo, zona central, ao Brasil).
Trata-se, portanto, de perceber que dinâmicas de jogo se quer dar a partir dessa posição. Prefiro, claramente, que isso seja feito com um pivot único com classe táctica e técnica, mas também é possível com dois se existir complementaridade táctica: um deles ficar mais preso na ocupação posicional enquanto o outro sai mais para o jogo (viu-se isso quando jogou Ramires). No jogo brasileiro, Gilberto Silva e Felipe Melo vivem o jogo todo de perfil. São trincos, não volantes. Não foi por acaso que o melhor período do Brasil foi quando um deles se soltou mais, Felipe Melo, e jogou mais subido no meio-campo (a passar, distribuir e, até, a fazer um passe genial para o 1-0).
Dunga pensa o jogo a partir de outras bases e quando essa peça saltou da posição, voltando a ficar de perfil com Gilberto, a equipa partiu-se facilmente. Isto é, deixou de ter ligação com a sua face mais criativa, entenda-se Káká (o médio de segunda linha que lutou todo o Mundial contra a sua deficiente forma física). Sem esse tipo de jogadores, capazes de abrir espaço num drible e desequilibrar, com sentido colectivo, numa jogada, o Brasil confunde-se com qualquer outra equipa. Ganha ou perde por razões diferentes. Para a Dunganização, é o fim da história.
Sneijder: a natureza
Um golo de cabeça faz logo pensar na importância do jogo aéreo. É natural pensar assim, mas nem sempre a lógica é tão simples. A explicação prática está no corpo (e na cabeça) de Sneijder e o seu golo que eliminou o Brasil. Foi um golo de cabeça na sequência de um canto, quando antes, também Kuyt penteara (de cabeça) para trás a bola. Em nenhum dos momentos, porém, esses gestos e ataques à bola, pediram impulsão ou jogo aéreo, o forte de Lúcio (1,88m.) e Juan (1,82m.), centrais brasileiros exímios a chocar e ganhar nas alturas.
É que em nenhum caso a bola cedeu a extremos. Nem foi rente à relva, a pedir a chuteira, nem nas alturas, a pedir subir para cabecear. Foi a meia-altura, onde só a inteligência de Kuyt e o 1,70 de Sneijder a podia entender. Por isso, cabeceou, sem se mexer, para o golo. Para cabecear aquela bola, Juan e Lúcio tinham de se torcer todos, baixar a cabeça, fugir à lógica natural do jogo aéreo. Sneijder não precisou de fugir a lógica nenhuma. Como não fugira em nenhum momento do jogo. Respeita a bola como ela é e obedece às suas trajectórias. Só assim, ela, depois, também obedece aos seis pedidos. É, no fundo, uma relação de respeito mútuo. No golo, como em todo o jogo, Sneijder apenas respeitou a sua natureza.