É tão fácil partir um «coração»…

31 de Dezembro de 2008
Os jogos não se decidem nos detalhes. Decidem-se nas grandes competências. É a importância do coração táctico.

 

É uma das frases mais repetidas no futebol. Os jogos decidem-se nos detalhes. É, também, dos maiores erros que é comum ouvir-se. Porque os jogos não se decidem nos detalhes. Os jogos decidem-se nas grandes competências. O resto é apenas a ilusão de uma simples jogada, bola no poste ou penalty por assinalar, que turva a visão sobre o essencial. E, nesse essencial, está a cultura táctica de uma equipa e seus jogadores para ocupar cada posição e espaços. Nada disto são detalhes. São pilares que sustentam uma filosofia de jogo. O que decide, depois, o que fazer em cada jogada. O que decide um jogo.
 
O coração de uma equipa nunca está nos detalhes. Está nas tais grandes competências que, na táctica, estão relacionados com os grandes princípios de acção no qual assenta a organização colectiva de cada equipa. Isso provoca graus de responsabilidade diferentes em cada jogador. Torna uns, aqueles que jogam com o chamado coração táctico nas mãos, mais importantes do que outros.  
 
Tudo muda conforme o sistema. Benfica e Sporting (4x4x2, clássico e losango), FC Porto (4x3x3 em mutação para o 4x1x3x2 como alternativa), Leixões (4x3x1x2 variando o ataque entre o 2x1 e o 1x2 com os avanços-recuos de Wesley no centro e as diagonais de Braga e Diogo Valente desde as faixas) e Sp.Braga (4x4x2, variante 4x1x3x2). No seu funcionamento, obrigações e liberdades. Uma relação que combina diferentes espaços. Por exemplo, um problema nas faixas (dificuldade em dar profundidade após ganhar largura) pode nascer da frequência cardíaca das posições centrais. O losango é o ser vivo táctico mais sensível a essa relação centro-faixas. O Sporting sente isso sempre que tenta uma transição rápida com um pivot-recuado lento (Rochemback ou Veloso) ou quando tenta dar profundidade abrindo um ponta-de-lança (Liedson).
 
Apesar dos princípios ofensivos referidos, o coração da equipa-sensação, o Leixões, está na sua dupla de médios de contenção China-Souza. É através deles, à medida que progride no terreno, que se pode fazer o electrocardiograma do onze. Sucede o mesmo, embora num sistema diferente, com o Benfica. No jogo, a crise existencial desses grandes princípios de acção está relacionada com problemas no seu coração táctico, o corredor central. São as grandes competências da dupla de médios-centro, posições-chave do 4x4x2 clássico. Por isso, Quique definiu um médio-centro box to box, o enganche longo que faça progredir a bola no terreno, como o jogador necessário. Por isso, custa ver Ruben Amorim, o único jogador no plantel actual capaz de fazer essa missão, deslocado para a direita. O seu caso individual é exemplar para se perceber como um treinador nunca pode pensar na evolução de um jogador descontextualizado-o da equipa. Porque só percebendo a correcta especificidade do jogador nesse colectivo, os grandes princípios do jogar pretendido podem ser alcançados. Desta forma, entende-se o jogo pelas suas grandes competências. E esquece-se a ilusão de que eles se decidem nos detalhes.   

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