EL CACIQUE DO FUTEBOL CHILENO

November 4, 2001 12:00 AM
Nos anos 60, chamaram-lhe o futebol índio. Hoje, apesar da quebra competitiva, continua destemido, espelho de um povo calcinado por uma sofrida história política, social, que gerou, ao longo dos anos, uma forma passional de viver a vida, cujo sentimento se espelha no seu futebol. Com 7 participações na fase final do Mundial (30, 50, 62, 66, 74, 82 e 98), o Chile é um dos países com maior tradição futebolística na América latina. Depois da explosão goleadora de Zamorano e Salas, o seu futebol, selecção e clubes, atravessa agora uma fase conturbada.
Para o corpo e alma do povo chileno, herdeiro da força e do carisma legado por sucessivas gerações de lutadores e resistentes que esculpiram a sua história sofrida, marcada pela ditadura sangrenta de Pinochet que em 1973 derrubou Salvador Allende, o futebol continua a ser um fosso de temperamento. Um labirinto de emoções que percorrem os 756 945 Km2 que atravessam o território chileno, desde os Andes até ao Pacífico, espaço onde se escondem as raízes dos poemas de Pablo Neruda e dos principais clubes chilenos, Universidade do Chile, Colo Colo e Unversidade Católica e Cobreloa, os dominadores dos últimos 30 anos. Depois de reunir em finais da década de 90, uma das mais temíveis duplas atacantes do mundo, Salas e Zamorano, o futebol chileno voltou, no inicio do novo século, a mergulhar numa crise de valores. Com a maioria das estrelas a jogar no estrangeiro, o seu campeonato perdeu força e todo o status do futbol chileno, desde sempre estruturado em torno de uma selecção carismática, perdeu as suas referências base. Enquanto o tranquilo treinador Manuel Pelegrinni se sagrou campeão argentino pelo San Lorenzo, internamente, os clubes chilenos procuram resgatar o seu prestigio internacional, cujo ultimo grande momento remonta a 1991, ano da conquista da Taça Libertadores, a única do futebol chileno, pelo Colo Colo de Pizarro, Espinoza, Pérez e Maragas, treinado então pelo croata Mirko Jozic. Dez anos depois, o Campeonato 2001 confirma as tendências da década de 90, que após o domínio nos anos 80 do Cobreloa, equipa da indústria mineira, viu o titulo ser sempre discutido entre Universidade do Chile e Colo Colo, os dois gigantes, excepto no Torneio Apertura de 97, ano da sensacional vitória do Universidade Católica de Beto Acosta.

AS NOVAS ESTRELAS ÍNDIAS: PIZARRO E MONTECINOS

Vencedor em 1999 e 2000, o Universidade do Chile deve muito dos seus títulos ao trabalho do jovem técnico César Vaccia, antigo jogador do clube, que após a saída de Jorge Socias, campeão em 94 e 95 com uma equipa onde explodiu o talento goleador de Marcelo Salas, El Matador descendente dos índios Mapuche, resgatou a magia dos títulos, agora com os golos de Pedro González, o goleador de um onze regido por Pizarro e pelos três estrangeiros da equipa, o médio brasileiro nº10 Arilson e os avançados Maestri, peruano, e Rivarola, argentino. Apesar disso, o Colo Colo, de Santiago, supremo símbolo índio, treinado por Roberto Hernández, continua a ser a equipa chilena com maior prestigio internacional, sendo o clube que fornece mais jogadores á selecção, entre eles os avançados Héctor Tápia e Sebastían Gonzaléz, a dupla ofensiva, á frente do dinâmico Rosenthal, regressado do Glasgow Rangers. Com o seu grande símbolo futebolístico dos anos 90, Ivan Bam Bam Zamorano, 34 anos, a passar um dourado final de carreira no América do México e com Salas cada vez mais concentrado na suas aventuras italianas, o Chile busca novos heróis. Nos últimos tempos, por entre a crise de resultados, emergiu o talento de David Pizzarro, 22 anos, médio volante do Universidade, regressado este ano de uma época em Itália, na Udinesse, onde apenas fez 5 jogos. De volta ao seu habitat, recuperou o perfume do seu futebol e poderá no futuro ser a nova bandeira do renovado futebol chileno, que tem as suas principais estrelas a jogar no estrangeiro, como o defesa Reys, no Auxerre, e os médios Maldonado, no São Paulo e Fabian Estay, no América, do México. Numa era em que o Chile perde competitividade em relação a outras nações sul americanas, como a Colômbia e o Paraguai, internamente Colo Colo e Universidade do Chile continuam donos do cacique futebolístico chileno, onde esta época se tem destacado o experiente avançado Montecinos, 30 anos, do Deportes Concepción, um lutador incansável

A CRISE DA SELECÇÃO: O FIM DO CICLO NELSON ACOSTA

Depois de ter congeminado, a partir de 96, quando substituiu o basco Xavier Azkagorta, uma sedutora selecção, que mesclava a genética picardia chilena com a técnica sul americana, a estrela de Nelson Acosta começou a cair após o Mundial-98. Figura respeitada no mundo do futebol, culto e com um discurso cativante, Nelson Acosta, nascido no Uruguai, mas naturalizado chileno, onde vive desde os anos 70, conseguira 16 anos depois de 1982, então na fase final da carreira do soberbo central Figueroa, estrela máxima da história do futebol chileno, levar de novo, em 98, o Chile á fase final de um Mundial. Sempre fiel ao um 4-4-2 que se baseava na velocidade do contra ataque, Acosta apostou no mesmo onze e sistema para chegar ao Mundial-2002. Depois de uma sensacional vitória sobre o Brasil, 3-0, há cerca de um ano, tudo parecia encaminhar-se para uma nova proeza, mas, depois desse jogo, o Chile não voltou a somar qualquer ponto. Perdeu 6 jogos consecutivos, entre eles com Colômbia e Uruguai, em casa, e ficou afastado do apuramento. Após a derrota com a Argentina, em Santiago por 2-0, Acosta resolveu então apontar como responsáveis pelo fracasso os jogadores chilenos a jogar no estrangeiro -a grande maioria dos titulares- acusando-os de não se aplicarem na selecção como nos seus clubes, atacando directamente Marcelo Salas, que disse “não fazer na selecção os mesmos piques de 50 metros que faz na Lazio”. Como consequência desta guerra, Acosta acabou por ser afastado do cargo de seleccionador, abrindo caminho a Pedro García, ex-técnico do Colo Colo, a quem se pede que devolva as vitórias á La Roja, como é conhecida a selecção chilena. Para ele, o futebol chileno necessita de uma remodelação profunda, abandonando um política imediatista que vigora há 50 anos, substituindo-a por um projecto a longo prazo, de forma a criar uma nova mentalidade futebolística, capaz de garantir a presença assídua do Chile nos grandes torneios como o Mundial, no qual, certamente, não irá estar em 2002.

ANOS 80 / 90: QUADRO DE CAMPEÕES

1980 COBRELOA 1981 COLO COLO 1982 COBRELOA 1983 COLO COLO 1984 U.CATÓLICA 1985 COBRELOA 1986 COLO COLO 1987 U.CATÓLICA 1988 COBRELOA 1989 COLO COLO 1990 COLO COLO 1991 COLO COLO 1992 COBRELOA 1993 COLO COLO 1994 U.CHILE 1995 U.CHILE 1996 COLO COLO 1997 A* U. CATÓLICA 1998 C* COLO COLO 1999 U.CHILE 2000 U.CHILE * A-Apertura * C-Clausura

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