O futebol, na sua máxima expressão, é um jogo de Deuses jogado por homens na terra. Para isso, criaram, por todo o mundo, pequenos rectângulos relvados vedes. Kaká e Ronaldinho, Xavi e Messi. Pelo mio, uma bola. De Milão a Donetsk. O Scudetto e a Champions. O mesmo poder hipnotizador em dois lances encantados.
O passe largo de Ronaldinho para a velocidade de Káká na meia direita, o centro deste como desse uma ordem à bola, o cabeceamento com dentes de coelho para o ângulo onde a coruja dorme da baliza do Inter. A recepção de Xavi e a serenidade de, no último minuto, fazer um passe rasgando toda a defesa ucraniana, isolando, a régua e esquadro, uma pulga, Messi que, com um toque subtil e insolente cobriu o guarda-redes e pôs a bola a dormir na baliza. Dois golos, dois exemplos de como o principio da técnica só vive em campo com esta aura divinal quando moldada pelos ditames da táctica. Porque, em cada recepção e passe destas duas jogadas, esteve a noção da chamada táctica individual. Ou seja, a utilização do tecnicismo de cada jogador para colocar em prática um principio de jogo. A essência comum destas duas jogadas: o passe, as obras de Kaká e Xavi. A ultima palavra futebolística: o remate, os gestos de Ronaldinho e Messi. Nas duas jogadas eles comeram a táctica. Como? Fazendo dela técnica.
Ver o Arsenal em Londres é outra forma de entender este conceito de numa equipa a táctica ser, no fundo, a técnica dos seus jogadores. Porque só ela a permite colocar em prática com a inteligência (táctica) e precisão (técnica) a filosofia de jogo imaginada pelo treinador.
As arrancadas de Walcott com a bola têm implícitas outro conceito de velocidade. Mais elaborada do que a do jamaicano Usain Bolt. Porque é feita de piques, travagens e novas acelerações. E porque é feita tocando uma bola ao mesmo tempo. Tic, tic, tic e zás. Só recorrendo a este vocabulário de desenho animado consigo descrever o futebol deste little boy. Nessas passagens supersónicas existe, porém, a noção de táctica. Para isso, atentem no ponto de arranque que ele procura. Recua, encontra o espaço e, no decorrer da aventura, surge por perto um colega, em geral o lateral (Sagná). Os dois combinam na perfeição, mas, curiosamente, é raro trocarem uma bola entre si. Mais do que o conceito de tabela, nesta combinação de manobra atacante extremo-lateral-extremo, está a ocupação e domínio dos espaços. Dessa forma, Sagná é um apoio indispensável de Walcott mesmo sem tocar na bola.
Kaká, Ronaldinho, Xavi, Messi, Walcott e até Sagná. O passe, o remate, a velocidade, a desmarcação. Tudo isto são formas de comer a táctica. Até ela ser a técnica. Não perguntem mais, portanto. Bom futebol, jogar bem, é isto!