Entre o estilo e a personalidade

23 de Abril de 2009
O síndroma de Paulo Bento através de Jesualdo e Quique. O futebol, a táctica e a imagem. O estilo é o que fica depois das ilusões.

 

O futebol vive em mutação permanente. O negócio e seus directores, o jogador transformado num “activo”, a televisão, o marketing e o adepto visto como um cliente. Até a bola mudou e agora, feita de outros materiais mais leves, descreve efeitos impossíveis com o couro atado por cordas de outros tempos. No fundo, segue a evolução do Mundo. São sinais dos tempos. Por entre toda aquela “nova confusão”, o status desordenado, traz novos problemas e novas soluções. Só com a fidelidade a um estilo é possível viver (e não apenas sobreviver) neste novo “mundo redondo”. Vale para jogadores ou treinadores.
 
Em todos refúgios, relvados ou balneários, a palavra-chave é a mesma: estilo. A equipa como ser colectivo, o treinador, como seu mentor, mas com uma vida (carreira) que existe, antes e depois, para além desse onze circunstancial.
 
Saltemos então para dentro do relvado. A dificuldade do Benfica em construir um estilo, uma personalidade táctica sedutora, afastou-o do título (e do bom futebol) apesar da arte “castelhana hablante” de Quique. Faltou saber dar um rumo a uma equipa. No imenso cenário espanhol, Quique vai, no entanto, sobreviver a esta aventura. Existem, porém, outros cenários. Com menor capacidade de diluir imagens. Paulo Bento ainda está, apesar de já estar no quarto ano em Alvalade, no seu inicio de carreira de treinador. Está, portanto, no tempo certo para construir uma identidade, o tal Estilo. Por isso a maior relevância de cada gesto que faça. Porque pode ser injusto mas as ideias, antes de se expressarem, necessitam da personalização positiva do seu autor. A forma intempestiva, em campo, esbracejando revoltado, o discurso como se o mundo não o entendesse, combatendo árbitros e “moinhos de vento”, fora dele, ameaçam, cada vez mais, devora-lhe a imagem. Não está aqui em causa a raiz do discurso. Está a criação (e solidificação) de um estilo. Não será fácil, depois, fugir dele. E não é, naturalmente, o mais sedutor para personalizar as suas (boas) ideias de futebol.
 
Jesualdo já vive, neste “jogo de estilos”, numa espécie de quinta dimensão. O olhar de fundo de caverna, rosto fechado como esculpido à navalha, ganhou, nos últimos anos, a moldura bíblica do “antigo tratamento” azul-e-branco contra os “moinhos de vento” sulistas. Na essência, porém, quando quem tem de falar é a equipa dentro do campo através da sua forma de jogar, o discurso tem conteúdo, argumentos sólidos e boas respostas aos problemas do jogo, e da vida.
 
Bento e o seu Sporting (do primeiro ao último dia) vivem para o 4x4x2 e seu losango. Não tem olhos para outro sistema. Futebolisticamente falando, este ponto será, até, mais relevante do que a tal questão do estilo, mas ambos caminham juntos na sua construção. E o cruel é que no mundo actual é o menos importante (a moldura) que tende a ser o… mais importante na hora de definir pessoas e suas competências.
 
No futuro, uma equipa de Bento (sem Liedson…) também jogará, certamente, em 4x3x3 ou 4x2x3x1, mas o estilo não será muito diferente. E aqui já se fala outra vez apenas de futebol. O tal “modelo de jogo”, que deve ser entendido como “filosofia de jogo”, algo que vive muito para além do sistema. Ou seja, querer jogar em circulação de bola, mantendo e cultivando a posse, construindo o ataque de forma apoiada e organizada. A filosofia de Jesualdo é diferente e isso vê-se no actual FC Porto órfão de Lucho. Mudou o sistema (cada vez mais perto do 4x4x2), manteve o modelo (e o professor, o estilo). Recupera a bola e não privilegia tanto a posse de bola e em vez de circulação, tenta transições rápidas defesa-ataque, mudando de velocidade e, renunciando lateralizações, verticaliza velozmente o jogo.
 
O estilo é mais do que uma mera imagem. Para isso estão as miragens. O estilo é o que fica para além das ilusões. Uma equipa é a imagem do seu treinador. Um treinador é o espelho de um estilo. O perigo é, em ambos os casos, ficar seu refém.
 

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