Época 2010/11: relatório final

January 6, 2011 8:13 PM
Em 2010, falava-se “em transições rápidas”, em 2011, fala-se em “cultura de posse”. Que mudou?

 

Terminou a época 2010/11 e a principal mensagem táctica fala do domínio da cultura da posse sobre o jogo de transições como base para detectar o melhor futebol. Mas, até onde isso é verdade? Até que ponto, diga-se, isso pode ser possível quando a eficácia dos quatro momentos do jogo (equilíbrio e dinâmica da estrutura da equipa) reside exactamente em não deixar partir os seus elos de ligação e tornar o jogo inquebrantável. A definição de equipa de posse ou equipa de transições resulta sobretudo da constatação do momento em que ela passa mais tempo no decorrer do jogo ou, numa análise mais específica, se percebe ser o mais importante para a eficácia do seu modelo.
Claro que cada equipa, por ideologia, concepção circunstancial do jogo ou, claro, nível competitivo, os usa de forma diferente. É, porém, a opção que nasce da ideologia que importa focar para se perceber as tendências dominantes no actual futebol nacional. No fundo, é o treinador a modelar em especificidade (do clube e jogadores que encontra) o seu modelo de jogo preferencial.
 
Será pacífico, então, definir o FC Porto 2010/11 como uma equipa de posse. É verdade, mas uma afirmação dessas parece retirar importância às transições no modelo de jogo azul-e-branco. E nada é mais falso. A transição defensiva, por exemplo, é, desde logo, nos quatro momentos de jogo portista, um ponto tão importante como o de posse, estando interligado directamente ao de organização ofensiva. Basta pensar na lógica do jogo: para ter mais posse de bola é, primeiro, necessário recuperar rapidamente a…bola. E para isso é fundamental a tal pressão imediata sobre o adversário, a base da transição defensiva. 
Depois, claro, não se importa de ter a bola o tempo que for preciso para desposicionar a organização defensiva adversária. É, portanto, uma posse continuada. Este ponto é importante, porque, vendo a estatística, o Benfica, por exemplo, também acaba os jogos sempre com maior de posse de bola. Então, porque não é também uma equipa de posse? Porque, lá está, pegando no raciocínio anterior, não passa (nem pretende) tanto tempo em organização ofensiva de forma a, em posse (na pratica, passe-toque-passe) para descobrir o espaço de penetração. Pelo contrário, acelera o jogo mais rapidamente (o tal futebol vertiginoso) e tenta chegar à baliza o mais rápido possível. Esgota a posse mais depressa. Não a pretende contínua. E perde a bola mais rapidamente. Mais do que ritmos diferentes, importa é notar, para distinguir modelos de jogo, que são gestão de ritmos diferentes.
 

 

E no futebol moderno é esta questão, gestão de ritmos (saber quando abrandar ou acelerar o jogo) que melhor gere uma equipa física e tacticamente. Ou seja a forma de jogar por si só (correr mais ou menos) não cansa mais ou menos. O que desgasta é a fadiga táctica motivada pela falta de noção racional, controlo alternado, dos diferentes ritmos que o jogo exige (e a equipa, táctica e humanamente, pede). Porque posse e transições existem em todas.

 

 

 

 

Os sistemas dominantes
 
Em termos de sistema emerge o 4x3x3 (e o 4x2x3x1), utilizados preferencialmente em 12 equipas da I Liga. 4x1x3x2 só o Benfica. Em 4x4x2, surgiu o Nacional, que alternou, o Leiria enquanto teve Silas - Carlão, mas depois passou a hesitar e o Guimarães mudou a meio. A maioria das equipas optou por só um pivot (um médio de contenção à frente da defesa). Pode ser mais trinco (no sentido defensivo do termo) do que pivot (no sentido construtivo de saída de bola), mas privilegiando só um elemento nesse espaço, o meio-campo respira logo melhor na missão de sair a jogar. A opção pelo duplo-pivot é quase sempre motivada pela preocupação prioritária inversa, a de impedir o adversário de criar. O Guimarães sentiu muito a mudança, forçada por lesões, do 4x1x3x2 para 4x2x3x1. Cleber por…Cleber e Renan foi como amarrar os sectores adiantados da equipa (meio-campo e ataque) a uma corda.
O avançado móvel ou o ala que joga por dentro (estilo Alan ou Rondon) é, cada vez mais, a forma de preencher o ataque em largura, pedindo depois profundidade aos laterais.
 
 
 
 
 
Bloco, linhas mais “baixas”
 
Em relação às últimas épocas, noto que as equipas têm cada vez menos problemas em assumir o bloco-baixo, distinto do médio-baixo que dominava. No fundo, é a consciência que a pressão alta, embora feita sobretudo por médios e linhas mais avançadas, exige uma maior capacidade técnica da defesa que a maioria dos onzes não tem (porque a faz subir no terreno e obriga os seus elementos, sobretudo centrais, a jogar em muitos mais metros de terreno). Por isso, baixam naturalmente as linhas.
Crescem as equipas de contra-ataque ou que partem da organização defensiva para pensar como…atacar. O Paços, revelação da época, foi um bom exemplo desta realidade. Os jogos em que melhor atacou (veloz e profundo em 4x3x3) foram os em que melhor…defendeu, subindo a capacidade de pressão do trio do meio-campo (Leão-Olimpio-Simão). Transições em segurança, procurando acertar o primeiro passe, em vez da rapidez sem precisão. Mais do que pressionar alto, importa pressionar como princípio. Isto é, depois de recuperar a bola, a equipa não ficar assustada com ela.
 
 
 
 
O que é a
“intensidade”?
 
Cada vez mais se utiliza este termo para elogiar uma equipa ou jogador. Muitas vezes, porém, mal enquadrado. Primeiro erro: relacionar directamente intensidade com esforço físico. Uma equipa lenta, a trocar a bola, pode ser, muito mais intensa do que uma rápida com jogadores a arrastar a língua pelo relvado durante 90 minutos. A base está na qualidade de jogo, sobretudo posicional, o ponto de partida para tudo. Até para a famosa dinâmica, que não existe no vazio. O nosso futebol é, no geral, tacticamente intenso, embora jogado a pouca velocidade.
Foi assim, por exemplo, que o Rio Ave cresceu, quando meteu um médio subido mais clássico, Braga, no seu 4x3x3. O sector (meio-campo) não passou a correr mais. Passou a correr melhor. E o jogo táctico da equipa aumentou automaticamente de…intensidade. Um processo inverso ao sucedido em Leiria, quando, a meio da época saiu Silas e a intensidade (de qualidade táctico-técnica) da equipa, no seu meio-campo, esfumou-se. Em qualquer sistema, a intensidade exige inteligência em especificidade.

 

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