Escolher como...perder

June 30, 2010 6:13 PM
Custa ver partir uma ideia de jogo tão atraente por não ter um suporte defensivo que a aguente.

 

Fala-se muito na motivação como factor decisivo para uma equipa (poder) ganhar um jogo. Ela é fundamental, claro, mas não é, muito longe disso, o mais importante. Este Mundial deixa um exemplo, evidente, dessa doce ilusão emocional: a selecção do Chile.
 
Não conheço, nem vi, nos últimos anos pelo mundo, equipa mais motivada e crente nas suas possibilidades até ao ponto de acreditar (e jogar)...para além das suas próprias capacidades. Não é só o sistema (difícil de desenhar com uma só fórmula (3x3x1x3, 4x3x3, 4x2x3x1) é a relação com os diferentes momentos do jogo. Ataca com criatividade (Alexis Sanchez é um craque) mas nessa intenção, desmonta toda a sua defesa (ou melhor, todo o seu processo defensivo), passando toda a equipa a pensar só em posse de bola. O problema surge quando perdem a bola em zonas de risco de transição (demasiadas vezes) e a equipa fica toda descompensada no posicionamento defensivo. É, portanto, uma equipa que sabe ter a bola, mas…não a sabe perder. E, basta um jogador (num plano de jogo tão exigente que obriga a constantes trocas posicionais) não estar, nesse momento, no local certo ou cometer um erro de posicionamento, para toda a equipa se desmoronar. Contra Espanha e Brasil, equipas mais fortes e mortíferas no contra-ataque, esse factor foi fatal. A sua capacidade de discutir o jogo dependia da sua capacidade de defender. Sem esse traço, é treinador a mais para… jogadores a menos. Ou seja, todos com a motivação (tacticamente desordenada sem bola) no máximo. Não tem estrelas, mas tem bons jogadores (de todos, contratava sem hesitar Beausejour). 
 
Partiu, assim, Bielsa do Mundial deixando os seus admiradores (incluído eu próprio) órfãos de uma ideia de jogo que tinha o efeito hipnotizador de tanto seduzir como perturbar. Uma ideia tão atraente sem suporte defensivo. Aquilo que a fazia ganhar era ao mesmo tempo aquilo que (na outra face do jogo) a fazia perder. A ideia que fica é que mais do que procurar como ganhar, escolhia primeiro (se isso sucedesse) a forma de…como perder. Por isso, caiu agarrado às suas convicções. Não pode existir forma mais sincera de perder.
 
 
O jogo no “congelador”
 
Um duelo Ásia-América do Sul que, a certos momentos, parecia um jogo de espelhos. Japão-Paraguai. Raízes distantes, filosofias de posse semelhantes. Ou, talvez não. Mais especulativo, a paraguaia. Mais que ter a bola, o Paraguai esconde a bola. Mais construtiva, a dos japoneses. Mais que ter a bola, o Japão mostra a bola. Esta escola paraguaia no contexto sul-americano, mais ofensivo, é quase uma ironia. Enquanto o Chile jogava no pólo oposto, sempre em alta velocidade, o Paraguai mete o jogo no «congelador» durante 90 minutos. Mesmo contra pressão central de três médios japoneses (Abe-Endo-Hasebe) e alas abertos (Okubo-Matsui) o posicionamento das duas linhas de quatro paraguaias (4m 4x4x2) nunca dança (sai) nas marcações. O Japão mexe mais no jogo no seu decorrer. O técnico Okada, procura quase sempre alterar a mobilidade atacante metendo um ponta-de-lança clássico (Okazaki) fazendo recuar Honda para a sua posição original de médio.
A equipa não tem grande capacidade para mudar de velocidade, mas pensa rápido o passe. Os jogadores tocam muitas vezes na bola, mas seguram-na pouco tempo. É estranho, mas será, talvez, um onze mais sul-americano no estilo do que o próprio Paraguai. A diferença num penálti.

 

 

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