Numa equipa, existem posições. No relvado, existem espaços. Conceitos e realidades que, no papel, estão directamente relacionados. O jogo, porém, tem outros desígnios que os seus diferentes movimentos ditam. Na Luz, no inicio, não existia Aimar. Existia a sua posição para ocupar. E o seu espaço para preencher. Ambos vazios, na origem. A entrada de Carlos Martins preenchia a posição. A ocupação do espaço teria, no entanto, contornos menos lineares. Sem mexer no sistema, procurando manter os mesmos princípios de jogo nos flancos, o corredor central foi a base para o Benfica começar a construir a sua forma de jogar através da forma como impediu o FC Porto de sair a jogar. Uma estratégia que começa numa contra-estratégia.
Enquanto nos flancos os esticões de Urreta reproduziam (nas características individuais) os gestos dos extremos ausentes, travando assim as saídas de Fucile (inicio de transição portista nas faixas), no centro, os recuos de Saviola sufocavam a saída de Fernando (inicio de transição portista no centro). Nesse movimento táctico, Saviola mais do que surgir na posição, surgia no…espaço de Aimar. Para, depois, voltar a avançar, em busca da área. Um jogo de avanços e recuos que, nas entre-linhas da equipa azul-e-branca, fazia, depois, em posse, nascer a estratégia ofensiva encarnada, mantendo sempre Cardozo a prender os centrais.
São coisas diferentes: enquanto Saviola entra (surge) no espaço, Cardozo preenche (ocupa) o espaço. Como também explicava Carlos Martins, o ocupante original da posição de Aimar. Mais operário, do que construtor puro, ele soube, nos recuos, com Javi Garcia nas costas, montar a zona de pressão encarnada que comeu a bola e os espaços do meio-campo, blindando os avanços de Guarin e Raul Meireles.
A incapacidade do 4x3x3 do FC Porto se transformar, durante o jogo, noutro sistema, ditou tacticamente a sentença de um jogo onde as noções de pressão suplantaram as de construção. A aparente evolução na segunda parte resultou de diferentes traços individuais que surgiram no jogo. Entrou um jogador capaz de segurar melhor a bola (Varela) e passou para zonas mais interiores um que a sabe transportar melhor (Rodriguez) antes a jogar como ala. Temporização e transporte são, porém, meras ilusões que não apagam a falta de quem domine conceitos como ordem e criatividade.
Uma boa forma de perceber a velocidade que o jogar benfiquista imprime à segunda linha do seu meio-campo, é verificar como, muitas vezes, o jogo da equipa descansa com um passe vertical para o ponta-de-lança. É a altura em que, na organização ofensiva (momento de definição, como diria Jesus) os jogadores procuram o melhor jogo posicional para trocar a bola. Um ala abre mais, o segundo avançado (Saviola) baixa entre-linhas e o outro falso-ala (Ramires) surge mais por dentro. Nº9 puro, Cardozo é um exemplo de electricidade estática no sentido futebolístico do termo. Uma equação táctica onde, este ano, existe um coelho a mais. Daqueles que faz toda a diferença.