Estatuas e tácticas

January 20, 2012 11:49 AM
O mínimo que se exige a uma estátua que volte para o relvado, é que faça o mesmo de antes dez minutos depois

Um dia, apreciando a sua arte, Salvador Dali disse que "o mínimo que se exige a uma estátua é que não se mova". No universo futebolístico, existem muitas provas disso. Stanley Matthews, Eusébio, Bobby Moore... mitos eternizados em esculturas à porta dos Estádios dos clubes que os celebrizaram, nunca se atreveram, a partir desse momento, a moverem-se para dentro do relvado e voltar a jogar. Respeitaram a lógica imóvel da estátua. Mas as coisas mudam. E existem jogadores de futebol para tudo. A primeira excepção deu-se na Argentina, na Bombonera. Mesmo com uma estátua à sua porta, Riquelme regressou e quis jogar. Como, porém, nunca foi um jogador muito rápido, tal não se terá notado assim muito.

Em Dezembro, o gaulês Thierry Heny, 34 anos, regressou a Londres para, à porta do Estádio do Arsenal (onde fez grandes jogos e 226 golos) inaugurar também a sua estátua. Nessa altura estava já futebolisticamente reformado nos EUA, passeando no New York Red Bulls. Pouco depois de alguns treinos com antigos companheiros, sentiu a irresistível tentação de contrariar a lógica da estátua. Wenger incentivou-o e, assim, Henry voltou ao relvado. E como neste caso o jogador, apesar da idade, ainda consegue, por minutos que seja, soltar o seu estilo-voador, velocidade desde a faixa com a bola controlada, o renascimento notou-se logo curtos instantes após entrar em campo, frente ao Leeds, num jogo da FA Cup, que caminhava para o fim como 0-0. Dez minutos após entrar, Henry apanhou a bola na meia-esquerda, flectiu e meteu-a em arco ao poste mais distante. Golo! O Arsenal ganhou 1-0 e a estátua em movimento Henry desmoronou, num ápice, a teoria de Dali. No futebol, o mínimo que se exige a uma estátua que volte para o relvado, é que volte a fazer o mesmo que antes fazia pelo menos dez minutos depois. Agora, vendo o actual Arsenal, acredito que Henry vai continuar a jogar, saindo Arshavin, o ocupante do lado esquerdo do ataque, mantendo-se Van Persie solto no centro, ficando a direita entregue a Gervinho, que pode ir trocando de flanco com Henry (Walcott, o factor-velocidade, passa a ser uma arma a lançar desde o banco). Na estranha relação entre uma estátua e a táctica, é o que faz mais lógica.

Mais do que qualquer sistema ou táctica, o futebol inglês é um estado de espírito. Até em Manchester onde Scholes, mesmo sem estátua, saiu da bancada (onde via desde inicio da época os jogos após pendurar as chuteiras) para o relvado da equipa principal no espaço de poucos dias. Aos 37 anos, já não terá a mesma rotação de jogo que fez dele uma cenoura-mecânica do meio-campo, mas, mesmo perdendo logo uma bola perto da área que daria um golo ao adversário, os adeptos foram à loucura quando voltou a pisar o relvado. Os grandes craques são assim. Assumem a responsabilidade, absorvem a pressão, despertam emoções e dormem tranquilamente antes ou depois qualquer jogo. Como uma estátua.


 

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