Estilo: a “segunda via”

6 de Julho de 2010 21:29
A importância do jogador “estranho” e o treinador com um “casaco de carapuço”

 

O compromisso da Espanha com o seu estilo é aquilo que mais destaca a sua personalidade em campo. O futebol do toque não cede a tentações mais directas. Mesmo quando o tempo passa e o golo não aparece. Seguem tocando, tocando. Como encaixar, então, neste conceito a aparição, a certo ponto, de um ponta-de-lança mais esguio e alto, Llorente, perfil de 9 fixo que atrai quem conduz a bola para a meter logo nele, na luta da área? Sucedeu contra Portugal (substituiu Torres, aos 58m.) e mudou o jogo. A verdade é que Llorente altera algumas coordenadas (não a filosofia global) que, em momentos concretos, pode, em zonas específicas, ser decisivas. Fixar mais os centrais num dado espaço, abrindo consequentemente outros, dando mais presença na zona central e alcance a bolas mais incisivas e difíceis que surgem na área.
Del Bosque é um treinador que passa quase despercebido. Raramente o vemos a levantar-se do banco. Não tem qualquer hipótese de ganhar um concurso de beleza, um casaco com um carapuço e nem um grito para dentro do campo. Aquela hora e meia é dos jogadores. Mas, há outras formas de se fazer sentir. E as substituições, em geral, são esse momento, porque...mexem com a equipa. O factor-Llorente ou, noutra perspectiva, a entrada de Fabregas. Mas, após a missão lusa, o Llorente não voltou a entrar. Como se personificasse uma segunda via do mesmo estilo.
 
Joachim Low está, longe, também, de ser visto como um chamado treinador de top. Construiu a carreira um pouco à margem da elite da Bundesliga. É intrigante, aliás, ver como nos últimos anos o cargo de seleccionador alemão foi olhado de lado pela maioria dos grandes treinadores germânicos. Receio do peso do cargo sem os mesmos argumentos de outrora? Talvez. A verdade é que Low soube reinventar esses argumentos (entenda-se bons jogadores numa boa ideia de jogo). A Alemanha, partindo das bases, reformulou todo o edifício do seu futebol (das selecções jovens à principal) e recriou uma geração para a próxima década. Uma geração babilónica que incorporou a mais tradicional cultura mental germânica, mas que, em campo, deixou a sua marca pessoal, na maior imaginação que lhe incutiu em termos de estilo.
 
 
Espanha: “Messis S.A.”  
 
A Alemanha tem um trio de médios ou segundos avançados (Podolski-Ozil-Muller) que assusta pela velocidade criativa com que joga nas costas do ponta-de-lança: Klose, mas prevendo o jogo com a Espanha, o local do campo onde mais estou tentado de início a olhar é um pouco mais para trás e ver como irão os espanhóis agir (acção de cobertura) sobre o jogo de Khedira e, sobretudo, Schweinsteiger. Porque é aqui (no duplo-pivot de amplo alcance) que está o coração e motor da máquina germânica de bom futebol. Para os assustar (e obrigar a ficar mais na posição) a Espanha tem uma S.A. de Messis (Xavi, Iniesta, Fabregas e Villa) no sentido atlético-futebolístico do jogo.
Seria mais natural pensar em jogadores mais possantes para travar um panzer como Schweinsteiger? Não acho. Porque, nesse território, ninguém lhe ganharia. O segredo é levar o jogo para…outro território. O da bola na relva (onde todos temos o mesmo tamanho) e da conquista do…espaço em antecipação. Mas, claro, que aquela dupla germânica também conhece esses outros atalhos do jogo. Pode não conseguir depois entrar neles (como se ficasse com o corpo entalado no buraco que, no campo, os leva até lá) mas sabe onde eles estão e como os fechar.

 

 

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