Banhada a norte e a oeste pelo mar Báltico, a Estónia, com uma população de cerca de milhão e meio de habitantes, é o mais setentrional e pequeno dos chamados Estados bálticos que se formaram em 1918 após a queda do velho Império russo. Vizinha da Lituânia e da Letónia, viu, a partir de 1940, a sua bandeira integrar-se na antiga URSS. Dentro do imenso mundo soviético, a identidade estónia desvaneceu-se aos olhos do velho continente, apesar da proximidade da escandinava Finlândia, a nação mais próxima nas margens do Báltico.
Neste contexto, o futebol como em todas as nações das Balcãs, não despertou grandes emoções. Sem poder competitivo, apenas conhecendo a força como estilo, a Estónia, clubes e selecção, cresceu ignorada por parte das autoridades soviéticas, que nunca lhe dispensaram grande apoio monetário, ao ponto de na antigo Campeonato Soviético apenas figurar um clube estónio, o Sport Tallin, mas que nunca conseguiria passar da IIª Divisão.
Mesmo nesses tempos, porém, a Federação de Futebol da Estónia, fundada em 1920, não cancelou a sua inscrição na FIFA, datada de 1923, embora tivesse cessado, a partir dos anos 40, com o nascer do Império soviético, a sua actividade internacional. Como o vento frio que assola o seu território e gela os ossos, a sua inscrição ficou como que congelada até 1992, ano em que o novo Presidente da Federação Russa, Boris Ieltsin, decretou a restauração da independência da República da Estónia. De imediato, a sua selecção de futebol também voltou aos relvado, inscrevendo-se de imediato para disputar o apuramento para o Mndial-94. Tal como em todas as outras repúblicas do velho sistema desportivo soviético, foi um tempo de reconstrução, buscando-se por todos os lados jogadores de origem estónia com nível suficiente para reconstruir uma selecção capaz de competir internacionalmente. A sua primeira proeza seria um empate, 0-0, em La Valetta, frente a Malta, num grupo onde também estava Portugal, vitorioso nos dois confrontos, 2-0 e 3-0. O futuro futebolístico da Estónia estava lançado.
ARNO PIJPERS:
UM HOLANDÊS NO BÁLTICO

Observando jogar a selecção da Estónia podem-se detectar alguns traços do estilo que tornou famoso o futebol norte-europeu, baseado na força, face ás enormes limitações técnicas dos seus jogadores. Tecnicamente, no entanto, os futebolistas estónios exibem maiores qualidades. Tal como na arquitectura e nos antigos carros russos que povoam as ruas da humilde capital Tallin, a influência do antiga escola soviética permanece também no futebol jogado pela Estónia.
Do ponto de vista táctico, o onze sabe colocar-se em campo e embora assente o essencial do seu jogo na postura defensiva, nunca perde de vista os movimentos ofensivos, pelo que está longe de ser uma equipa que só se sente confortável atrás da linha da bola. O primeiro treinador a incutir este estilo e espirito foi o islandês Teitur Thordarson, que tomou conta da selecção no inicio dos anos 90. O contributo de Thordarson foi tal que, antes de sair para a Noruega, onde foi treinar o Brann Bergen, recebeu do Presidente da Republica da Estónia uma medalha como condecoração pelos serviços prestados.
Foi tendo como base o seu trabalho, que o holandês Arno Pijpers, antigo treinador da selecção holandesa Sub-16, tomaria, em Novembro de 2000, conta da selecção, após um período de transição regido por Tarmo Ruutli. Acumulando com o cargo de treinador do Flora Tallin, base da selecção, Pijpers tornou a equipa cada vez mais competitiva, ocupando neste momento o 174ª posto do Ranking FIFA.
Nos seus registos, a Estónia conta já com vitórias sobre a Bosnía e as vizinhas Lituânia e Letónia, mas, até ao presente, o grande momento do seu futebol reside no empate, 0-0, obtido contra a poderosa Escócia, no relvado de Tallin, em Dezembro de 1999, em jogo de apuramento para o Europeu-2000, depois de em Glasgow, ter perdido apenas por 3-2 após excelente exibição.
TALLIN, A CAPITAL DO FUTEBOL
Plantada nas margens do Báltico, a capital Tallin, antigo e importante porto europeu, abrigou, desde sempre, os mais fortes clubes estónios. Depois da era do velho Sport Tallin, então inserido na Liga russa, o primeiro clube estónio a participar, após a independência, na Taça dos Campeões Europeus foi, em 92/93, o Norma Tallin, eliminado na fase preliminar pelo Olimpia Ljubljana da Eslovénia (3-0 e 2-0). Desde que o Campeonato estónio voltou a disputar-se, em 1991, o titulo foi sempre, até 1999, para clubes de Tallin, emergindo como grande símbolo futebolístico nacional o FC Flora Tallin, orientado hoje pelo holandês Arno Pijpers, que também é seleccionador nacional. É ele que traça as linhas base do presente e futuro do principal clube da Estónia e sua selecção nacional. Um projecto que, afirma, está, naturalmente, longe de visar a conquista de grandes títulos.
Espalhados por todo o país, existem cerca de 25 pequenos clubes onde se podem procurar jovens futebolistas com talento,. O objectivo é descobri-los com 17 ou 18 anos e traze-los para o Tallin onde podem evoluir com melhores condições e tornarem-se, no futuro, figuras da selecção nacional. Trata-se já de uma estrutura profissional, mas os escassos recursos financeiros ao dispor não permitem sonhar muito alto. Sem grandes receitas, o dinheiro vem sobretudo da venda dos melhores jogadores para o estrangeiro, como sucedeu com Poom, Oper e Zelinski, vendidos para Inglaterra e Dinamarca. A contratação de Oper pelo Alborg, em 1999, constituiria mesmo a primeira transferência no futebol da Estónia a ultrapassar o milhão de dólares. Esta política de venda de estrelas, levou, no entanto, a que o Flora perde-se nos últimos anos o domínio da Liga estónia, conquistada em 199 e 2000, pelo Levadia Maardon. Ao invés, a selecção, á semelhança do que sucedeu com as geograficamente próximas nações escandinavas,
melhorou com o crescente ingresso dos seus melhores jogadores em ligas estrangeiras, com maior nível futebolístico.
MART POOM, O GUARDA REDES
E OS GOLEADORES OPER E ZELINSKI

Parente pobre do velho futebol soviético, suportando o seu jogo na condição atlética, a Estónia nunca deu grandes jogadores ao mundo do futebol. Em termos desportivos as suas grandes figuras sempre foram os nadadores olímpicos e, recentemente, o fabuloso Erki Nool`s, medalha de ouro do Decatlo nos Jogos Olímpicos Sidney-2000. Nos últimos tempos, porém, também o futebol foi, tenuamente, produzindo os seus pequenos heróis. Após Urmas Hepner ter sido eleito o futebolista do ano em 1992, as épocas seguintes viriam a consagrar como grande figura nacional o guarda-redes Mart Pooom, desde 96/97 na Inglaterra a defender as redes do Derby County.
Durante os jogos da selecção ele é, como facilmente se entende, face á superioridade da maioria dos adversários, um dos elementos mais activos. Apesar do bombardeamento que sofre em quase todos os jogos, Poom tem evitado muitas goleadas e realizado sucessivas grandes exibições, com defesas fantásticas, ao ponto de despertar o interesse inglês, após passar, em 1994, pelo FC Wil, da Suíça.
Formado no Flora Tallin, o gigante louro Mart Poom, 1,96 m, é um guarda redes muito ágil e seguro que raramente aposta em arriscadas saídas da baliza. Com excelente sentido posicional entre os postes, maturado após quatro épocas no agressivo futebol inglês, sabe orientar a defesa e encara com naturalidade os cruzamentos feitos para cima da sua área. Aos 29 anos, ele é, apesar do médio Kristal ser o jogador mais internacional, a principal bandeira e a alma da equipa.
Com o passar das épocas, surgiram outros valores de destaque, como o defesa Lemsalu e o avançado Reim, mas as outras duas figuras de verdadeiro nível internacional nesta selecção da Estónia são os dois avançados Andreas Oper e Indrek Zelinski, ambos nascidos no Flora Tallin e actualmente a jogar na Dinamarca, no Alborg. Juntos formam uma perigosa dupla, como já sentiu na pele a Holanda nesta fase de apuramento, quando em Tallin, esteve a perder por 2-1 até três minutos do fim, acabando depois por dar a volta ao marcador.
Impondo-se sobretudo pela velocidade, Oper, fisicamente muito forte, joga no Alborg desde 99/2000. Embora na ultima época tenha ficado muita vezes no banco, continua a viver sempre com a baliza nos olhos. No inicio desta época passou a ter a seu lado um velho amigo com o qual jogou desde jovem em Tallin: Zelinski, o melhor marcador na história da selecção, com 14 golos, exímio em surgir nos espaços vazios e a antecipar-se aos defesas.