Estranha arte de roubar espaços

13 de Março de 2010 17:56
Ficar 10 contra 11 não significa, por si só, inferioridade numérica. Estranho? Isto não é matemática. É futebol, algo muito mais complicado.

 

O sistema de marcação não é, por si próprio, um esquema de jogo, mas tem uma grande influência na sua expressão em campo. Mais do que impedir a outra equipa de jogar, é a forma de controlar o jogo e os espaços quando a bola está na posse do adversário. Nesse jogo estratégico de “fechar espaços”, uma equipa pode optar por várias formas de marcação, mas o mais importante é fechar caminhos para impedir que os jogadores contrários descubram a baliza. As marcações individuais não têm essa visão colectiva da colocação defensiva. São, por definição, uma mera perseguição a jogadores adversários. Ou seja, quem marca “ao homem” corre por onde o adversário quer. A outra forma de marcação (a chamada marcação “à zona”) tem um conceito diferente, no qual primeiro do que o jogador, está o espaço. Assim, o grande segredo passa por ocupar primeiro as parcelas (zonas) de relvado no qual o adversário pode entrar e criar perigo. Os últimos jogos europeus de Benfica e Sporting foram, cada qual no seu estilo, um espelho perfeito deste lado estratégico das coberturas defensivas no futebol.
O jogo veloz e ofensivo do Benfica de Jesus sentiu na pele essa redução do espaço no jogo contra o Marselha. Mais do que fazer um jogo defensivo, caindo em cima dos jogadores benfiquistas, o onze gaulês lia primeiro os espaços por onde eles podiam entrar e, entrando neles, reduziam-no. Ou seja, de repente, os espaços de relva “encurtavam-se” e a explosão de Di Maria ou Saviola, as fintas de Aimar e os remates de Cardozo, deixaram de encontrar tempo e relvado para aparecerem no jogo. A dimensão europeia tem exigências que o quadro competitivo português ainda não tem. No fundo, traduz-se na redução do tempo e espaço para executar. As grandes equipas do futebol moderno dominam essas bases que são, no jogo, quase como um contra-sistema.
 
Em Madrid, o Sporting, noutro estilo, também demonstrou a importância deste conceito. Também sem marcações individuais, fechou todos os caminhos aos terríveis avançados do At.Madrid, como Aguero, membro da família “maradoniana”. O 0-0 foi construído durante mais de 70 minutos a jogar reduzido a 10 jogadores (após a expulsão de Grimi). Pode parecer estranho, mas no jogo, ficar 10 contra 11, não se traduz automaticamente por ficar a jogar em inferioridade numérica. Estranho? Nem tanto. Porque o que em rigor acontece nestes casos é apenas ficar com menos um jogador numa determinada zona do terreno. Isto é, fica-se, em geral, com menos jogadores no ataque. No caso em concreto, Carvalhal reagiu logo puxando Veloso para lateral e…recuando Mourinho. Desta forma, ficou logo outra vez com a defesa e seus sistemas de marcação novamente “completos” a fechar espaços. Nesse território recuado continuou com os mesmos jogadores. Onde, pelo contrário ficou em inferioridade numérica foi no outro lado do território (relvado), o atacante. Passou então a fazer um jogo essencialmente a tentar “fechar espaços”. Com precisão cirúrgica foi tapando caminhos e escondendo a sua baliza. Como guia espiritual deste “sangue frio” defensivo, Pedro Mendes. Um jogador que serena a equipa em cada bola que toca ou em cada…espaço que entra.
O futebol é, em termos de choques em campo, uma sucessão de duelos entre defender e atacar. Tende-se apenas a entender a criatividade quando ligada ao ataque (e aos avançados). Não é justo. Os defesas (e sua forma de defender) também podem ter imaginação nessa tarefa. É a chamada “criatividade defensiva”. A estranha “arte de roubar espaços” até quase fazer desaparecer a relva da vista. 
 
 
Ponto final
 
 
Talvez o melhor título fosse antes ponto de exclamação. E de interrogação, juntos. Tentando expressar, ao mesmo tempo, as sensações que ficaram após o jogo do FC Porto em Londres. 5-0 é um resultado de por os cabelos em pé a história azul-e-branca. O mais grave, porém, é que, no actual momento portista, ele é muito mais do que um mero resultado. Simboliza o beco em que caiu o FC Porto e as dúvidas que se lhe colocam para construir o futuro. O presente negro foi ditado por um plantel desequilibrado desde o início. Não é, no entanto, um problema de soluções. É antes um problema da qualidade das soluções.
Neste jogo, um nome e posição em concreto: Fernando, o médio-centro defensivo. Sem ele, podia jogar, respeitando hábitos e natureza dos jogadores, Tomas Costa, Guarín ou Meireles. Jesualdo optou antes por adaptar um defesa-central, Nuno André Coelho. Mais perturbante do que a opção em si, é ver que ela não teve como princípio manter a auto-determinação de jogo da equipa, mas antes porque era a melhor forma de travar o “jogo frontal” do Arsenal.
 
Cada jogo obedece, claro, às suas “nuances estratégicas” mas esta opção é mais do que isso. Porque altera a personalidade da equipa. Um “plano de jogo” a partir do adversário. Nuno André Coelho mais do que médio próximo dos outros médios, foi um médio próximo dos…defesas, o seu lugar afinal.
Chamar “fim de ciclo” a este momento azul-e-branco é redutor. Porque nas últimas épocas também Jesualdo tivera de refundar as bases da equipa após a saída de jogadores-chaves. A diferença deste novo fim de ciclo é que ele é determinado por uma série de jogadores sem qualidade para assegurar essa reinvenção de alto nível futebolístico. Nesse caso, mesmo depois de simples 90 minutos, só faz mesmo sentido o ponto final. A todos os níveis.

 

 

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