Existem jogadores que pedem a bola no pé. Existem outros que pedem a bola no espaço. Quando essa diferença se verifica no avançado mas influente do onze, essa alteração pode, por si só, mudar toda a forma de jogar da equipa. No fim do jogo em Alvalade, Vítor Pereira lamentou como a sua equipa jogara na maioria do tempo: “gosto de ver mais posse de bola, com transições mas jogo mais apoiadas, não aprecio esta toada de vaivém”
Entendo a frustração de Vítor Pereira por não ver a equipa espelhar em campo a sua filosofia de jogo, mas a verdade é que, como já referi nesta página várias vezes, nunca revi neste FC Porto, por definição, uma chamada «equipa de posse» (como era com Villas-Boas). Mas também não é uma equipa de «transições rápidas» (como era com Jesualdo). Estará num ponto táctico intermédio entre as duas, o que, mais do que a opção do treinador que «quer mais posse», resulta das características dos jogadores, ou melhor de um jogador: Hulk.
É verdade que ele já existia antes, mas então não devorava os movimentos atacantes como hoje o faz, pois antes coexistia com outro avançado com igual poder de influência sobre o que resto da equipa fazia nas suas costas quando saia com a bola desde trás. Ou seja: uma coisa é o avançado referência pedir a bola no pé, de costas para a baliza e jogar em apoios (que promovem a manutenção da posse para construir o ataque) devolvendo-a aos médios ou alas e girando a seguir ele próprio para a área (Falcão). Outra coisa, é ver esse avançado-referência em vez de pedir bola no pé, pedi-la logo metida num espaço livre onde, com a sua velocidade, pode ir buscar à frente dos adversários.
Perante isto, a equipa, os jogadores que pegam na bola atrás, em vez de jogarem curto e apoiado (em posse) na construção, metem logo a bola na frente, saltando a formalidade do passe/posse a meio-campo. Surgem, então, as «transições rápidas». Umas vezes funciona, outas não, mas como ideia confunde a equipa e mata a aplicação do modelo de jogo preferencial.
Sente-se isso também no seu jogador de maior cultura de posse, Moutinho. Quando recuava a pedir o passe curto, abria os braços a pedir a bola que saia pelos laterais, mas logo a seguir, vendo que a opção o ignorava e era um passe logo, deixa cair os braços em sinal de desgosto (como pensando, “não é assim que a gente joga”)
Três treinadores depois, o FC Porto permanece em 4x3x3. Basta, porém, mudar uma referência-chave para o modelo (ou condições de aplicação) alterar-se completamente. Só percebendo esta mudança de circunstâncias, o jogar do FC Porto de Vítor Pereira poderá, em vez de forçar a sua mudança de natureza, adaptar-se às novas realidades e buscar (treino e jogo) uma solução táctica-dinâmica mais equilibrada/consensual que, em campo, não torne vários jogadores (sobretudo médios-centro) quase como estranhos dentro da sua própria casa táctica.