
No inicio do ano de 1996, a ponte que se ergeu sobre o rio Sava, para voltar a ligar a Croácia á Bósnia, procurava simbolizar uma passagem do passado para o futuro, ligando um pesadelo recente a uma história secular, que cruzou a península balcânica, ocupando onde mais tarde se ergueria a Jugoslávia, e onde as viagens de uma bola de futebol iriam servir, durante muito tempo, para unir os olhares morenos das diferentes etnias que nele habitaram.
Foi em 1918, depois de quatro anos de lutas e a primeira guerra mundial, com o fim do império austro-hungaro que se formou um primeiro Estado conjunto dos Eslavos do Sul –significado da palavra jugoslavo (jug=sul), chamado Reino dos Sérvios-Croatas-Eslovenos. Em 1945, após a segunda guerra mundial, nasceria sob a tutela quase paternal do Marechal Tito, a Republica Federal Popular da Jugoslávia, que englobou a Sérvia, Croácia, Eslóvénia, Bósnia Herzegovina, Macedónia e Montenegro.
A Jugoslávia manteve-se unida durante 70 anos, absorvendo as diferenças e rivalidades étnicas entre os vários povos das balcãs. Com a morte de Tito, esta utópica união despareceu, desintegrada numa guerra fraticida, que, com ódio, devorou a coexistência multi-étnica, sob a mesma bandeira.
O futebol coexistiu por todo este ambiente. Em Belgrado, Beograd, vila branca, em sérvio, capital da Sérvia e da ex-Jugoslávia, cidade fundada na antiguidade pelos celtas, mora o clube mais emblemático da história do futebol balcânico: o Crvena Zvezda, Estrela Vermelha, em sérvio, fundado em 1945, na euforia do pós-guerra por um grupo de estudantes da Universidade de Belgrado, combatentes e defensores da velha união. Ao longo de meio século, passaram por ele, os melhores jogadores jugoslavos de todas as épocas, e que a partir de 1963, passaram a ser as estrelas do novo estádio, o chamado Marakana sérvio, construído nos terrenos onde antes morava o Jugoslavija, modesto clube da Belgrado de antes da guerra.
SEKULARAC: As fintas da pequena serpente

Viviam-se os tempos existencialistas do pós-guerra. Nesses remotos dias onde a velha união de povos eslavos ainda se enquadrava no sentido da vida, o futebol encontrava a atmosfera ideal para gerar os seus primeiros talentos, de fino recorte técnico, fieis aos ideais estéticos da escola balcânica. Nos distantes anos 50, o Estrela Vermelha rivaliza com os croatas Hajduk Split e o Dinamo Zagreb, pelo domínio da Liga jugoslava. Jogavam então no onze de Belgrado, o guarda redes bailarino Vladimir Beara e o avançado goleador Bora Kostic, que regista a notável marca de 534 golos em 577 jogos com a camisola do Estrela Vermelha, tendo 157 sido obtidos em 256 jogos da Liga jugoslava.
Mas as grandes estrelas eram os reais e mágicos maestros, Dragoslav Sekularac e Rejko Mitic, dois génios do meio campo.
O passar do tempo imortalizou Sekularac, o popular Sekki, como o símbolo supremo dos anos 50. Era um pequeno artista driblador. Furava por entre os adversários como quem passava por entre os pingos da chuva. Dos seus pés saíram infinitos passes de morte para Kostic. Tinha um carácter indomável, que muitas vezes arrastava-o para conflitos com árbitros, adversários e até próprios colegas, acabando suspenso por 18 meses após agredir um árbitro num jogo com o Radnicki. Mais que pelos golos, é recordado pelos seus mirabolantes dribles, um mistério indecifrável para os adversários que nunca descobriram forma de o travar.
Mitic era um senhor dos relvados. O verdadeiro homem equipa, Durante as 13 épocas que jogou no Estrela, foi capitão em 11, fazendo 572 jogos e marcando 296 golos. Foi 59 vezes internacional pela Jugoslávia.
DRAGAN DZAJIC:
De lateral esquerdo a director desportivo

Cada época, teve os seus jogadores símbolos, mas nenhum conseguiu adquirir a dimensão de Dragan Dzajuic, um jogador intemporal, um filósofo com a bola nos pés a quem a imprensa britânica chamou Magic Dragan, após a su exibição contra a Inglaterra na meia-final do Europeu-68. Estreou-se na primeira equipa do Estrela Vermelha em 1963, com apenas 17 anos, jogando a defesa esquerdo, o seu posto de raiz. Aos 18 anos já era internacional. Entre 64 e 79, fez 85 jogos pela Jugoslávia, marcando 23 golos. Esteve 12 épocas no Estrela, conquistando 5 campeonatos e 4 Taças. Foi o homem que mais jogos fez pelo Estrela, 587, marcando 285 golos. Finda a carreira de jogador, tornou-se director desportivo do seu Estrela Vermelha. Diplomada em economia e comércio, revelou-se um astuto dirigente, principal mentor, em meados dos anos 90, do chamado projecto Horizonte 2005, alicerçado na construção de 6 novos relvados, junto do Estádio Marakana, para redescobrir o talento inato para o futebol dos jovens jugoslavos.
ANOS 70:
Proezas Europeias

Representante de um estilo de futebol técnico e criativo, o Estrela Vermelha era respeitado por toda a Europa. O seu nome era sinónimo de bom futebol. Apesar dessa fama, só nos anos 90, atingiria a coroa europeia. Antes, porém, já deixara as suas marcas em jogos memoráveis que estão registados a letras de hora na história do futebol europeu. Foi o caso da fabulosa exibição em 73/74, contra o Liverpool, derrotado em Anfield Road, 2-1, pelos ilusionistas de Belgrado.
Em 1979, guiados pelo virtuosismo de Vladimir Petrovic, -o homem que mais jogos europeus fez pelo clube, 50- o Estrela atinge a final da Taça UEFA, após afastar o Dinamo Berlim, Gijon, Arsenal, West Bromwich e Hertha de Berlim. Nos jogos decisivos, frente ao Borussia Monchengladbach, o futebol da técnica não conseguiu contornar o futebol força, apesar do equilíbrio registado, 1-1 e 0-1. Para Dusan Savic, médio centro desse histórico onze, hoje director de marketing do clube, essa foi a melhor equipa da história do Estrela Vermelha. Penso que esse onze de 79 era mesmo superior ao que foi campeão europeu em 91, que também era muito forte, mas com grandes diferenças entre as estrelas e os outros. A nossa equipa era mais homogénea e com maior força colectiva.
Para a história aqui fica a famosa linha de 1979: Stojanovic; Jovanovic, Jovin, Jurisic, Miletovic, Muslin; Milosavljevic, Petrovic, Savic, Blagojevic e Sestic. O treinador era Stankovic.
Um Sistema a leste
O futebol jugoslavo, produto de um cruzamento social e político com os regimes comunistas, tinha, no entanto, personalidade própria, que, permitia, por vezes, a entrada, pelo buraco da fechadura, de influências além fronteiras. Assim, o controle feito pela Federação de Futebol da Jugoslávia para segurar os seus melhores jogadores tinha um estranho limite. Até aos 25 anos, os clubes não os podiam vender para fora do país. Ultrapassada essa idade, todas as transferências eram permitidas.
MILJAN MILJANIC:
O grande técnico do futebol jugoslavo

Terra onde o futebol é de culto, a Jugoslávia ofereceu ao mundo um conjunto de grandes treinadores que muito contribuíram para o desenvolvimento técnico-táctico do jogo. Entre muitos, é pacífico eleger Miljan Miljanic como a suprema referência.
Nascido em 1930, na Macedónia, jogou em todas a categorias do Estrela Veremelha. Desde os juvenis até á primeira equipa. Finda a carreira, em 1960, com apenas 30 anos, tornou-se treinador das camadas jovens do clube. Durante 14 anos, de 1960 a 1974, Miljanic foi a grande alma do Estrela, do qual seria depois treinador principal, vencendo 5 Ligas e 4 Taças da Jugoslávia.
Era um cavalheiro do futebol europeu. O seu prestígio levou-o a assinar, em 1974, pelo Real Madrid, passando depois pelo Valência. Treinou a selecção jugoslava em dois ciclos distintos, 73/74 e 79/82, levando-a aos Mundiais de 74 e 82. Andou ainda pelo Koweit e pelos Emiratos Árabes Unidos, onde ganhou fama e muito dinheiro. Hoje é um dos principais instrutores dos cursos de treinadores da FIFA.
Campeões Europeus em 1991:
O ÚLTIMO POEMA DOS ARTISTAS DE BELGRADO

Maio de 1991. Em Bari, na Itália, onze artistas, jogando um futebol técnico e aguerrido, conquistam a primeira Taça dos Campeões na historia do seu clube e do país que representam: o Estrela Vermelha da velha Jugoslávia. Nessa equipa memorável jogam vários etnias do mosaico balcânico: Sérvios, sobretudo, mas também jogadores da Bosnia, da Macedonia, como Pancev, do Montenegro, como Savicevic, e, até da Croácia, terra da grande estrela emergente, Prosinecki. Desde a sua origem, o Estrela Vermelha foi um símbolo dos que acreditava, na utópica união jugoslava. Nos seus onzes imperava um mágico cocktail étnico, ao contrário do Dinamo Zagreb, era uma espécie de bandeira croata.
Dois meses, no entanto, após a vitória de Bari, o país que representavam já não existia mais, pulverizada pela mais sangrenta guerra que a Europa conheceu desde o fim da Segunda guerra mundial. Também eram muitos os que acreditavam nessa união jugoslava dentro de um relvado de futebol. Todos os que viram jogar aquela a fabulosa selecção jugoslava que despontou nos finais dos anos 80 e se encontrava, em vésperas do Euro-92, no auge das suas capacidades, partilham, sem o drama da guerra, de uma visão semelhante. Não se apagam, porém, séculos de história em comum, com a mesma facilidade com que Stojkovic, um símbolo do Estrela que, ironicamente, jogou pelo Marselha nessa final, marcava livres em folha seca á entrada da área.
Para conquistar a Europa, eliminaram o Grasshopers, Glasgow Rangers, Dinamo de Dresden e o Bayern Munique, batendo, na final, o Marselha, no desempate por penaltys.
Este título europeu correspondeu, também, ao último jogo dessa fantástica equipa de Belgrado, treinada por Ljudomir Petrovic, sucessor de Sekularc, que pouco antes partira para o México, sob a direcção geral de Dragan Dzajic, velhas glórias do clube. O único estrangeiro era o central romeno Belodedic, que anos antes também fora campeão europeu, pelo Steaua. Ao lado Savicevic, o mundo descobriu o talento de jovens estrelas como Mihajlovic, Jugovic, Pancev, Prosinecki e Ilic, que, em breve iriam passear a sedutora classe jugoslava nos relvados de grandes equipas europeias.
Discípulo da pura escola eslava, com um estilo, digamos, sul americanizado, resultante, talvez, também de uma sublime miscegenação de raças –uma dádiva para o futebol- Petrovic impôs um jogo de toque curto, apoiado, de vocação ofensiva, temperado pela inata fantasia dos seus jogadores.
DEJAN SAVICEVIC:
O Génio do Montenegro

O seu futebol tina a beleza de um bailado cigano. Rebelde e sedutor, dançava com a chuteira sobre a bola, confundindo-a com simulações, para depois lhe ensinar todos os segredos da técnica e da picardia futebolística.
Chegou ao Estrela em 1988, com 22 anos, vindo do Buducnost. Jogou 4 épocas em Belgrado, entre 88/89 e 91/92, realizando 72 jogos e apontando 23 golos. Em 1992, com 26 anos, foi contratado pelo Milan de Berlusconi e rumou ao Calcio.
Em Itália, muitos não compreenderam o seu futebol, que parece saído da Lâmpada de Aladino. Passa 90 minutos aparentemente adormecido, mas num ápice, quando espicaçado, emerge magicamente e inventa três jogadas fantásticas que resolvem o jogo. Em toda a sua carreira, por todos os clubes, a nobreza dos seus movimentos exigia que jogasse sempre com o nº10 nas costas, o número dos verdadeiros maestros, como Savicevic.