EURO 2004: A Magia checa e o renovada força norte europeia

21 de Junho de 2004
Analisando tacticamente a atraente mescla nórdica entre a técnica e o músculo, expressa na leveza da Dinamarca de Gronjkaer e nas diabruras da Suécia de Larsson e Ibrahimovich, enquanto que a Alemanha refaz os seus conceitos e a Republica Checa prova como a magia ainda existe no futebol.

SUÉCIA: 4x4x2 com losango

Partindo de uma clássica defesa a «4» (Nilsson, Mellberg, Jakobsson, Edman), a Suécia abre no meio campo desenhado o losango com apenas um médio defensivo clássico (Linderoth), dois alas com grande vocação ofensiva, estilo cursores de faixa (Ljungberg, à esquerda, e Wilhelmsson, à direita) e um médio central fazendo o rombo ofensivo (Andersson ou, como na segunda parte frente à Itália, Kallstrom, que é originariamente mais defensivo, mas que possui grande cultura táctica e capacidade física, fazendo, assim, qualquer lugar do meio campo com igual eficácia). No ataque, uma das duplas de pontas-de-lança mais atraentes e perigosas do torneio: Larsson-Ibrahimovich, que, na fase final do jogo frente à Itália, com todo o onze pressionando a Itália em direcção à enorme onda amarela que cobria as bancadas atrás da baliza de Buffon, teve a companhia dos outros avançados convocados (Allback e Josnon), passando a jogar num fantástico 3x4x3, com Larsson nas costas do trio mais atacante. Uma postura empolgante compensada com o golo “extra-terrestre”, com o calcanhar, todo no ar, de Ibrahimovich.

REPUBLICA CHECA: 4x4x2 com losango ou 4x1x3x2

A mágica orquestra de Nedved revela grande capacidade de desdobramento táctico, camuflando, muitas vezes, um dinâmico 3x4x3, atrás da máscara do 4x4x2, sobretudo quando Poborsky recua para lateral direito, mas ao mesmo tempo, com liberdade para, na fase atacante com o onze de posse da bola, subir no terreno, e, como um extremo, transformar-se num verdadeiro extremo, posição em que começa os jogos, surgindo Grygera na direita do sector defensivo. Como centrais, Ujfalusi-Bolf (ou Jirosek). Na lateral esquerda, Jankulovsky, técnica, força e virtuosismo. Um jogador completo, a defender e a atacar. No losango do meio campo, Galasek é o médio volante recuado, Nedved abre na esquerda, flectindo depois no terreno, Poborsky na direita, e Rosicky, nº10, organizando no centro desde posições recuadas. Um 4x4x2 de grande criatividade que, frente á Holanda, a perder, adquiriu um design com duas linhas, a primeira com Galasek a fechar, e a segunda com Smicer sobre a esquerda, passando Nedved para o centro, junto de Rosucky na organização de jogo, ficando o flanco direito aberto, como um corredor, para as subidas de Poborsky. No papel, ficava, assim, desenhado um esquema de 4x1x3x2. Na dinâmica atacante, surgia um deslumbrante 3x1x4x2. No ataque, um ponta de lança gigante, pouco móvel, mas capaz de derrubar uma montanha, Koller e um avançado de rasgos, grande capacidade de remate, espírito lutador, velocidade e desmarcação, Baros. Uma dupla temível que, apoiada por um meio campo assombroso, faz da Republica Checa a equipa mais atraente deste Euro-2004.

ALEMANHA: 4x2x3x1 ou 4x3x1x2

Sem os mesmos valores individuais do passado, Voller renunciou ao tradicional 3x5x2 germânico com laterais ofensivos e passou a apostar preferencialmente em sistemas de quatro defesas. Em nome da consistência defensiva, no primeiro jogo frente à Holanda, adoptou a variante mais defensiva do sistema, prescindindo de um ponta de lança para inserir mais um médio polivalente, num esquema de 4x2x3x1, com dois recuados (Hamann e Baumann), atrás de um trio de médios muito atento nas marcações sobre os flancos (Schneider, na direita e Frings, na esquerda, ao mesmo tempo fechando a defender e dando profundidade a atacar, destacando-se sobretudo neste papel Frings, a nota mais positiva em termos de dinâmica táctica desta Alemanha, num flanco onde também surge, em triangulações oportunas, a maior promessa do actual futebol alemão: o lateral esquerdo Lahm, que embora só tenha praticamente pé direito, enche a faixa canhota, a atacar e a defender, com força, técnica e sentido colectivo do jogo. No centro, procurando remates de 30 metros ou tentando organizar jogo e fazer o chamado último passe, jogando numa posição mais adiantada do que faz no Bayern Munique, o melhor jogador alemão da actualidade: Ballack. No ataque, a principal referência chama-se Kuranyi, força atlética, técnica e remate, mescladas num talento goleador nascido no Brasil, que, no sistema de 4x3x1x2, utilizado frente á Letónia, tem a seu lado Bobic. Como principal revulsivo na dinâmica do meio campo, destaca-se o jovem Schweinsteiger, sobre a ala direita, grande cultura táctica a defender e sentido de remate e passe a atacar.

DINAMARCA: 4x4x2 em linha

Com extremos no relvado, todo o terreno, já se sabe, parece maior. A principal prova desta realidade neste Euro-20004, chama-se Dinamarca, através dos extremos-flanqueadores Gronjkaer, Jorgensen ou Rommedhal (enquanto no banco ainda está Lovenkrands). Basicamente, o sistema dinamarquês parte do clássico 4x4x2, controlado por um moderno nº10, estilo 9,5, como diria Platini, com remate e passe: Tomasson, apoiado na frente de ataque por Sand, avançado-centro tradicional. Na acção defensiva, sobre o meio-campo, o equilíbrio entre-linhas é garantido pela inteligente dupla Poulsen-Jansen ou Gravesen, um gigante que regressou à equipa contra a Bulgária. Nas alas, destaca-se a polivalência dos extremos em poder jogar em ambas as faixas, embora Gronjkaer seja naturalmente um jogador da ala direita e Jorgensen, embora destro, da esquerda. Rommedhal, o mais veloz do grupo, joga sobre a direita, com capacidade para ir à linha ou penetrar na área em busca do remate ou da assistência mortal. No sector defensivo, principal nota para a polivalência de Helveg, como lateral direito ou central, e a discreta eficácia de Laursen, central e N.Jensen, lateral esquerdo. Um jogador a seguir com muita atenção é também o outro central, Henriksen, atento na marcação, poder de antecipação, forte no jogo aéreo e sereno em sair a jogar com a bola para a entregar à dupla de trincos. Uma equipa sedutora a provar, mais uma vez, a subida técnico-competitiva do futebol nórdico.

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