Após dois anos de experiências em busca do melhor sistema táctico, só possíveis devido ao facto de Portugal não ter que disputar a fase de apuramento, Scolari chegou á fase final do Europeu-2004 convencido que o melhor esquema para o onze português seria o compacto 4x2x3x1 com dois médios defensivos, alas, um médio centro e um ponta de lança. Repassando todo o percurso de construção do onze luso, conclui-se que se perdeu demasiado tempo em ensaios utópicos (desde o impensável 3x5x2 do primeiro jogo frente á Itália até a testes em 4x4x2 frente ao Kuwait ou Kasaquistão), só possíveis devido ao desconhecimento de Scolari do futebol português e europeu na sua globalidade. Assim, em vez de ter testado o 4x4x2 frente a adversários fortes, Scolari insistiu no 4x2x3x1, sistema no qual o onze ganhou automatização de jogo, ao ponto de, neste momento, apesar de por vezes ele ser utilizado em situações de recurso, a equipa não dispõe, em campo, de mecanização colectiva suficiente para utilizar sistemas de dois pontas de lança como o 4x4x2 como principal ponto de partida na abordagem de um jogo frente a adversários fortes como os presentes nesta fase final. Desta forma, o 4x2x3x1 é a imagem táctica de referência do Portugal de Scolari, um sistema apenas retocado, de jogo para jogo, em pequenos detalhes de dinâmica ou, em função dos resultados e das características dos jogadores, no plano das opções individuais. Com a alteração de três jogadores chave (o lateral direito, Paulo Ferreira por Miguel, o central, Fernando Couto por Ricardo Carvalho, e o médio centro, Rui Costa por Deco) a equipa cresceu táctica e tecnicamente, mas seria no jogo frente á Espanha, sempre em 4x2x3x1, onde surgiu duas novas alterações (o extremo Simão Sabrosa por Cristiano Ronaldo e o ponta de lança Pauleta por Nuno Gomes), que a selecção encontraria a melhor fórmula para desenhar o seu futebol apoiado e de toque curto, descobrindo, finalmente, um circuito preferencial de jogo que atingiu o seu ponto mais alto, nos quartos-de-final, frente ao 4x4x2 da Inglaterra de Eriksson.

O grande segredo, acima dos sistemas tácticos, reside no tal triângulo da vida no futebol: velocidade, técnica e condição atlética. Três atributos exibidos por Portugal em pleno relvado da luz, emoldurados num sistema táctico dinâmico de 4x2x3x1, com Figo a entrar pela esquerda e Cristiano Ronaldo pela direita, mas que de inicio teve a particularidade táctico-posicional defensiva com o recuo de Costinha para mais perto da dupla de centrais Ricardo Carvalho-Jorge Andrade, na intenção de vigiar mais de perto os dois velozes avançados ingleses Owen-Rooney. Embora sofrendo um golo, devido a essa alteração posicional que, numa dado momento do jogo, colocou Costinha em rota de colisão com o mesmo espaço dos centrais, nele fazendo um atraso de cabeça mal calculado, Portugal soube reagir e frente a uma Inglaterra muito recuada, com o meio campo em linha e uma distância muito longa (quase 30 metros) entre o meio campo e o ataque, inserindo nesse espaço intermediário, o outro triângulo mágico: o dos médios Costoinha-Maniche-Deco. O facto de a quinze/vinte minutos do final, Scolari, em desespero, ter resquematizado a equipa em 4x1x3x2, lançou novamente o debate entre os sistemas de um dois pontas de lança. Assustado com a desvantagem no marcador (0-1), esta alteração teve como base não a saída de um extremo (como no primeiro jogo frente á Grécia), mas sim a de um médio defensivo (Costinha), passando Portugal a jogar só com um trinco, mantendo, ao mesmo tempo os dois alas, apoiados no centro pelos maestros Rui costa e Deco, que, perto fim recuou para lateral direito, após a saída de Miguel. No ataque, a dupla Nuno Gomes-Helder Postiga. O debate entre o 4x2x3x1 e o 4x4x2 carece, no entanto, de consistência face á falta de mecanização colectiva do onze para jogar em sistemas de dois pontas de lança, só o tendo feito, frente á Inglaterra, com o jogo “tacticamente” partido, numa altura em que os ingleses jogam quase todos atrás da linha da bola, segurando deseperadamente a vantagem. Desta forma, mesmo não sendo em teoria o melhor sistema para desenhar bom futebol (esse é, como parece claro, o 4x4x2 em losango), Scolari deverá continuar a ter o seu mecanizado 4x2x3x1 como sistema de referência, apostando nos alas Figo e Cristiano Ronaldo, a “fantasia” musculada, para construir o seu circuito preferencial de jogo, onde a velocidade, a técnica e a condição atlética terão de continuar a constituir o triângulo da vida dentro das “quatro linhas”.