Embora tenha refinado tecnicamente o seu jogo, esta Inglaterra ainda denota, no plano táctico, alguns traços do seu velho estilo de passes em profundidade. Continentalizou a sua forma de defender, mas, na fase ofensiva, ainda opta preferencialmente pelo chamado “jogo directo” para a sua temível dupla de avançados, onde, no lugar do tradicional ponta de lança peitudo e cabeceador, surge agora uma dupla de pequenos velocista, Owen-Rooney, imparáveis quando lançados, bola rente à relva, em contra-ataque, nos espaços vazios, Tacticamente, Eriksson continua fiel ao seu 4x4x2, histórico esquema de referência do futebol inglês, agora lapidado à luz dos conceitos continentais de forma a torná-lo mais competitivo a nível internacional frente a selecções mais matreiras, daquelas que fazem circular a bola de pé para pé, e que sempre irritaram o velho kick and rush, chuta e corre, britânico. O rosto mais continental desta Inglaterra destaca-se, sobretudo, na sua renovada postura defensiva, mais rigorosa nas marcações, com os laterais menos activos ofensivamente e mais atentos táctico-pocionalmente na cobertura dos flancos, praticamente só subindo quando a bola ultrapassa a linha do meio campo. No eixo, a tradicional possante dupla de centrais, Campbel-Terry (ou King), duas muralhas no jogo aéreo e no choque, mas algo duros de rins e sem jogo de cintura frente a avançados esquivos que lhes surjam em velocidade nas suas costas ou em acções de desiquilibrio. Durante todo o jogo, porém, o quarteto defensivo inglês raramente se desfaz, impondo Eriksson que a linha de «4» se mantenha sempre completa a toda a largura do terreno.
A velha tradição do meio campo em “linha”

Depois de continentalizar os conceitos defensivos ingleses, Eriksson tentou também, através da introdução do losango, incutir uma nova dinâmica ao meio-campo da Velha Albion. Falta, porém, cultura táctica ao futebolista inglês para jogar nesta variante do 4x4x2, pelo que, após algumas experiências fracassadas, o técnico sueco resgatou a velha tradição inglesa do meio campo em “linha”, com dois volantes centrais de contenção e dois alas-flanqueadores. Analisando os últimos jogos da selecção inglesa, podem-se detectar, no entanto, várias deficiências na dinâmica deste sistema, onde, desde logo, com Beckham encostado ao flanco direito, falta um clássico médio centro organizador de jogo. Desta forma, o homem que sobe mais no corredor central é Lampard, um jogador de grande inteligência táctica, com sentido ofensivo das movimentações, mas que tem, contudo, como principal missão, a cobertura defensiva. A seu lado, actua outro lutador, Gerrard, um box to box que, no sistema de Eriksson tem menos liberdade para subir do que no Liverpool, para além de, muitas vezes, ser forçado a ocupar o flanco esquerdo, zona que não é, indiscutivelmente, a sua e onde se situa, neste momento, o principal problema do meio campo inglês. Em princípio, seguindo a “linha” do sector intermediário, o jogador encarregue de abrir na faixa esquerda é Scholes, mas, durante todo o jogo, é constante a sua tendência para flectir no terreno e procurar as zonas mais centrais onde gosta de jogar, como faz no Manchester United, no papel de “rombo” ofensivo. Assim, com Scholes inadaptado à posição táctica, sem rotina de jogar na esquerda, a Inglaterra perde um dos seus jogadores mais criativos, o que, em termos ofensivos, é compensado pelas subidas do lateral Ashley Cole, uma espécie de cursor de faixa que, por outro lado, também sofre muito defensivamente, pois com a equipa desiquilibrada, sem cobertura na faixa esquerda do meio campo, fica muitas vezes demasiado exposto ás investidas dos extremos adversários. O flanco esquerdo poderá, desta forma, ser um dos principais pontos fracos por onde Portugal poderá perturbar a consistência defensiva da Inglaterra de Eriksson, bem composta na outra faixa do terreno, com a pequena sociedade Beckham-Neville.
Os passes de Beckham e os sprints de Rooney

Com a defesa a «4» sempre completa e o meio campo em “linha” partindo de posições recuadas, a equipa inglesa fica, no entanto, muito comprida em campo, com o espaço entre-linhas meio camp-ataque demasiado longo, pelo que, na hora de partir para o contra-ataque, recorre preferencialmente ao passe em profundidade para os seus dois velozes avançados. Na execução dessa estratégia, emerge, como principal arma, a partir do flanco direito, a fabulosa precisão de passe de Beckham. Na frente, deambulando entre os defesas, ou partindo de trás, como sprinters vagabundos, dois litle boys que parecem voar baixinho: Owen, embora longe da sua melhor forma, e Rooney, o novo fenómeno do futebol inglês, um pequeno Gascoigne para o bem e para o mal. Genial, veloz, lutador e rematador, mas, ao mesmo tempo, demasiado temperamental, dono de um carácter indomável que muitas vezes trai a magia do seu futebol. Apesar de algo parecidos na forma de jogar, ambos se complementam na perfeição. Quando um rompe pelo centro, o outro abre num flanco. Com jogadores destes, é perigoso defender alto, muito à frente, mas ao contrário de França, Suíça ou Croácia, Portugal possui a vantagem de ter centrais rápidos, para, mesmo em velocidade, conseguirem travar os velocistas ingleses.