Em Espanha, o problema ultrapassa em muito o treinador. É uma questão de falta de modelo de jogo. A selecção espanhola não tem estilo próprio. Ora joga em posse e circulação, procurando as faixas com extremos. Ora joga com pressing baixo apostando na transição rápida, sem flancos. Esta indefinição impede-lhe de conseguir ter uma filosofia de jogo capaz de permitir aos seus excelentes jogadores exprimir a sua categoria num cenário táctico-técnico adequado. Foi o que sucedeu, esta semana, na Suécia, Frente a um tacticamente primitivo onze sueco que surgiu em campo num rochoso 4x5x1 disfarçado de 4x4x2, prescindindo de jogadores mais perfumados como o veloz extremo Wilhelmsson ou o médio organizador Karlstrom, para escalar um meio campo de combate com Alexandersson, Linderoth, Svensson, Ljungberg e um possante segundo avançado, Alback, atrás de Elmander, ponta de lança. Fechou-se atrás e esperou o contra-ataque. Perante este cenário, Aragonês montou, em 4x4x2, um onze sem extremos (é perturbante para qualquer adepto do bom futebol ver Reys e Joaquin de fora) com quatro médios de perfil idêntico: Albelda, como pivot defensivo, Xavi procurando assumir as transições, Cesc, sobre a esquerda, e Angulo sobre a direita. Na frente, Torres e Villa corriam muito mas pensavam pouco. A perder desde os 10 minutos, perante oito/nove suecos atrás da linha da bola, a Espanha teve maior posse, mas nunca conseguiu fazer circular a bola com critério. Incapaz de dar profundidade pelas faixas, encurralou-se na zona central. Caso mais grave: O cérebro Cesc encostado à esquerda. Nessa posição, nunca entrou no jogo e acabou substituído ao intervalo por Iniesta. A Espanha perdia o seu cérebro e referências para colocar ordem no jogo. Adiantou cada vez mais as suas linhas, mas sem precisão na transição defensiva, foi permitindo contra-ataques perigosos aos cínicos suecos que, possantes fisicamente, dariam o golpe definitivo (2-0), num lance desse tipo.

O empate com a Macedónia, sábado passado, teve o efeito de provocar uma tempestade na mente do seleccionador inglês Steve Mcclaren que, quatro dias depois, surgiu na Croácia a jogar em 3x5x2, num sistema com três centrais (Ferdinand-Carragher-Terry). Sem qualquer rotina para jogar neste sistema, a equipa passou noventa minutos perdida em campo, deixou de ter flanqueadores (a base histórica do futebol inglês) e o trio de médios (Parker-Carrik-Lampard) apenas jogou pelos corredores centrais. Depois, o último sitio onde um treinador deve querer que Terry esteja na defesa, é descaído sobre um flanco a tentar travar um cruzamento, em vez de estar no centro, onde é imperial a cortar qualquer bola que surja na área. Mcclaren colocou Terry como central pela esquerda. O jogo pelas faixas dependia da subida dos laterais (Neville-Cole), mas sem rotinas para interpretar estes princípios de jogo, ficaram muitas vezes recuados, jogando a equipa quase em 5x3x2, muito lenta nas transições defesa-ataque. Uma estratégia aproveitada pela Croácia para dominar e ganhar.
Como a Escócia bateu a França

Após um período de crise, a Escócia ressurge na luta por chegar à elite do futebol europeu. A vitória sobre a França causou sensação, mas este aparente renascimento escocês não corresponde ao aparecimento de qualquer nova geração de talentos. A base continua a ser a mesma dos últimos anos. Foi o que sucedeu frente ao, digamos, aburguesado onze francês, contra quem Walter Smith ergueu um sólido 5x4x1, com cinco defesas nunca abrindo espaços. Nem os laterais subiam. Uma resistência defensiva interpretada por um quarteto de veteranos: Wier, 36 anos, Weir, 32, centrais, Alexander, 35 e Dailly, 32 laterais. Entre eles, espécie de quinto elemento, como terceiro central, Owell, 24 anos, com a missão de sair em pressing, para atacar o portador da bola gaulês quando este se aproximava da área. No meio campo, Ferguson era a referência defensival. Segura e passa muito bem a bola, soltando Fletcher como interior direito (apesar de no Manchester jogar como extremo) para apoiar o ataque. Nas alas, recuando a defender e lutando a atacar, Hartley (que no Hearts joga a médio centro) sobre a direita mas sempre com tendência para lutar pela bola no centro, e McCulloch, à esquerda, com liberdade para apoiar McFadden, o ponta de lança solitário, lutando entre Thuram e Boumsong. Desde o primeiro minuto se percebeu que ia ser um jogo muito longo para todos estes homens. Ninguém deixou respirar Henry, o trio de centrais meteu Trezeguet num colete de forças, os laterais e alas blindaram os flancos a Ribery e Malouda e a França jogou contra um muro. Depois, numa bola parada, Caldwell fez o golo do milagre a 24 minutos do fim. Até ao apito final, a resistência escocesa tornou-se épica. Quatro dias depois, foi jogar à Ucrânia com o mesmo onze, mas a clara derrota por 2-0, fez o Tartan Army regressar à sua realidade. O futebol, e as suas vitórias, podem ter vários rostos. O da Escócia não é, seguramente o mais atraente, mas é o que, indiscutivelmente, melhor o transforma num autêntico acto de heroísmo.