Este chaval é um caso sério: Fernando Torres. Há um ano, em Sunderland, na Inglaterra, fez o golo que valeu a conquista do Euro Sub 16. Este ano, no frio de Oslo, voltou a ser ele, com um toque mórbido e oportuno, a derrubar, na final, os gigantes germânicos e oferecer à Espanha mais um título do futebol juvenil, o Euro Sub 19, o troféu que faltava na vitrina de Iñaki Saez, o homem que ganhou tudo no chamado fútbol-base, na hora de partir para a Selecção «A».
Preparado desde o berço por Santiesteban, um homem que, mais uma vez, fica pouco na sombra das conquistas, uma espécie de pai para todos estes chicos fantasistas, e aprimorado na fase final por Saez, a selecção espanhola revelou um jogo solto, ofensivo e alegre, emoldurado numa qualidade técnica espantosa, a fiel imagem do renovado estilo que, nas últimas décadas vem caracterizando a revolução do futebol hispânico.
No plano táctico, Saez adopta preferencialmente um sistema dinâmico de 4x2x3x1, compacto na defesa e regido na zona do meio campo pelo pequeno patrão Iniesta, atrás da chamada linha de criação, composta por três chicos de grande imaginação e habilidade: Reyes, na esquerda, o estremo moderno que flecte no terreno e gosta de vir buscar jogo atrás, Sérgio, no meio, e Pina, mais aberto sobre a direita. Na frente, o fantástico Fernando Torres.
Tacticamente, não é nenhuma inovação. Congeminado com tempo, tranquilidade e método , ingredientes base para se preparar com sucesso qualquer projecto, o segredo do sucesso reside na lapidação técnico-táctica de toda uma geração de jogadores, desde os últimos dez anos. Muito experiente, Saez, velho lateral do Ath Bilbao – onde só jogam jogadores do País Basco – cresceu vendo o magnífico trabalho de Lezama, o viveiro de talentos donde saem a maioria das estrelas de San Mamés. Estudioso, ele sabe que é neste momento, quando a formação atinge o seu último nível antes do profissionalismo, que o estilo de uma geração de jogadores se molda em definitivo para o futuro.
Por isso, a Espanha pode continuar a acreditar nos seus muchachos.
COMO JOGA A NOVA ALEMANHA DE STIELIKE
Uma das novidades mais agradáveis deste Euro Sub 19, foi ver a Alemanha dispensar os pontapés longos e a procura do choque, para, num quadro de clara evolução técnica, passar a trocar a bola a meio campo, junto à relva, procurando triangulações, sempre em velocidade.
Será o nascer de uma revolução? Quem sabe. Neste contexto, há frases que, pela sua clareza, definem uma filosofia de jogo: “Uma selecção jovem nunca deve jogar à defesa!”. Quem olha para o banco desta Manschaft Sub 19 germânica e vislumbra Stielike, o seleccionador-chefe e autor dessa lapidar frase, e Hrubesch, duas lendas da grande RFA dos anos 80, um como líbero e outro como ponta de lança, entende, de imediato, o lema deste jovem onze germânico.
Apesar de serem um monstro do futebol mundial, a Alemanha nunca teve tradição de grandes conquistas a nível do futebol jovem. O exemplo da selecção Sub-19 que atingiu a final do Euro-98, contra a Irlanda (3-4 nas g.p), de onde saíram nomes como Deisler, Kehl, Timm, Hildebrand e Ernst, hoje todos internacionais «A», revolucionou, no entanto, esta forma de pensar. Quando se olha para o actual onze Sub 19, Stielike sente que ali pode estar a base da futura selecção «A», quem sabe até para 2006.
Tacticamente, a grande inovação residiu no romper com a dinâmica clássica do velho 5x3x2 que, com a bola, variava para 3x5x2, com laterais ofensivos. Com Stielike, neste Euro Sub19, a variação faz-se para 4x4x2. Desapareceu o líbero clássico, os laterais sobem menos, e a evolução faz-se com a subida para o meio campo de um elemento da inicial linha defensiva de «5» , na Final foi Lehmann, passando, assim, o onze a jogar em 4x4x2.
Entre esses novos panzerzinhos, estão o defesa-direito Voltz, já nos quadros do Arsenal e o avançado Kneissl, do Chelsea. Ao lado destes jovens emigrantes, moram o extremo Hanke, já chamado à primeira equipa do Schalke 04 e o médio tecnicista Trochowski, ambos sérias promessas.
Umas das críticas de Stielike ao sistema de formação germânica reside, porém, no estilo de jogo defensivo que a maioria dos treinadores das equipas juniores alemãs adoptam nas provas nacionais. Em contraste, este a sua jovem selecção revelou sempre uma postura ofensiva.
CINCO ESTRELAS PARA SEGUIR NO FUTURO
INIESTA
PAÍS: Espanha
POSIÇÃO: Médio centro
CLUBE: Barcelona B
IDADE: 19
CARACTERÍSTICAS: O pequeno patrão do meio campo. Um pé direito encantador, grande pulmão, classe no trato da bola, exímio a marcar livres, técnica no passe, assistências de morte e excelente domínio de bola com a cabeça levantada. Possui um pouco o estilo de Xavi, mas é muito mais rápido.
FERNANDO TORRES
PAÍS: Espanha
POSIÇÃO: Avançado-centro
CLUBE: Atlético de Madrid
IDADE: 19 anos
CARACTERÍSTICAS: Um grande avançado centro (Com 4 golos foi o artilheiro do torneio). À primeira vista, parece não participar muito no jogo, mas em cada bola que toca pressente-se o perigo a aproximar-se. Apesar da altura, é um rato de área a fugir às marcações, muito oportunista, mórbido e artístico. Tecnicamente refinado, joga com os dois pés e dribla em progressão com força e subtileza. Talvez o melhor jogador que o futebol espanhol produziu depois de Raul.
PIOTR TROCHOWSKI
PAÍS: Alemanha
POSIÇÃO: Médio
CLUBE: Bayern Munique (Junior-A)
IDADE: 18 Anos
CARACTERÍSTICAS: Nasceu na Polónia, mas naturalizou-se alemão. Campeão nacional júnior pelo Bayern Munique a época passada, é um médio dono de um pé direito estonteante. Lembra o estilo de Hassler com os seus dribles curtos, facilidade de remate de longe com ambos os pés e dinâmica de jogo.
MORITZ VOLTZ
PAÍS: Alemanha
POSIÇÃO: Lateral-direito
CLUBE: Arsenal
IDADE: 19 Anos
CARACTERÍSTICAS: Uma aposta de Wenger para o seu Arsenal. Actua sobretudo como lateral-direito, muito ofensivo, mas sabe abrir para o centro. É no flanco, porém, que melhor evidencia a sua potência, finta em força e vocação para atacar e rematar. Um perfil que encaixa melhor no sistema de 3x5x2. Por isso, em breve, estará, por certo, na selecção «A».
JERMAINE JENAS
PAÍS: Inglaterra
POSIÇÃO: Médio
CLUBE: Newcastle
IDADE: 19 anos
CARACTERÍSTICAS: É um médio elegante, feito nas escolas do Nottingham Forest, com bom toque de bola e que gosta de mandar no jogo, descaindo sobre a esquerda. Quando pisa as zonas centrais, é exímio a executar os chamados passes verticais, aqueles rompem pela defesa adversária e deixam o avançado isolado, num espaço vazio, na cara do golo. Fez 21 jogos na Premier League a época passada.
ESPANHA SUB-19: OS CAMPEÕES EUROPEUS 2002
MOYÁ GUARDA REDES, 18 MALLORCA B
RIESGO GUARDA REDES, 18 REAL SOCIEDAD
ZUBIAURRE LATERAL DIREITO, 19 REAL SOCIEDAD
JARQUE CENTRAL, 19 ESPANHOL B
MURILLO CENTRAL, 18 ATHLETIC BILBAO
PEÑA LATERAL ESQUERDO, 18 BARCELONA C
MELLI CENTRAL, 18 BÉTIS
INIESTA MÉDIO CENTRO, 18 BARCELONA B
SOLABARRIETA MÉDIO CENTRO, 18 BASKONIA
SERGIO INTERIOR DIREITO, 18 ATLETICO MADRID B
CEBALLOS INTERIOR DIREITO, 19 ESPANHOL B
PINA INTERIOR ESQUERDO, 19 SARAGOÇA B
CARMELO MEDIO OFENSIVO, 19 LAS PALMAS
COROMINAS MEDIO OFENSIVO, 19 ESPANHOL B
REYES EXTREMO ESQUERDO, 19 SEVILHA
FERNANDO TORRES AVANÇADO-CENTRO, 18 ATLETICO DE MADRID
JONAN AVANÇADO, 19 ATHLETIC BILBAO B
SERGIO AVANÇADO, 19 BARCELONA B
EUROPEU SUB-19 (EX-SUB-18) QUADRO DE VENCEDORES
1981 RFA
1982 ESCÓCIA
1983 FRANÇA
1984 HUNGRIA
1986 RDA
1988 URSS
1990 URSS
1992 TURQUIA
1993 INGLATERRA
1994 PORTUGAL
1995 ESPANHA
1996 FRANÇA
1997 FRANÇA
1998 REPUBLICA DA IRLANDA
1999 PORTUGAL
2000 FRANÇA
2001 POLÓNIA
2002 ESPANHA