Europa: A maquina “desumana”

19 de Setembro de 2008
O futebol noutro nível. No “raio x” às primeiras viagens europeias portuguesas da época, o detectar das “luzes e sombras” que marcam hoje o jogo dos três “grandes”.

 

É como abrir uma porta que dá para outra dimensão da vida futebolística. As competições europeias levam jogadores e equipas para outro nível emocional, técnico e táctico. Sentem-se mais importantes. Mas, em certos pontos, a máquina “humaniza-se”.
 
Dois golos em dois minutos parece o inicio ideal para qualquer relação entre uma equipa e o jogo. Com sotaque argentino, Lisandro e Lucho, a rajada do remate de primeira depois do centro perfeito, primeiro uma curva cheia de tatuagens, saída dos pés e corpo de Raul Meireles (o intruso luso desta história de golos rápidos e bonitos) e, depois, um passe atrasado saído da bota de uma “cebola” uruguaia, metáfora que nos faz imaginar Cristian Rodriguez, um intérprete de futebol épico. É um tango com arranjos europeus na forma como alguns acordes já fogem dos românticos adornos sul-americanos. Porque o futebol europeu não é romântico. Não joga de vela na mesa e incenso no ar. Ama-me ou deixa-me. Joga com outro pragmatismo. A táctica, sempre a maldita táctica.
 
Na sala de visitas “dragoniana”, um onze turco de “facão” nos dentes. O FC Porto conseguiu dominar o jogo quando quis. Porque sabe imprimir-lhe um ritmo alto, circular com rapidez e chegado perto da área, rematar. Teve dificuldade em controla-lo quando era preciso. Porque lhe custa coloca-lo num ritmo mais baixo, para esconder a bola e jogar com o tempo. São problemas antigos. Mais visíveis na dimensão europeia. O debate do 4x4x2 e da sua importância quase metafísica a este nível (diferente do dócil campeonato, onde três médios até parecem cinco) é a chave desta equação táctica. Vejo o jogo e imagino como solução a outra face da “cebola”. Porque ele não é um extremo puro como parece neste 4x3x3. Porque foi como médio que se firmou na sua carreira. Por isso, vejo-o, naqueles momentos onde é preciso controlar, como o possível “quarto médio”, soltando na frente Lisandro e Hulk. Todas as grandes equipas de top no futebol europeu têm de saber manejar dois sistemas em pleno jogo. No Porto, há uma “cebola” com essa cultura táctica.
 
Na imensidão do relvado de Nou Camp, sentiu-se como até os losangos podem ter dimensões diferentes. Mais curto e discreto na versão nacional, como se fosse uma “teia de aranha”. Tudo tranquilo. A versão internacional exige, porém, outra extensão de jogo, neste caso um losango mais longo e firme para ocupar maior espaço de relva. A face dócil com que o jogo do Sporting passeou em Barcelona é, no fundo, um exemplo perfeito para se perceber duas frases que tanto utilizo para distinguir o nosso futebol do tal “outro futebol”: intensidade competitiva e ritmo internacional. Via-se as intenções no jogo leonino, nos toques de Moutinho e nos passes ou arranques de Rochemback e Izmailov, mas tudo aquilo necessitava de outro ritmo e intensidade, com bola ou na sua recuperação. Mais do que o temor reverencial pelo cenário e adversário, via-se a falta de rotinas competitivas da tal superior dimensão de vida futebolística.
 
Não é fácil mudar tudo isto, mas começar por mudar o olhar sobre a nossa curta realidade seria ideal para entender que o problema é a face humana da máquina. Porque o futebol é uma daquelas aventuras inventadas pelo ser humano onde, no fundo, se escondem as mais diferentes formas de vida. Não memorizar apenas uma. Os nossos clubes, grandes e pequenos, precisam de saber ser “vagabundos” europeus. Adaptar-se às diferentes realidades. Tudo está escondido nas mentes tácticas e emocionais. 
 

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