Os primeiros e os últimos minutos de jogo. Momentos distantes entre si, diferentes construções emocionais e tácticas dentro da cabeça da mesma equipa. Terá que existir, no entanto, algum ponto de contacto. Começa o jogo no Dragão e logo na primeira jogada, um centro para a área vai-se transformando em remate à medida que a curva que a bola faz vai se aproximando da baliza até entrar. Hulk ou Guarín e o FC Porto fica a ganhar ao CSKA logo no primeiro minuto. Quase a terminar o jogo em Liverpool e cada bola que se aproxima da baliza do Braga parece mais perigosa do que na realidade é. Em nenhuma das vezes ela leva a intenção clara de entrar. Os últimos minutos aumentam, porém, o bater cardíaco táctico da equipa. Artur, um guarda-redes sem nervos, defende o último disparo inglês e o Braga segura a eliminatória.
O futebol vive muito de boas ideias. Cada equipa tem os seus profetas de eleição. O factor que a segura é, porém, a corda táctica e emocional, que a liga do primeiro ao último minuto.
Na relva europeia, FC Porto e Braga são duas equipas competitivamente frias. Daquelas de metem o jogo no congelador e jogam o primeiro como se fosse o último minuto e vice-versa. Villas-Boas e Domingos, embora com filosofias diferentes (posse adiantada com bola versus linhas recuadas e contra-ataque), transmitem a mesma ideia coerente às suas equipas. Diferente da visão vertiginosa de Jesus. Em Paris, o último e o primeiro minuto são uma montanha russa emocional. A grande defesa de Roberto, a bola aos pulos perto da pequena área do Benfica e, de repente, já perto da baliza do PSG, com Cardozo a abrir clareira com o seu estilo perna-longa e Gaitan cada vez mais a pegar na lanterna que guia a equipa nos momentos de maior escuridão táctica. O jogo termina e o Benfica pode respirar.
As três equipas portuguesas estão nos quartos-final da Liga Europa, espécie de II Divisão europeia para a qual os gigantes de Espanha, Inglaterra, Itália e Alemanha não encontram estímulo competitivo. O Villarreal é o único intruso nessa avaliação elitista. De resto, duas equipas holandesas (PSV e Twente) e duas de leste, da ex-URSS (o Dínamo ucraniano e o Spartk Moscovo russo).
O trio luso português pode sonhar em ganhar uma competição europeia que se tornou no torneio ideal para equipas fora da elite milionária. Com o campeonato decidido, FC Porto e Benfica olham-na a partir de prismas emocionais diferentes (campeão anunciado versus segundo lugar cimentado), mas com igual esperança serena. O Braga, num nível diferente, pode continuar a sonhar, depois de eliminar uma fantasmagórica equipa do Liverpool a cujos jogadores nunca ninguém terá mostrado o livro de história do clube tal a forma desconexa como jogaram. E quando vemos, na frente, um rudimentar ponta-de-lança, Andy Carrol, que custou 40 milhões de Euros em Dezembro passar todo o jogo a procurar, sem ideias, uma bola aérea para usar a sua força física, vemos, com clareza, como o dinheiro só é tudo no futebol se for…bem gasto.
Perante a maior força, venceu a melhor estratégia. É esta a lei do futebol moderno. É essa capacidade superior do actual treinador português no cenário europeu (sobretudo em contraste com o lado anglo-saxónico) que faz o primeiro minuto ser tão parecido com o último em muitos jogos. E quando isso acontece, quase sempre, é sinónimo de bom resultado.
O “toque” de Jesus
O Benfica de Jesus solidificou, na época e meia que já leva de vertiginosa vida futebolística, uma ideia de equipa sem planos alternativos de jogo (no sistema e na estratégia). A sinceridade do seu 4x1x3x2 tem laterais (Maxi-Coentrão) a voar para o ataque, um trinco (Javi Garcia) que serve de âncora defensiva, três médios (Salvio-Aimar-Gaitan) que querem ser avançados e uma dupla atacante (Saviola-Cardozo) complementar (um corre e chuta, o outro segura e também remata). Em geral, ganha ou perde sempre no mesmo ritmo alto. Quer atacar, mete (ou troca) avançados. Quer defender, mete (ou alterna) defesas.
Em Paris, porém, Jesus mexeu no decorrer do jogo, mudando o desenho como não é habitual fazer. Vendo como o trio do meio-campo francês, sobretudo os seus dois médios mais subidos, estava a comer o corredor central ao jogo de controlo benfiquista, tirou um avançado (Saviola, subitamente deprimido) e meteu um médio (Carlos Martins, sempre rotativo) que foi jogar mais próximo de Javi Garcia. Com esta reciclagem posicional, meteu uma unidade-extra no tal espaço onde os médios do PSG estavam a pegar no jogo (aumentando possibilidades de ameaçar a baliza de Roberto). Nesse momento, Jesus entrou estrategicamente no jogo como treinador e, quase com um controlo remoto à distância, deu à equipa o equilíbrio que faltava num jogo que em vez de dominar, apenas precisa de controlar. São coisas diferentes e essa simples substituição demonstrou (com sucesso) o sentido dessa diferença.